27 de abril de 2012

Precisamos falar sobre Kevin



Temos uma forte tendência arraigada em nosso comportamento que é a de procurar os motivos para as atrocidades que cometemos ou que são cometidas contra a gente. Precisamos visceralmente de encontrar um bode expiatório para nossos erros, medos, desejos, pulsões, covardia etc... mas quando não encontramos um 'culpado', tudo se transforma em ruínas, estilhaços e peças de um quebra-cabeça que jamais será montado. A sensação massacrante que vem deste profundo desconforto foi PERFEITAMENTE trabalhada no filme Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, England 2011) que parece ter sido feito sob medida para a talentosíssima e sui generis atriz Tilda Swinton. Nenhuma atriz da atualidade conseguiria expressar tamanha dor, sofrimento e estupor diante dos fatos que acontecem.

Quando uma mulher dirige um filme deste porte, temos inevitavelmente uma obra-prima. A sensibilidade que a diretora Lynne Ramsay imprime ao nos narrar a história - mesmo que cheia de flashback que ao telespectador desatento seria um prejuízo - nos tira do conforto da poltrona e questiona profundamente os nossos valores éticos e morais. Seria quase impossível ficar inerte ao assistir as cenas da película sem emitir um juízo de valor.

O filme nos relata a história de um adolescente (Kevin) que comete um assassinato em massa, gerando assim um turbilhão de reações psicológicas avassaladoras em sua família e, principalmente, em sua mãe. A cada feedback no enredo, temos conhecimento de uma parcela da infância de Kevin que, desde muito pequeno, desenvolveu um prazer doentio em provocar e desconcertar sua própria mãe. Ao crescer, o pequeno sádico requinta e estiliza a forma com que desafia sua mãe. O tempo todo, Eva, tenta falar do filho com o marido, mas não obtém retorno. Na cabeça do pai o filho é querido e meigo com um comportamento típico de um garoto de sua idade. Um grande exemplo no que a falta de diálogo pode levar um casal ou do que a falta de percepção de uma pessoa pode provocar.

Imperdível e altamente recomendado para quem interessa em discutir a essência humana e suas mazelas.