21 de setembro de 2012

A delicadeza do amor

A vida nos ensina quase que diariamente a lidar com imprevistos e situações que testam a nossa força interior  e o nosso senso de sobrevivência. Esta talvez seja uma das mágicas de viver: a imprevisibilidade dos acontecimentos e do que nos espera no futuro - futuro este que pode ser daqui 5 minutos ou daqui 5 anos!

Nossos valores ético-morais podem virar-nos de cabeça para baixo quando nos deparamos com uma situação com a qual não fazíamos a menor ideia que poderia nos acontecer. A morte de um ente querido, por exemplo, é uma delas. Quem já perdeu alguém próximo e/ou alguém que amava intensamente vai entender completamente o que estou mencionando. Com este cenário encontramos a personagem de Audrey Tautou, Nathalie, que é doce, jovem, linda, inteligente e tem um casamento digno de conto de fadas, com tudo no lugar certo! Um acidente muda completamente o rumo das coisas em sua vida e a faz repensar, reformular e reavaliar praticamente a sua vida integralmente.

As cenas, os gestos, as tomadas, as cores, a música, o silêncio, a tonalidade, o oculto... são fatores altamente motivantes no filme A DELICADEZA DO AMOR (LA DÉLICATESSE, PARIS 2011). O filme em si é capaz de se sustentar com a suavidade, a leveza e a profundidade com que trata as emoções tão fortes e avassaladoras. O conceito de felicidade é questionado a cada instante, paralelamente ao questionamento levantado do conceito estético da beleza. É possível apaixonar-se por quem é considerado feio?! O filme é recheado de lutas, medos, anseios, sorrisos, gargalhadas. É muito poético ao narrar os mergulhos existenciais feitos pela personagem principal ao tentar recuperar-se de tamanha dor sofrida. 

A vida é feita de ciclos... e por mais que você não admita, uma coisa não temos como mudar: um novo ciclo se abre apenas quando você encerra, literal e integralmente, o ciclo anterior. Fácil não é... e é justamente por isso que muitos se perdem no meio do caminho quando na verdade estão perto de iniciar um novo momento em suas vidas!

Este filme é único... e imperdível para aqueles que gostam de pensar e repensar seus próprios valores!

23 de agosto de 2012

Vale praticar a DR?

Quando eu vejo uma estreia com a Meryl Streep, vou cegamente sem medo de me frustrar. Mesmo se ela  protagonizasse um filme de funk carioca eu iria - nada contra os cariocas, vale ressaltar. Eu penso que não existe uma atriz moderna tão eficiente, tão talentosa e tão profunda no que faz.

E, mais uma vez, me encantei, me emocionei, chorei e gargalhei ao mesmo tempo que fiquei estupefato diante do talento de Meryl dramatizando e dando vida a algumas situações que parecem vulgares ou grosseiras, mas não nas mãos de Mistress Streep.

O roteiro parece comum - e na verdade é - UM DIVÃ PARA DOIS (HOPE SPRINGS, EUA 2012) fala de uma dona de casa exemplar que tenta arrastar o seu teimoso marido, vivido por Tommy Lee Jones (que parece dar a alma ao papel como se fosse parte de sua vida!) para o divá do famoso Dr. Bernie (Steve Carell) após sentir que a vida de casado estava se tornando sem sentido. A ambiguidade em dividir o divã e a cama está amplamente trabalhada no roteiro e no desenrolar das ações no filme. Questionamentos fácies de serem espelhados por todos os telespectadores, dando-nos uma sensação de "eu sei o que ela está passando".

O trailer não é um terço do que o filme tem para oferecer, mas vale a pena assistir:

Abra-se para um mundo no qual a maioria prefere não adentrar... e descubra que pode ser divertido SIM falar de sexo!

19 de julho de 2012

Seja simples e ponto final

Hoje lembrei-me de uma máxima dita por Pascal que nos aconselhava a não sairmos do nosso quarto se quiséssemos ser felizes. Não é demais esta constatação? Ela nos faz pensar no conceito ser feliz.

Quando saímos de nosso universo particular, seja ele a nossa casa ou o nosso quarto, temos a oportunidade de assimilar aprendizados e prazeres que quase sempre vêm mesclados com desconfortos e incompreensões. Este é o mundo real! Não é fácil lidar com a dimensão e o pluralismo das pessoas, ainda mais no mundo atual onde todos querem estar conectados com aplicativos e tecnologias e estão desaprendendo a olhar nos olhos e a sorrir desinteressadamente. É fácil deixar alguém descontrolado hoje em dia: só tirar o seu celular de suas mãos por alguns minutos. Soa como se estivéssemos tirando o tubo de oxigênio que o alimenta.

Temos uma tendência, quase doentia, de criar obstáculos que nos complica quase tudo na vida. Penso que a solução única é trabalharmos em direção a descomplicar tudo e todos. As soluções mais simples são sempre as mais eficientes. Temos que aprender e exercitar o ato de não permitir que nossa mente dificulte o que é fácil - acredito que este pode ser um dos grandes segredos da felicidade duradoura. 

Um barulho de chuva no telhado ao adormecer tem o efeito bem diferente do que a compra de um iPad, por exemplo. Já parou para pensar nisso?

16 de julho de 2012

Para Roma com amor

Sábado a tarde, depois de uma semana exaustiva no mestrado e no trabalho, resolvi escolher um filme para relaxar. Como eu não queria correr risco de 'perder' meu tempo, fui de Woody Allen que amo e admiro profundamente seu trabalho. Excelente escolha: Para Roma com amor (To Rome with love, 2012) tem excelentes atuações de Alec Baldwin, Penelope Cruz e do próprio Woody Allen num papel hilário e com as melhores falas/piadas, obviamente. O longa é segmentado em 4 partes principais. Em uma delas, um casal americano (Woody Allen e Judy Davis) viaja para conhecer os pais do noivo de sua filha. Outra história fala de Leopoldo (Roberto Benigni), um simples cidadão que se torna famoso da noite para o dia ao ser confundido com uma celebridade. A terceira história fala de um arquiteto (Alec Baldwin) que está visitando a Itália com um grupo de amigos. E na última história temos dois jovens recém-casados que se perdem  um do outro por uma casualidade geográfica, levando-os a viver situações hilárias e altamente inesperadas.

Pude matar saudades do tempo que passei uma semana na cidade de Roma - que amo incondicionalmente - e ao mesmo tempo dar boas gargalhadas diante de um roteiro inteligente, bem escrito, bem dirigido e com atuações exemplares numa trilha sonora tipicamente italiana.

O diretor ainda usa de algumas fórmulas que funcionaram em seus filmes anteriores e que, a meu modo, se tornam quase obrigatória nesta sua sequência de filmes sobre metrópoles turísticas: imagens de pontos turísticos de tirar o fôlego e atores consagrados em papeis próximos do mundo real.

Woody Allen segue em frente em sua "turnê" cinematográfica, depois de "esquecer" sua amada Nova York. Antes desta película, ele rodou filmes em Londres (Ponto Final - Match Point (2005), Scoop - O Grande Furo (2006), O Sonho de Cassandra (2007) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010) ), Barcelona (Vicky Cristina Barcelona (2008) e Paris (Meia Noite em Paris (2011). Todos são dignos e muito interessantes!

Não tenha dúvida ao escolher Woody Allen na sua versão italiana... é diversão garantida para aqueles que curtem filmes com diálogos filosoficamente engraçados!


13 de julho de 2012

A força de aceitar-se falho



Lendo um conto de Graham Greene tive alguns questionamentos interessantes. No conto, um vilão sai livre e saltitante de seu julgamento, depois de conseguir que as provas que o incriminavam fossem consideradas insuficientes. No entanto, ao atravessar a rua, ele morre atropelado. Agonizando, em suas últimas palavras antes de fechar os olhos para sempre, ele agradece por ter sido a providência divina a condená-lo, não os votos do júri: "Odeio ser julgado pelos outros, prefiro que sejam as circunstâncias a me julgar".

Pensei comigo ao ler o mencionado conto... quantas pessoas, provavelmente por excesso de zelo vindo dos seus próprios pais, são acostumadas a sempre serem desculpadas de qualquer erro ou falta e mesmo assim recebem mais amor do que realmente merecem naquele momento. Estas pessoas crescem e têm uma tremenda dificuldade em aceitar que um estranho as coloque em seus devidos lugares. Sofrem profundamente quando os outros mostram seus erros e não sabem lidar com isso.

Aceitar um julgamento alheio a nosso respeito é algo grandioso e denota uma apurada sabedoria. Exige força! Não é para muitos, pois exige demasiada carga de maturidade. As pessoas de um modo geral gastam muito tempo apontando erros nos outros e nenhum segundo analisando seus próprios desajustes internos.


Meus pensamentos vão de encontro ao que Oscar Wilde certa vez escreveu: "As desventuras são insuportáveis porque vêm de fora, são meros acidentes. É no sofrimento causado pelas nossas próprias faltas que sentimos a ferroada da vida". 

27 de abril de 2012

Precisamos falar sobre Kevin



Temos uma forte tendência arraigada em nosso comportamento que é a de procurar os motivos para as atrocidades que cometemos ou que são cometidas contra a gente. Precisamos visceralmente de encontrar um bode expiatório para nossos erros, medos, desejos, pulsões, covardia etc... mas quando não encontramos um 'culpado', tudo se transforma em ruínas, estilhaços e peças de um quebra-cabeça que jamais será montado. A sensação massacrante que vem deste profundo desconforto foi PERFEITAMENTE trabalhada no filme Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, England 2011) que parece ter sido feito sob medida para a talentosíssima e sui generis atriz Tilda Swinton. Nenhuma atriz da atualidade conseguiria expressar tamanha dor, sofrimento e estupor diante dos fatos que acontecem.

Quando uma mulher dirige um filme deste porte, temos inevitavelmente uma obra-prima. A sensibilidade que a diretora Lynne Ramsay imprime ao nos narrar a história - mesmo que cheia de flashback que ao telespectador desatento seria um prejuízo - nos tira do conforto da poltrona e questiona profundamente os nossos valores éticos e morais. Seria quase impossível ficar inerte ao assistir as cenas da película sem emitir um juízo de valor.

O filme nos relata a história de um adolescente (Kevin) que comete um assassinato em massa, gerando assim um turbilhão de reações psicológicas avassaladoras em sua família e, principalmente, em sua mãe. A cada feedback no enredo, temos conhecimento de uma parcela da infância de Kevin que, desde muito pequeno, desenvolveu um prazer doentio em provocar e desconcertar sua própria mãe. Ao crescer, o pequeno sádico requinta e estiliza a forma com que desafia sua mãe. O tempo todo, Eva, tenta falar do filho com o marido, mas não obtém retorno. Na cabeça do pai o filho é querido e meigo com um comportamento típico de um garoto de sua idade. Um grande exemplo no que a falta de diálogo pode levar um casal ou do que a falta de percepção de uma pessoa pode provocar.

Imperdível e altamente recomendado para quem interessa em discutir a essência humana e suas mazelas.


22 de março de 2012

O ego e suas artimanhas

Sempre que estamos ao lado de um estranho, temos a tendência de puxar assunto usando o clima como mote principal. Geralmente falamos “Que calor” ou “Que chuva” e, por ai vai. De certa forma, quase sempre iniciamos uma conversa reclamando de algo. Quem está realmente falando nesta hora é o nosso ego. Ele é como uma criança mimada que requer atenção o tempo todo. Se não o atendermos, ele fará birra. E se você for mais perspicaz em seu dia-a-dia vai perceber uma enorme quantidade de pessoas que andam fazendo bico e resmungando da vida e de tudo. Resmungam até quando não têm motivo para tal. Reclamar vicia!

Diria que o mesmo acontece com as pessoas que convivemos. Muitas são mentirosas, falsas, mesquinhas, traiçoeiras... o que no fundo não temos muito o que mudar. Cada um é o que é. Mas COM CERTEZA poderemos mudar a forma como sentimos e interpretamos o comportamento destas pessoas.

Eu costumo meditar que “ninguém consegue ofender ninguém se a pessoa não permitir”. Não quero criar apologia à violência, muito pelo contrário, quero dizer que as tentativas de ofensas são conceitos totalmente subjetivos. Quase sempre não sabemos distinguir entre uma situação e sua interpretação de uma reação a esta mesma situação.  E o ego adora bagunçar nossos interesses.

Muitas coisas não podem ser mudadas apenas porque as percebemos, mas podemos coordenar a nossa reação diante de um incômodo pessoal. Isso é ser emocionalmente inteligente. O ego é esperto.

A esperteza divide, enquanto a inteligência inclui. Pense nisso!

25 de janeiro de 2012

Luiza, Estupro, refrões musicais vulgares e outras brasilidades


Gastam-se páginas e páginas de revistas, horas e horas em redes televisivas e dias e dias do tempo do povo brasileiro comentando exaustivamente  alguns assuntos fúteis e recorrentes. 

Um deles é sobre uma desconhecida que se torna 'famosa' da noite para o dia depois que o pai, durante um comercial de televisão, menciona que a família toda está reunida, menos a tal filha que está no Canadá - denotando um extremo mau gosto que beira à arrogância típica da classe média brasileira.

O outro é um suposto estupro acontecido no exaustivo reality show que trata os participantes como ratinhos de laboratório, onde se dá comida, determina provas e bebidas, de acordo com a necessidade da pesquisa - no caso aqui, troca-se pesquisa por ibope. O casal bêbado dança em ritmos totalmente eróticos, vão para cama juntos, inciam carícias altamente sexuais e a suposta vítima adormece. O afoito 'vilão' continua matando sua sede carnal em rede nacional e acaba indo para delegacia prestar esclarecimentos. A moça, branca e loira fazendo-se de ingênua, continua no programa.

E o último caso resume-se numa vulgar melodia que não sai da boca do povo. A 'essência' da chamada música se resume em 'pegar' uma pessoa. E olha que o gesto coreográfico que acompanha o pegar não é nada sutil. É o típico jeitinho brasileiro condensado numa gesticulação que insistem em chamar de música.

Impossível não pensar nos valores culturais que nosso país está cultivando, ou melhor, está descultivando. Difícil não ficar chocado ao ver criancinhas dançando e repetindo gestos que soam vulgares e ridículos. Triste saber que ocupamos horas do nosso dia discutindo algo totalmente banal e inútil que molda a cabeça de nossas crianças.

Enquanto isso... ai ai ai se perguntarem sobre a nossa colocação mundial no ranking da educação!!!!!