3 de maio de 2011

Cópia Fiel


Nos tempos atuais é quase impossível definirmos o conceito de cópia x original. A dualidade autoral é quase sempre permeada por questionamentos de valores morais. A qualidade de uma peça artística depende muito do contexto e dos olhos de quem a analisa/vê. Este argumento permeia o discurso principal do personagem escritor inglês James Miller (William Shimell) nos minutos iniciais de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Por outro lado, uma falsificação pode ter a mesma validade de um original. A cópia, quase sempre, atualiza o original. É assim com uma reprodução de um quadro famoso, por exemplo. Uma cópia de mulher - um crossdresser ou um travesti - quase sempre é mais "real" do que uma mulher de verdade, feita de carne e osso - sem retoques estéticos.

O escritor James Miller está com passagem marcada para voltar para a Inglaterra após terminar sua palestra de lançamento de seu livro, mas aceita de Elle (Juliette Binoche), no papel de uma francesa dona de galeria que há anos vive na Itália com seu filho, um convite para passear pelas poéticas ruas da comuna de Lucignano.

Muito tempo que eu não assistia a um filme tão envolvente, magnético e ao mesmo tempo estranhamente sedutor. Ambos protagonistas falam fluentemente três idiomas: inglês, francês e italiano, de forma assustadoramente natural. Como se a maior barreira entre eles fosse aquela vinda da distância psicológica, e não do limite físico e/ou linguístico.

O diretor Abbas Kiarostami diz que cada um deve interpretar a obra como quiser, mas é inegável o seu sadismo em colocar o telespectador em dúvida quase todo o tempo. O perfeito jogo de cena com espelhos e reflexos, faz da película uma obra-prima sem igual, onde objetos isolados em uma paisagem de tirar o fôlego são capazes de nos tirar os pés do chão. O não-dito fala mais do que as palavras pronunciadas. O olhar da estonteante Juliette quando somado ao seu sorriso monalítico faz-nos sofrer por ela, com ela e para ela. Seduza-nos, doce Monaliza! O diretor arranca dos atores o seu melhor, como se a câmera fizesse parte da paisagem.

Uma atriz madura e segura de si, capaz de despir-se de conceitos estéticos e, ainda assim, estar linda e estonteante. Pura, simples e bela. Um show de interpretação e palmas para James Miller e Juliette Binoche, que mesmo tão distantes um do outro, parecem realmente próximos e apaixonados. Atores-cópias do mundo real, mas vindos de um mundo mágico e apaixonante, que é o cinema!