4 de dezembro de 2011

E a necessária dança das máscaras



É como numa preparação para um espetáculo. Diariamente olhamos no espelho e escolhemos qual máscara usaremos. Sempre usamos algumas que são padrão: pai dedicado, filho exemplar, aluno excelente, chefe mandão, líder amigo, amigo honesto, namorado fiel, funciónário do mês etc...  algumas são usadas com tanta frequência que grudam em nosso rosto/ser a ponto de nos confundir profundamente, gerando uma crise de identidade. Facilmente pensamos que SOMOS o que na verdade ESTAMOS usando! O perigo é que a máscara pode grudar de tal forma que os dois rostos se fundem e não sabemos mais qual é o verdadeiro (se é que existe algum). Perdemos a nossa identidade no emaranhado de 'personalidades' que vamos usando ao longo da vida. Vamos seduzindo a tudo e a todos, como em um baile de máscaras, e no final, ao olharmos no espelho, descobrimos que enganamos a nós mesmos.


Muitas vezes ouvimos a expressão "dar a cara à tapa" - simbolizando a necessidade de sermos corajosos para enfrentar uma situação onde podemos ser julgados e expostos, mas em raríssimos momentos estamos realmente dando a cara para bater. Frequentemente estamos exibindo uma máscara para nos proteger, não para bater. Não necessariamente é ruim ou significa que não somos verdadeiros. Muito pelo contrário! Muitas vezes levamos anos construindo uma máscara que pode nos proteger de momentos de grande dor ou sofrimento. Não existe uma pessoa sequer neste planeta que não tenha desenvolvido suas próprias máscaras. Dezenas, centenas, milhares... quanto menos delas, mais corajosos nos tornamos, pois lidar com nossos fantasmas internos é uma atitude para bravos. E bravura é, sem dúvida alguma, algo raro hoje em dia. Não confunda bravura com violência!

Não é à toa que apreciamos tanto o teatro, os filmes e as novelas. Ali, apesar de temos a certeza que os personagens estão 'fingindo', sentimos prazer e nos projetamos no baile de máscaras apresentado em cada uma destas artes. É saudável, é necessário, é imprescindível... até certo ponto.

O maior perigo não é o USAR máscaras, mas sim o CAIR delas. Afinal de contas todo baile tem hora para começar e hora para terminar... o ideal é aproveitarmos enquanto a valsa ainda embala nossos devaneios, pois a carruagem sempre se transforma em abóbora quando o tempo expira.



31 de outubro de 2011

O palhaço em cada um de nós

Meus gêneros preferidos de filme sempre foram o drama e o suspense. Neste quesito sempre apreciei os trabalhos de Las Von Trier, Woody Allen, Alfred Hitchcok e por ai vai... são diretores que entendem da arte de questionar e expressar as dificuldades humanas e suas relações afetivas. Geralmente não assisto comédias porque elas mais me irritam do que me divertem. Tenho algumas exceções, claro, tais como: A sogra (Monster-in-Law, 2005), Alguém Tem que Ceder (Something's gotta give, 2003) e Simplesmente Complicado (It's complicated, 2009), pois são filmes cômicos recheados de inteligência. É muito mais difícil para um filme de comédia ser engraçado do que um drama ser pesado, isto é um fato inquestionável.

Voltando ao mundo da comédia... confesso que fui assistir ao filme "O PALHAÇO" (2011) de Selton Mello com muito receio, já imaginando que eu poderia arrepender-me até o último fio de cabelo, mas resolvi dar uma chance ao cinema nacional. Era o filme seguinte ao horário do meu almoço, resolvi apostar!

Aposta ganha! Um filme intenso e profundo que naturalmente tem a artimanha de nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo - Senton Mello consegue proezas na direção e na atuação usando a simplicidade dos diálogos e a composição natural das cores da paisagem do centro-oeste.  Tudo isso regado às excelentes atuações de atores não conhecidos do público, mas com talento e veia cômica apuradíssimos. Excelentes participações especiais de alguns atores esquecidos da telinha.

Esta obra é um exemplo claro e típico de que o sucesso pode ser atingido com a simplicidade sem a pirotecnia que os filmes modernos usam para nos chamar a atenção. Parabéns ao Selton e ao Brasil que está tateando a merecida projeção cinematográfica sem a maçante apelação sexual dos clichês!

26 de outubro de 2011

Malhação interna

Outro dia, durante minha aula de Yôga percebi uma pequena cicatriz no meu corpo que eu nunca tinha notado nem sequer me lembrava de como ela tinha sido feita... aquela observação me levou a tantos outros pensamentos que passei o restante da aula viajando no tempo e no espaço. Sempre fui muito preocupado em evoluir de dentro para fora. Talvez por isso que ao conhecer o Yôga eu tenha me identificado tanto.

Costumamos não conhecer nosso próprio corpo físico - lido com este desafio diariamente em cada ásana no Yôga que tenho que avançar, avançar e avançar quando o corpo, na verdade, já está no limite físico - e por vício e comodismo sempre colocamos nossa atenção apenas no mundo externo. É sempre mais fácil perceber os erros/defeitos nos outros do que em nós mesmos! A velha mania de apontar os dedos.

Geralmente é notório quando uma pessoa não se aceita fisica ou psicologicamente. Ela é azeda, amarga, pessimista e agressiva. Estas pessoas, negativas, estão sempre cercadas de problemas, dramas e incidentes. São reações geradas pela incapacidade de se "conhecer". Temos que ser fortes para encarar nossos próprios defeitos, pois só assim poderemos dizimá-los e/ou reduzí-los de tal forma que sejam imperceptíveis! Cultivar o bem e reduzir o mal. Iluminar de dentro para fora para que nossos 'quartinhos' escuros percam a força! Fácil não é, mas os resultados são extasiantes.

Autoconhecimento é necessário de forma infinita em nossas vidas. Acho uma discrepância a sociedade moderna que incentiva e valoriza o silicone, os corpos esculturais, os dentes artificiais, as pílulas sexuais etc mas mascaram a realidade interna. Acho necessário e altamente recomendado que as pessoas se cuidem e sejam vaidosas. Mas a vaidade isolada do autoconhecimento é algo totalmente pernicioso!

A cada quilo levantado nas academias deveríamos criar novas sinapses cerebrais lendo um bom livro, aprendendo um novo idioma, praticando uma meditação etc.

O que futuramente pode acontecer é que teremos corpos perfeitos carregando mentes desequilibradas!

2 de outubro de 2011

A árvore da Vida

É interessante como o diretor Terence Malick consegue nos extasiar já nos primeiros instantes que sua obra "A árvore da vida" (The tree of life, EUA, 2011) abre a tela. Tudo parece desconexo - para quem está acostumado a assistir filmes com narrativas lineares. Tira-nos o conforto do óbvio.

O enredo gira em torno de uma família texana na década de 50. Brad Pitt faz um pai durão e exigente, casado com uma linda e carinhosa dona de casa interpretada pela atriz Jessica Chastain. O nascimento dos 3 filhos homens dá o desfecho dramático ao exibir as etapas de sua educação e desenvolvimento.

A filme vai e volta no tempo, constantemente, fazendo com que o telespectador desatento se perca facilmente e sinta-se frustrado no entendimento da história. As imagens da natureza exemplificadas na figura de dinossauros, estranhos seres marítimos, universo e suas luzes, explosões vulcânicas e solares, é de tirar o fôlego e deixar qualquer um relaxado e pensativo na poltrona do cinema.

É um filme para "meninos" sobre meninos... é impossível assistir às cenas e não se identificar com o universo no qual elas foram retratadas. Algo mágico, reminiscente e altamente nostálgico vem à tona. Uma drama bem escrito, equilibrado e bem dirigido onde excelentes cenas geradas ao acaso - principalmente com os bebês - tão um tom de realidade absurda.

É uma obra para ser sentida, admirada e não para ser explicada ou racionalizada!

16 de agosto de 2011

As bruxas de Eastwick - A Pornochanchada Brasileira

Resolvi ir na estreia do musical "As bruxas de Eastwick" - baseado no filme americano da década de 80 estrelado por Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer e Cher. O filme dispensa apresentações. Quem não o viu, deve ir correndo à locadora. Divertido e muito interessante... é uma obra repleta de efeitos especiais. O roteiro do filme é baseado no livro John Updike.

Sempre que vou assistir alguma montagem brasileira, confesso que vou com receio. Pode ser preconceito meu, admito, mas é inevitável este sentimento. Mesmo assim eu fui... gosto de conferir.

O papel de Daryl Von Horne - vivido nas telas por Jack Nicholson - foi interpretado pelo ator global Eduardo Galvão, que mesmo tentando imitar alguns trejeitos do ator americano, deixou muito a desejar. Não conseguiu dar o timbre adequado ao personagem nem tampouco atingiu as notas musicais exigidas. O diabo, Daryl Von Horne, deveria ser sedutor, erotizador, provocador... sim, o ator global tentou, mas ficou mais caricato do que convincente. Não esotu mencionando as 3 vezes que o sistema de som falhou e o ator teve que tentar segurar as falas na voz impostada! Os efeitos especiais e o cenário estavam ótimos... quem sabe daqui uma década poderemos equiparar aos da Broadway... o papel de Fafy Siqueira ajudou o elenco a elevar a veia cômica. Ela tem talento para comédia. Inquestionável!

Uma coisa me deixou totalmente insatisfeito: a mania que o brasileiro tem de achar que só se faz comédia falando palavrão. A tão temida pornochanchada! Em menos de uma hora de musical eu contei 15 palavrões. Não estou dizendo palavrinhas de desabafo... estou dizendo PALAVRÕES. E mesmo eu tendo conferido que a faixa etária permitida era 12 anos, achei completamente inadequada. As risadas que dei foram eliminadas pelos palavrões que ouvi! Divertido, confesso que sim, mas misturar palavrões com corpos nus não é uma receita para sermos respeitados enquanto arte... o Brasil ainda insiste em ficar no rótulo erótico e seguir a linha da apelação erótica para 'tentar' vender. Depois reclamam quando os gringos vem aqui e nos tratam como 'animais' da floresta.

20 de julho de 2011

Dê-me sua mão...

Uma questão comportamental permeia as mentes humanas por séculos... o que faz um relacionamento durar e/ou definhar? Algumas pessoas acreditam que é a cumplicidade, o carinho, a fidelidade, enquanto outras pensam que é a vontade de estar juntos é que faz a duração acontecer. Para muitos, ter um relacionamento é equivalente a abdicar de suas próprias vontades. É quase sinônimo de anular-se.

Um querido amigo diz que para um relacionamento durar temos que querer, temos que abrir mão de nossas vontades individuais e nos embrenhar nas descobertas árduas da vida a dois. Ele tem uma frase engraçada que eu também compartilho: “amor por si só não é garantia de felicidade”. Mas então o que nos garante a felicidade? Podemos nos anular e ainda assim sermos felizes?

Penso que, antes de qualquer questionamento neste sentido, temos que mapear o conceito de felicidade. Para mim, ele não passa de algo individual e personalizado. Não podemos ser felizes se dependemos do outro. Temos que ser feliz COM ou SEM estar ao lado de alguém. Felicidade é um estado imaginário. É um estado intrínseco, não uma condição – penso eu.

Outro conhecido meu usou uma analogia intrigante. Ele trabalha com a sensibilidade, é fotógrafo, e está vivendo um dilema interessante. Ele acredita que para um relacionamento acontecer, deve existir um ‘querer’ de ambos os lados. Como uma mão aberta à espera da outra... o enlace não pode ser feito apenas por uma mão sozinha, ela sempre precisa do complemento da outra para que a união seja completa e complementada. Chega a ser romântica esta visão, mas é bem coerente! Soa como parceria, um auxiliar o outro. Quando eu o ouvi dizer isso, lembrei-me da primeira vez que fui à Roma e pude ver com meus próprios olhos a magnífica pintura de Michelangelo “A criação de Adão” no teto da Capela Sistina. Esta imagem me impressionou tanto que hoje mantenho uma reprodução dela na parede da minha sala. Impossível não vê-la diariamente.

O mundo atual nos faz cada vez mais distantes das pessoas e mais próximos das máquinas e dos computadores. Já presenciei inúmeras vezes, pessoas que são exímias na comunicação virtual, mas quando as encontramos pessoalmente são falhas e produzem mais ruídos do que realmente transmitem uma mensagem eficiente. Estamos desenvolvendo mecanismos elaborados no mundo virtual, mas proporcionalmente estamos atrofiando nossa capacidade de entender, sentir e compreender o outro em carne, osso e alma.

Acho interessante ouvir várias pessoas reclamarem, direta ou indiretamente, que ninguém quer nada sério, que o mundo está maluco, que as pessoas não querem namorar etc... mas no fundo estas afirmações não passam de desculpas para não terem que assumir a sua própria covardia diante de um relacionamento REAL. Relacionamento é algo para corajosos. Todo o resto, não passa de desculpas pseudo-elaboradas. Felicidade a dois é uma escolha para os bravos.

10 de julho de 2011

Meia noite em Paris

Gosto de assistir a um filme e sair do cinema com a sensação de que fui tirado do 'conforto' mental. Acredito que um dos principais papeis de um bom diretor é o de TRANSCENDER o pensamento medíocre e o senso comum. E isso, o meu preferido diretor Woody Allen conseguiu muito bem com o longa "Meia noite em Paris" (Midnight in Paris, 2011).

Já na primeira cena percebemos a admiração do cineasta pela exuberante Paris.  Somado às ótimas atuações de Owen Wilson e Marion Cotillard, temos então um estupendo momento de beleza cênica e diálogos que parecem ter saído de uma conversa entre Freud e Nietzsche no boteco da esquina - sem aquele caráter profissional. Um filme repleto de referências interessantes e piadas dignas de quem aprecia grandes artistas como Bruñel, Hemingway, Picasso, Dalí etc.

Interessantes o questionamento levantado pelo roteiro de que sempre queremos, e glorificamos, a época anterior do que a presente. Quase sempre estamos nostalgicamente idolatrando o nosso passado e, com isso, mal vivemos o presente e o que ele pode nos oferecer.

Para muitos, deve ter sido um filme comum que elogia exageradamente a cidade de Paris... mas para mim, foi um obra que me fez pensar na importância de viver os momentos diários. A cena final, perfeita, foi capaz de amarrar todos os questionamentos levantados no filme e nos dar a sensação de que sempre há uma luz no final do túnel.

Para o amor não existe meio termo!!!

5 de junho de 2011

Império dos Sentidos


Gosto de me surpreender com a visão de alguns diretores, com a mágica interpretação de certos atores e com a sensibilidade de alguns fotógrafos. Um filme bem produzido usa estes artifícios para atingir nossa alma, despertando algum sentimento e/ou nos tirando do ostracismo mental. Alguns atores nos surpreendem pela verdade com que compõem seus personagens e dão vida, movimentos, pensamentos e intenções.

Quando peguei o DVD do filme japonês "Império dos sentidos" (L'empire des sens, 1976) escrito e dirigido por Nagisa Oshima, não pensei que fosse me incomodar tanto com uma obra de ficção. Aí que mora o perigo! O drama erótico é baseado em história real, ótimo... não vejo nada demais... mas as cenas de sexo, e são a maioria, também são reais. O enredo fala de uma ex-prostituta que envolve-se apaixonadamente com o senhorio da propriedade onde ela é criada. Tudo começa como diversão e vai assumindo ares de intensidade e beirando à inconsequência avassaladora. Uma busca sem limites ao prazer total e absoluto! Prepare-se para cenas de nudez a todo instante e dispa-se de todos seus pudores sexuais.

A mistura de ficção e realidade torna-se uma só, levando-nos a confundir as dimensões e ao mesmo tempo pausar o filme - sim, eu fiz isso por 2 vezes para poder tomar água e espairecer a cabeça - na esperança de que o que eu mais temia não acontecesse, mas aconteceu! Não é o que fato em si que nos choca, mas a forma como ele é narrado e quais artifícios o diretor usa!

Eu sou, assumidamente, medroso quanto se trata de filmes de terror... não é um medo primal, pelo contrário, não consigo me divertir vendo a um filme de terror. E, para mim, cinema tem qeu ser divertido e/ou no mínimo prazeroso. Não gosto de cenas com faca, agulhas, espadas e quaisquer instrumentos usados para tortura. Império dos sentidos não tem NADA de terror, mas mexe profundamente com nossos sentidos, gerando um certo desconforto. 

Se você tiver coragem, e nervos fortes, sugiro assistir a este filme sem nenhuma criança por perto... nem mesmo aquele seu amigo descontrolado deve assisti-lo... vai saber! Bom divertimento... e depois não diga que eu não avisei! Mas que é um filme intenso, isso é!

3 de maio de 2011

Cópia Fiel


Nos tempos atuais é quase impossível definirmos o conceito de cópia x original. A dualidade autoral é quase sempre permeada por questionamentos de valores morais. A qualidade de uma peça artística depende muito do contexto e dos olhos de quem a analisa/vê. Este argumento permeia o discurso principal do personagem escritor inglês James Miller (William Shimell) nos minutos iniciais de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Por outro lado, uma falsificação pode ter a mesma validade de um original. A cópia, quase sempre, atualiza o original. É assim com uma reprodução de um quadro famoso, por exemplo. Uma cópia de mulher - um crossdresser ou um travesti - quase sempre é mais "real" do que uma mulher de verdade, feita de carne e osso - sem retoques estéticos.

O escritor James Miller está com passagem marcada para voltar para a Inglaterra após terminar sua palestra de lançamento de seu livro, mas aceita de Elle (Juliette Binoche), no papel de uma francesa dona de galeria que há anos vive na Itália com seu filho, um convite para passear pelas poéticas ruas da comuna de Lucignano.

Muito tempo que eu não assistia a um filme tão envolvente, magnético e ao mesmo tempo estranhamente sedutor. Ambos protagonistas falam fluentemente três idiomas: inglês, francês e italiano, de forma assustadoramente natural. Como se a maior barreira entre eles fosse aquela vinda da distância psicológica, e não do limite físico e/ou linguístico.

O diretor Abbas Kiarostami diz que cada um deve interpretar a obra como quiser, mas é inegável o seu sadismo em colocar o telespectador em dúvida quase todo o tempo. O perfeito jogo de cena com espelhos e reflexos, faz da película uma obra-prima sem igual, onde objetos isolados em uma paisagem de tirar o fôlego são capazes de nos tirar os pés do chão. O não-dito fala mais do que as palavras pronunciadas. O olhar da estonteante Juliette quando somado ao seu sorriso monalítico faz-nos sofrer por ela, com ela e para ela. Seduza-nos, doce Monaliza! O diretor arranca dos atores o seu melhor, como se a câmera fizesse parte da paisagem.

Uma atriz madura e segura de si, capaz de despir-se de conceitos estéticos e, ainda assim, estar linda e estonteante. Pura, simples e bela. Um show de interpretação e palmas para James Miller e Juliette Binoche, que mesmo tão distantes um do outro, parecem realmente próximos e apaixonados. Atores-cópias do mundo real, mas vindos de um mundo mágico e apaixonante, que é o cinema!

17 de abril de 2011

A educação de um povo


Eu, estupefato, diante da beleza de um Van Gogh - no MoMA de New York

Todo mundo tem um hobby - presumo, claro - e eu não fujo à regra. Na verdade, tenho vários... mas o que nos interessa agora é o VIAJAR! Estou falando de viagens geográficas e intercontinentais, porque das etéreas e mentais seja com ou sem vontade, todos nós fazemos diariamente. Certo?!

Gosto do antes, do durante e do depois... preparar a mala, ler sobre o lugar, entender os costumes etc... o choque cultural é algo que me fascina. Cito choque como algo total e completamente positivo. Têm pessoas que abominam o novo, eu sou o oposto - em se falando de viagens, principalmente! Acho que só crescemos quando nos abrimos ao novo. Se vamos aceitá-lo ou não é outra história!

Tenho experiências engraçadíssimas (e ao mesmo tempo trágicas) de muitas viagens, e a maioria delas envolve "brasileiros". Sério, não se trata de preconceito ou qualquer tipo de depreciação, não mesmo! São histórias reais...

Uma delas foi em New York, alfândega do aeroporto JFK, um casal de brasileiros e seus 3 filhos estavam na fila enquanto o marido tirou a camiseta TOTALMENTE do corpo e começou a passar um desodorante roll on nas axilas, enquanto comentava com a esposa: "Não vai dar tempo de tomar banho, amor...". Nem preciso dizer que o agente alfandegário aproximou-se dele em questão de segundos e pediu, educadamente em inglês, para acompanhá-lo. Ele retruca para a esposa: "Amor, o que ele quer?". Bom, nem vou continuar...

O legal de viajar é experimentar comidas e sabores distintos dos quais estamos acostumados a provar no nosso dia a dia. É um mimo necessário que temos que nos proporcionar sempre que estamos fora. Um restaurante francês INESQUECÍVEL que conhecí em NY é o Le Train Bleu na 3rd Avenue. Inesquecível não só pela localização - é um vagão do trem do Expresso Oriente suspenso - dentro da Bloomingdales.
Novamente, na fila de espera, chegam duas senhoras brasileiras e bem distintas conversando em alto e bom tom sobre compras 'baratas'. Ficam logo atrás de mim. Uma diz, sussurando, para a outra: "Eu não falo inglês nem francês, nem você fala. Como vamos nos virar aqui?" A outra dando um gargalhada altíssima, responde: "Ah, meu amor, a língua do dinheiro todo mundo fala!". Confesso que na hora achei engraçado, mas no fundo pensei comigo... dinheiro compra muita coisa, menos educação, princípios, valores e sentimentos verdadeiros. Valores como estes, até um analfabeto do interior do país pode ter de sobra. Não depende de dinheiro algum, nem de status!

Algumas pessoas, mesmo tendo muito dinheiro disponível para gastar, deveriam antes REpensar, REnovar e REvalorizar suas vidas antes de embarcar numa viagem fora de seus países.

É divertido, mas é mais trágico do que cômico!

20 de fevereiro de 2011

Gran Torino e Ivan Illich

Terminei de reler um dos melhores livros que eu considero: A Morte de Ivan Illich (1886). Em suas páginas o autor, Leon Tolstoi, descreve a história curta e dilacerante da vida de Ivan Illich - um prepotente e arrogante juiz que adoece aos 45 anos de uma grave enfermidade e começa um calvário de sofrimento. Descobre que não tem amigos, nem o apoio da família, muito menos do médico. Uma das cenas mais simbólicas é aquela em que ele consulta um famoso doutor que o trata da mesma forma grosseira e impaciente que ele tratava as pessoas no tribunal.

Hoje assistindo a GRAN TORINO (EUA, 2008) dirigido e protagonizado por Clint Eastwood, não pude deixar de fazer esta comparação.

Ambas as obras são dignas de admiração, não só pelo seu talento artístico e dramático, mas por nos tirar da zona de conforto tentadora que nos faz acreditar que somos melhores, diferentes e que nada disso acontecerá com a gente. Trata da velhice como ela é, sem máscaras - que por si só já é dura! Mostra que a diferença não está na idade que temos e sim na forma como tratamos as pessoas!

10 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Foi com muita ansiedade que sentei na poltrona confortável do cinema para mergulhar no mundo de Cisne Negro (Black Swan, 2010 EUA). O talento do elenco (Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder e Vincent Cassel) é inquestionável! Impactante a direção de Darren Aronofsky que mostra mas uma vez toda a sua genialidade ao dirigir este thriller psicológico!

Natalie dá vida a uma moça bela, pura e ingênua, que vive para o balé e para ser perfeita em seus gestos, atos e em seus movimentos milimetricamente ensaiados... vive à sombra da mãe - uma bailarina frustrada que transfere para filha toda a vontade de atingir o ponto máximo da carreira na dança clássica: interpretar o clássico Cisne Negro.

A dualidade (bem x mal) é um tema já exaurido em muitas obras cinematográficas, assim como na literatura e na dramaturgia, mas da forma como nos é apresentada na película, soa como nova. Podemos comparar o dilema da personagem ao mesmo vivido por Smigol em O Senhor dos Aneis: as vozes contraditórias. O tema é recorrente, mas a narrativa é envolvente e assustadoramente magnética. Digna de admiração!

Não se pode viver uma vida de extremismos quando se quer atingir o topo. Nina, vivida por Natalie, tem que aprender a despertar o seu lado negro para assim trasnferi-lo para o palco. Ela já vive uma vida regrada e direcionada ao mundo equilibrado. O desafio maior é encontrar em si mesma o lado obscuro, negro e pulsante em sua alma. Para despertar o cisne negro dentro de si, já que tanto no filme quanto na coreografia original a bailarina faz os dois papeis, ela mergulha com muita dor em deus devaneios esquizofrênicos. Não só imagina como começa a sentir e a alimentar a mesma raiva que o personagem necessita para exercer a sua máxima força - no caso, o cisne negro.

Pulsante, arrepiante, mágico, intenso, forte, questionador, arrebatador... olhando com a brancura ou com a escuridão, esta é uma obra digna da briga pelo prêmio mais comercial de todos os tempos: Oscar!


8 de janeiro de 2011

2010: o ano que paramos de conversar

Quando me pego colocando a chave na porta de casa e ao mesmo tempo checando as mensagens no celular, fico muito maluco. Onde chegamos?!

Recentemente passei quase 2 semanas nos Estados Unidos e pude comprovar na prática um dado apontado pelas pesquisas atuais: os americanos estão conectados em 93% do tempo através de celulares e redes sem fio. Os bene(male)fícios são inúmeros e inquestionáveis - depende da corrente que argumenta. Este não será o meu intuito. O que mais me assustou no comportamento americano - e que está próximo de atingirmos o mesmo nível - foi ver uma família (pai, mãe, filha e filho) na fila para um brinquedo da Disney, e todos usando o celular para digitar ou conectar-se a outro mundo que não fosse o ali presente. O sonho de tantas pessoas, estar na Disney com a família, para este pequeno grupo de pessoas não significa muita coisa. O imprescindível, para eles, é estar preso a um aparelho o tempo todo. Estar conectado a um mundo diferente do qual ele está fisicamente inserido. Seria como viver uma realidade paralela, numa dimensão cibernética. Uma válvula de escape, talvez, pela incapacidade de construir uma relação prazerosa, sadia e produtiva com o próximo.

Estamos perdendo a capacidade de sorrir, olhar nos olhos, tocar fisicamente nossos amigos, parentes, familiares e pessoas queridas. Não escrevemos mais cartão de Natal, não mandamos mais cartas, nem sequer deixamos bilhetinhos românticos de "bom dia". Agora tudo se resume em torpedo sms, scrap, depoimentos... até e-mail está ficando fora de uso.

Estamos cada dia mais esperando e buscando MAIS da tecnologia e MENOS um do outro. Amargo e cruel dilema.