22 de agosto de 2010

Cidade Alfa

















Vivo na cidade classe AAA,
Que ergue condomínios fortalezas, mas que também incendeia barracos.

A cidade cultura,
Que extasia telespectadores, mas que destrói casebres históricos.

A cidade diversidade,
Que tem a equitabilidade da Parada Gay, mas também a ignorância que agride e mata.


A cidade etnia,
Que tem negro de olho azul, mas que repudia nordestinos.

A cidade fortuna,
Que sedia a alta economia do país, mas que também fomenta a penúria.

A cidade futebol,
Que enaltece a torcida, mas que violenta inocente.

A cidade garoa,
Que orvalha a alma, mas que também polui o pulmão.

A cidade gastronomia,
Que nutre o rico, mas que castiga o estômago do pobre.

A cidade gueto,
Que tem rua da noiva, mas que também alimenta a Cracolândia.

A cidade ímpar,
Que encontra de tudo a toda hora, mas que na solidão oprime e devora.

A cidade marginal,
Que facilita o fluxo, mas que também enlouquece e desnorteia no rush.

A cidade moda,
Que define estilos e visuais, mas que despe e açoita no frio.

A cidade modelo,
Que exporta Giseles, mas que também mantém um HC sempre lotado.

A cidade mosaico,
Que incrusta todos numa massa, mas que distancia e individualiza.

A cidade monocromática,
Que evoca tristeza e desolação, mas que também brilha e aquece no verão.

A cidade paradoxo,
Que inebria os olhos na Paulista, mas que os orvalha na Sé.

A cidade planeta,
Que abriga mundos diversos, mas que segrega cada um na sua!

A cidade progresso,
Que evolui assustadoramente, mas que também impede o cidadão de crescer.

A cidade subterrânea,
Que tem metrô eficiente e seguro, mas que é carente por transporte terrestre.

A cidade turística,
Que tem hotéis impecáveis, mas que também comporta moradores de rua.

A cidade viril,
Que impõe pessoas destemidas, mas essencialmente ilhas de carência e fragilidade.

Esta é a minha grande e admirada desconhecida!
De maus humores e feições angustiadas na correria cotidiana.
De traços rústicos e contrastes a cada esquina
Paulistanamente te amo,
Minha in(feliz)cidade!

(Poema publicado e lançado na 21a. Bienal Internacional do Livro de São Paulo em 20/08/10)

Um comentário:

  1. Flavio!

    Cobre de realeza a cidade nua
    Veste a rua
    Meio termo não existe.
    Os que não tem ilusão a vida é triste.
    Não se fala de ilusão e nem de tristeza.
    Mas de riqueza e pobreza.
    E o maior tesouro estão nas palavras, faladas, escritas.
    Parabéns pela tua rica construção de palavras.
    Edifica.
    Poesia?
    Hino?
    Toca o sino na grande cidade e não se tem idade para escutar.
    Poetar!!!
    Bravíssimo!
    Lindo de VIVER!
    Abraço
    Cenira de Mello

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Agradeço o seu comentário, é sempre bom exercitarmos a nossa melhor e mais eficiente qualidade: comunicação!
Forte abraço,
Flávio