30 de agosto de 2010

Karatê Kid

Confesso que entrei na sala com muito receio, reticente... mas resolvi encarar a jornada de assistir ao carismático Jaden Smith, filho do Will Smith, em ação. Gostei da atuação do pirralho em "A procura da felicidade", então fui confiante.

A nova versão introduz algumas mudanças, mas segue a história original de 1984 à risca. Agora ao invés do karatê, temos o Kung Fu. O cenário é a China e não Los Angeles. E no papel do protagonista temos um adolescente prepotente de 12 anos, bem diferente do jovem tímido em seus 18 anos da primeira versão. A estrutura da primeira versão continua: um garoto agredido constantemente por colegas de escola e é protegido por um decadente e depressivo velho - vivido pelo lendário das artes marciais Jackie Chan - que o ensina a lutar e a competir no torneio de King Fu.
Em vários momentos me emocionei, pois toda criança passa por momentos parecidos de autoafirmação e descobertas, quando sai do berço e do conforto dos pais para enfrentar o mundo como ele é. Jaden consegue ser simpático, mas soa confiante demais para o papel em algumas situações. Tem a mesma pegada cômica - caras e bocas principalmente - de seu famoso pai.

O final, me pareceu grosseiro e rústico demais, deixando algumas 'histórias' em aberto e se preocupando demais em ser politicamente correto. De qualquer forma, vale a pena assistir, mesmo que seja para comparar com a versão original. E definitivamente, o moleque tem futuro no ramo.

Les Ballets Trockadero de Monte Carlo

 
É comum hoje em dia algumas mulheres atuarem em profissões que antigamente eram exclusivas dos homens. Sabemos que não é nada fácil abrir caminho no mundo machista. Isso não se discute. Mas o inverso também é proporcionalmente verdadeiro. Um caso digno de aplauso - com o perdão do trocadilho - é o vivido pela companhia masculina de ballet "Trockcadero de Monte Carlo" fundada em 1974 e premiada mundialmente.

Os Trocks - como são conhecidos os integrantes da companhia - dão um show de humor e técnica aliados à descontraída presença de palco e o dinamismo em cena. O que é comum para uma mulher no palco, em se falando de alongamento, para eles não passa de um aquecimento. Homens bem treinados e altamente profissionais em figurinos impecáveis, maquiagem assustadoramente perfeita e um sincronismo espetacular, capaz de fazer até quem não gosta de música clássica x ballet ficar emocionado ou dar gargalhadas - aqui menciono a impagável paródia de "O Lago do Cisne" facilmente encontrada no conhecido site de videos.

A música clássica, a dança contemporânea e o ballet nunca mais serão os mesmos! Homens mostrando excelência em um mundo "dominado" por mulheres. Homens divertidos, profissionais e dinâmicos, sem cair no caricato ou no ridículo. Não espere homens travestidos, mas sim homens cumprindo bem o papel que até então era predominantemente feminino! O Teatro Bradesco está de parabéns por apresentar peças deste calibre! Sai do espetáculo leve, mais feliz e pensando na capacidade do ser humano em superar as barreiras.

22 de agosto de 2010

Cidade Alfa

















Vivo na cidade classe AAA,
Que ergue condomínios fortalezas, mas que também incendeia barracos.

A cidade cultura,
Que extasia telespectadores, mas que destrói casebres históricos.

A cidade diversidade,
Que tem a equitabilidade da Parada Gay, mas também a ignorância que agride e mata.


A cidade etnia,
Que tem negro de olho azul, mas que repudia nordestinos.

A cidade fortuna,
Que sedia a alta economia do país, mas que também fomenta a penúria.

A cidade futebol,
Que enaltece a torcida, mas que violenta inocente.

A cidade garoa,
Que orvalha a alma, mas que também polui o pulmão.

A cidade gastronomia,
Que nutre o rico, mas que castiga o estômago do pobre.

A cidade gueto,
Que tem rua da noiva, mas que também alimenta a Cracolândia.

A cidade ímpar,
Que encontra de tudo a toda hora, mas que na solidão oprime e devora.

A cidade marginal,
Que facilita o fluxo, mas que também enlouquece e desnorteia no rush.

A cidade moda,
Que define estilos e visuais, mas que despe e açoita no frio.

A cidade modelo,
Que exporta Giseles, mas que também mantém um HC sempre lotado.

A cidade mosaico,
Que incrusta todos numa massa, mas que distancia e individualiza.

A cidade monocromática,
Que evoca tristeza e desolação, mas que também brilha e aquece no verão.

A cidade paradoxo,
Que inebria os olhos na Paulista, mas que os orvalha na Sé.

A cidade planeta,
Que abriga mundos diversos, mas que segrega cada um na sua!

A cidade progresso,
Que evolui assustadoramente, mas que também impede o cidadão de crescer.

A cidade subterrânea,
Que tem metrô eficiente e seguro, mas que é carente por transporte terrestre.

A cidade turística,
Que tem hotéis impecáveis, mas que também comporta moradores de rua.

A cidade viril,
Que impõe pessoas destemidas, mas essencialmente ilhas de carência e fragilidade.

Esta é a minha grande e admirada desconhecida!
De maus humores e feições angustiadas na correria cotidiana.
De traços rústicos e contrastes a cada esquina
Paulistanamente te amo,
Minha in(feliz)cidade!

(Poema publicado e lançado na 21a. Bienal Internacional do Livro de São Paulo em 20/08/10)

16 de agosto de 2010

A origem


O filme A ORIGEM (Inception, 2010) de Christopher Nolan inova de forma previsível, mas ao mesmo tempo emocionante. Previsível porque todos os efeitos tecnológicos - um deles o exaustivo slow motion com câmera especial - já foram apresentados em muitos longas, e até mesmo na Copa 2010. Em uma coisa o filme inova e sai na frente de todos os concorrentes atuais: roteiro.

Protagonistas famosos, hoje em dia, é quase um pré-requisito para lançar um blockbuster e/ou um thriller, mas a direção de Nolan consegue dar um toque onírico - com o perdão do trocadilho - ao filme que fala de sonhos. Don Cobb (Di Caprio) é um especialista em invadir a mente das pessoas. Com isso, rouba segredos do subconscientequando a mente está mais vulnerável - durante o sono.

O filme questiona a sensação de realidade versus sonho na qual vivemos. Quem garante que o que vivemos não passa de um sonho?! O que torna uma dimensão 'verdadeira' e o que a torna um 'sonho'? O que as diferencia é a forma que a sentimos e/ou reagimos ou ela por si se faz?!

Levanta um debate interessante ao mostrar a dificuldade do mocinho, o exaustivo DiCaprio, de desapegar das lembranças de sua esposa que cometeu suicídio. Diz, indiretamente, que muito de nosso sofrimento acontece porque não somos capazes de seguir em frente quando temos situações mal resolvidas na vida. Nisso eu assino embaixo. Ponto para Nolan!

A película incomoda ao desafiar a inteligência do telespectador. Ela funciona da mesma forma que um sonho... traz fragmentos, realidades personalizadas, cenários recriados e amórficos... traços simétricos dão vida às cenas tiradas de um quadro de Dali. Os diálogos são confusos, e o próprio roteirista brinca com isso na fala de um de seus personagens principais - a queridinha americana Ellen Page. O poder de sedução de Marion Cotillard - a inesquecível Edith Piaf - é inquestionável. Está linda, sagaz, segura e equilibrada, no papel de Mal. DiCaprio faz o de sempre: galã com as cenas dramáticas e falas inteligentes.

Um filme para refletir, não para divertir. Aliás, alguns consideram a reflexão um divertimento. De qualquer forma, seja refletindo ou divertindo, é um filme que merece uma atenção especial. Gostei!

9 de agosto de 2010

O molde humano

 
Outro dia estive pensando na maior dificuldade de todos os casais: aceitar as diferenças existentes no outro. Sempre tem-se a tendência em mudar e moldar o outro à nossa imagem e semelhança. Este comportamento é quase um senso comum nas relações afetivas. É uma amarga ironia, pois quando tentamos mudar o outro estamos admitindo a nossa impotência em mudar a nós mesmos. É mais cômodo culpar o outro do que trabalhar a nossa incapacidade em aceitar as diferenças - ou a nossa diferença interior.

No mundo moderno, os relacionamentos são escassamente definitivos e as separações ficaram tão cotidianas e frequentes que ninguém mais assusta quando um casal deixa de viver no mesmo teto depois de apenas seis meses de casamento. Penso que o real motivo das separações seja a INcapacidade de evoluir do homem contemporâneo. O mundo descartável impera em nossa mente capitalista e imediatista. Adquirimos tudo que queremos com muita facilidade e a velocidade que a internet invadiu nossas ideias, apenas aumentou nossa gula pelo novo - automaticamente desaprendemos de apreciar o 'velho'. Não se curte um relacionamento, não se perde tempo em ouvir e entender o outro - nem a si mesmo - pois existe uma fila à espera para ser atendida. Sim, até inventaram um adágio para tal situação. Quando uma pessoa está enrolando a vida da outra, simplesmente dizem: "A fila anda..." e vai em frente sem dó nem piedade, massacrando os sentimentos do outro como se nada valessem.

Uma coisa eu garanto... quem não consegue conviver com sua solidão 'individual', raramente está preparado a ter um relacionamento saudável, equilibrado e construtivo. Não é à toa que os bares, danceterias e clubes noturnos estão abarrotados... seria uma gula pelo novo descartável ou um desespero por não saber viver sozinho?! Hein?!


O médico, o louco e os gatos


Na esperança de divertir, emocionar e me transportar ao mundo musical, fui assistir à "Jekyll & Hyde - O Médico e o Monstro". A versão brasileira envolve mais de 200 profissionais e já foi montada em 17 países. Efeitos incríveis acontecem no palco: chuva, luzes inebriantes, mecanismos eletrônicos admiráveis etc, mas não mexeram com minha alma. uma média de 28 atores e uma orquestra de 17 músicos faz um trabalho técnico de se admirar, mas nada além disso. O roteiro é interessantíssimo: um médico tenta dissociar sua personalidade má de sua personalidade boa, numa espécie de divisão da psique. O ator, Nando Prado, que dá vida ao protagonista, apesar de ser o galã musical do momento e cantar e 'dançar' com técnica apurada, falhou ao dar vida e emoção a um personagem complexo e intenso. Já a mocinha, vivida pela onipresente Kiara Sasso, foi ofuscada pelo brilho, pelo talento e atuação visceral da atriz Kacau Gomes, que interpreta a prostitua Lucy. O cenário dá um show à parte, e por ser um thriller, raramente inspira admiração pela plateia. Terminei a sessão com uma sensação de 'faltou algo'. Tinha tudo para dar certo, mas falhou no quesito básico: emoção!


"Cats" é baseado em catorze poemas do livro infantil "Old Possum's Book of Practical Cats", publicado pela primeira vez em 1939 com ilustrações do próprio autor (T.S. Eliot). Ele escreveu a obra para seus filhos, depois de passar dias observando o comportamento de seus próprios felinos. Isso sim é um roteiro interessante, mas acredito que o musical brasileiro, ainda que inspirado fielmente no americano na Broadway, não conseguiu resgatar a essência de Eliot. Ficou perdido e preso às pirotecnias modernas.
Um monte de gatos dançantes, cantantes e anárquicos... hã, sei... muitos podem me achar superficial ao dizer isso, mas desculpe-me Andrew Lloyd Webber, a montagem não me tocou na alma, não me emocionou e não me fez arrepiar! A todo momento, eu pensava que seria surpreendido por uma entrada triufante de algum número acrobático ou algo do gênero, mas economizei meus aplausos para um momento que considero merecedor: a entrada triunfal do gato preto "mágico" com seu balé solo! Este sim, mereceu aplausos ardidos. Nem mesmo a interpretação da canção mais gravada do mundo, Memory, foi como eu esperava. Pensei comigo, será que estou num dia insosso?! Apesar de todos os amigos que me acompanhavam terem gostado do musical, Cats não mexeu com minha alma, nem com meu emocional. Nunca gostei de gatos... seria isso?!
Nem mesmo a presença do talentoso Saulo Vasconcelos (o eterno "Fantasma da Ópera") salvou, a meu ver, o musical de cair num emaranhado de pulos, alongamentos e cantorias. Os aplausos foram minguados, fracos e mecânicos. Na saída, ninguém comentava ou elogiava... todos pareciam ter passado mais um domingo com cara de domingo. E eu, confirmava de vez o que eu já sabia: "não gosto de gatos"!

De médico e louco todo mundo tem um pouco? E de gato?!