21 de novembro de 2010

Zorba, o grego


Quantas pessoas você conhece que vivem a alegria da vida sem perder tempo em reclamar ou praguejar?! Quantas pessoas você tem por perto que são capazes de te mostrar o lado magnífico da vida nas coisas simples?!

O inesquecível filme ZORBA, O GREGO (ZORBA, THE GREEK)  de Michael Cacoyannis estrelado por Anthonny Quinn, gravado em 1964 no Reino Unido, Grécia e Estados Unidos, leva-nos a um banho de paisagens exuberantes, sentimentos escondidos que evitamos e inúmeros questionamentos sobre o verdadeiro valor da vida e das relações pessoais.

Zorba (Quinn) é um camponês extrovertido e exuberante com  incrível amor pela vida, enquanto Basil (Alan Bates) é um tímido e reservado escritor inglês. A amizade incomum destes dois é capaz de trasnformar a vida de Basil, tirando-o do conforto de observador do mundo para participante da vida e seus acontecimentos. A cena onde Zorba ensina Basil dançar é um exemplo claro do poder transformador do carinho e da amizade criada entre ambos: http://www.youtube.com/watch?v=2AzpHvLWFUM

Um filme cruel por mostrar o lado vil do ser humano. Um filme doce e amável por mostrar que o amor está nas coisas simples, nos olhares, nos gestos, nas palavras e nas intenções. Um filme intenso por mostrar que os valores e as crenças de um povo quase sempre são cegos a ponto de anular a vitalidade de seus habitantes.

Um filme para se ver, pensar, questionar, sentir, vivenciar e assimilar o sentido da vida, mesmo quando ela nos coloca diante de situações e momentos difíceis. Aplausos para uma obra feita no ano de 1964, mas questionadora de nossos dilemas recorrentes modernos.

1 de novembro de 2010

Comer, Rezar e Amar


Quem nunca pensou em pegar uma mochila, somente com o necessário, e sumir do mapa deixando tudo para trás? Quem nunca pensou em recomeçar num mundo distante do seu? Quem nunca quis dar fim ao sofrimento pessoal viajando para um terra desconhecida? Quem nunca se arrependeu de ter adquirido um relacionamento 'fast food'?!
Neste quesito, COMER, REZAR E AMAR (Eat Pray Love, EUA 2010) atinge em cheio as expectativas humanas, tanto as femininas quanto as masculinas - mesmo o filme ter sido baseado num best seller homônimo escrito por uma mulher com uma visão espiritualizada da vida. O longa não trata da visão macho ou da visão fêmea, pelo contrário, descreve as diretrizes metafísicas do ser humano diante de uma vida insossa, desprazerosa e vazia. Uma vida onde a encruzilhada exige uma tomada de atitude ou tudo irá ruir intensamente.

Acredito que muitas vezes, durante nossa vida, perdemos nossos valores em prol do medo de sofrer. Escolhemos ser infelizes porque estamos em busca da felicidade a dois a qualquer preço. Descobrimos depois de anos que a felicidade, além de ser um estado de espírito, pode estar conosco o tempo todo, nem sempre precisamos ir a outro continente para atingi-la. A viagem necessária é de fora para dentro - aquela viagem corajosa, cara e desbravadora. O mundo fast food não contribue em nada nesta jornada. Estamos na era high speed... não há tempo nem espaço para pessoas dial connection.

Posso afirmar que o longa não deixa nada a desejar comparado ao livro. Por serem mídias distintas, não podem ser equiparadas, seria injustiça da minha parte querer fazê-la, mas indubitavelmente são complementáveis! A ordem de acesso, certamente, deve ser livro x filme.

Tenho amigos, queridos por sinal, que estão na fase COMER... pagam o preço desta atitude. Alguns estão buscando a fase REZAR... mas a maioria quer AMAR, mas não abandonam os vínculos, vícios e os comportamentos obssessivos que não combinam com amor. Para eles, acredito que só o tempo dará a resposta - se estiverem preparados para obtê-la, claro.

Uma lição é única: qualquer pessoa que passa em nossa vida, é um MESTRE. Com ela aprendemos a ser, não ser, sentir, não sentir, amar, odiar, querer, desejar, desprender... o tão falado "aprender com a dor".

A viagem mais difícil da minha vida, foi quando decidi encarar minhas sombras, meus medos, minhas falhas, meus demônios... confesso que até hoje eles me assustam, mas agora sei que eles existem. Prefiro ter medo de algo que tenho absoluta certeza que existe do que viver no sofrimento eminente de algo que talvez exista somente em minha imaginação.

Bom... se viajei demais - com o perdão do trocadilho - vá assistir ao filme e tudo que mencionei aqui terá um sentido. Eu te garanto!

27 de setembro de 2010

Carroça Humana



Na nossa correria cotidiana acabamos nos irritando por qualquer coisa, até por quem está catando lixo para sobreviver. Em Sampa é extremamente comum vermos o "homem-formiga" - também conhecido como carroceiro - cortando caminho, vagarosamente, entre carros, motos e pedestres. Entre gás carbônico, detritos e esgoto, ele está sempre carregando suas tralhas - geralmente pilhas de papéis, plásticos, pneus, vidro, grades, móveis e todo tipo de quinquilharia que NÓS usamos e descartamos. Com a ajuda deste zé-ninguém, mais de 9 bilhões de latinha são levadas para reciclagem.

Uma amarga ironia, pois o lixo que descartamos acaba se voltando contra nós e/ou contra nosso egoísmo cotidiano. Não é ele que vai devagar, somos nós que estamos apressados demais. Concordo, ele realmente atrapalha a correria dos paulistanos estressados por natureza, mas custa termos um pouco mais de paciência e respeito por quem está sobrevivendo com os restos que nós abandonamos?!

Ele, além de tudo, não está poluindo nossos ares nem tampouco está emitindo gases tóxicos que nos adoece cada dia mais.

Ele não existe em lugar nenhum, não tem PIS, nem endereço fixo, nem sequer registro bancário... ele vive SEM cd, dvd, celular, TV de led, cinema, roupa, iPod, computador etc... e você ainda se irrita quando ele, por necessidade, atravessa seu caminho?

Que mundo você, realmente, vive?!

22 de setembro de 2010

O Brasil dos espíritos


A oferta de filmes esotéricos está grande, logo a procura está maior ainda. Este silogismo me fez pensar nas verdadeiras razões - pelo menos pesquisar sobre elas - que faz um ser humano buscar "crer" no lado oculto da vida. Em todas as expressões religiosas, ou em suas maiorias, a crença na vida após a morte é praticamente inquestionável.

O cristianismo defende a tese que as almas vão para o Céu, o reino de Deus, ou para o Inferno, o reino de Satanás. O Islamismo diz que Maomé recebeu o livro sagrado, o Corão, diretamente de Alá (Deus) e seus seguidores transcreveram as visões para o árabe. O Budismo adota o conceito que o ciclo de morte e reencarnação só acaba quando o indivíduo aprende a livrar-se dos desejos. Já o Espiritismo prega que as pessoas ascendem para um plano superior onde a existência é apenas espiritual, dependendo das qualidades cultivadas em vida.

Não posso deixar de mencionar que acreditar em espíritos e/ou vida após a morte era um costume dos índios que pensavam que os mortos permaneciam convivendo com os habitantes da tribo por um tempo determinado. Somado a isso temos os escravos trazidos da África que acreditavam ter contato direto com o mundo dos mortos, e suas crenças foram espalhadas por todos as classes sociais.

Acho isso tudo um tanto curioso... e nada me tira a vontade incontrolável de cruzar religião com ciência, antropologia, biologia etc. O que todos abominam, discutir assuntos tão pessoais, é o que mais me instiga.

O bate-papo com quem já partiu deste mundo é uma das bases principais do espiritismo desde o seu surgimento na França no século XIX, mas só frutificou no Brasil. O espiritismo foi codificado em 1857 pelo pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, vulgo Allan Kardec. Em seu país natal ele é considerado um pensador de pouca importância por não ter contribuído em nada com a história da filosofia. Os franceses confundem o espiritismo com bruxaria. Por não ser concorrente do catolicismo, o espiritismo atrai muios praticantes católicos no Brasil, aumentando assim a sua divulgação, pois têm poucos dogmas e quase nenhuma hierarquia.

Esta crença de vida posterior, em grande parte, é baseada em visões e experiências de pessoas que, após serem declaradas mortas, se recuperaram - espontaneamente ou por cuidados médicos. Relatam visões e sensações que a medicina define como sendo experiência de quase morte. Alguns afirmam até ver uma luz no final de um túnel. O mais interessante ainda é perceber - comprovadamente - que a tecnologia moderna é capaz de captar imagens cerebrais destes momentos e concluir que, durante o coma, pouco antes da morte, ocorre uma descarga elétrica cerebral muito forte, favorecendo estas sensações/visões. Estes impulsos, segundo alguns cientistas da Universidade George Washington nos EUA, são capazes de gerar um nível parcial de consciência que induz as pessoas a ter visões e alucinações.

E você, prefere acreditar/duvidar do que?

19 de setembro de 2010

A onda



Um filme com roteiro inteligente é algo delicioso de ser ver. Quando a isso soma-se excelente fotografia, atuações convincentes e diálogos concisos... inquestionável que fará sucesso. Digo sucesso no sentido artístico, pois nao necessariamente será o filme que fará filas e filas nas portas do cinema. Um filme considerado de arte nem sempre será aquele que ficará exposto em cartaz por muito tempo. Sua vida comercial é curta, mas dura eternamente. Posso exemplificar alguns: Dogville, Edukators, Old boy e por ai vai.

A onda (2008), na excelente direção de Denis Gansel, mexe com a nossa revolta pelo massacre na Alemanha de Hitler. Sacode nossos valores e alerta-nos para a responsabilidade que um educador tem nas mãos. Não acredito que apenas os professores sejam responsáveis por moldar o comportamento de nossos jovens, mas certamente eles são os grandes contribuintes. O filme trabalha a perspectiva educacional com temas políticos, fiolosóficos e ideológicas.

Nada exemplifica melhor a essência do filme do que o discurso final, proferido pelo professor Ross:


"Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

Chico, Lar e outras viagens


A onda agora é filme espírita. Não apenas filmes de fantasmas, mas filmes de pessoas que afirmam se comunicar com os mortos. Assisti a Chico Xavier e a Nosso Lar, ambos defendem a mesma teoria: mortos podem comunicar com os vivos através de humanos com habilidades especiais, isto é, os chamados médiuns. Por serem obras nacionais - ainda que tenha investimento e patrocínio estrangeiro - merecem o nosso apoio. Penso que é melhor termos filmes com ideologias religiosas do que a pornografia existente no nosso passado cinematográfico.

Penso que as pessoas sabem como enganarem as outras, sabem como interpretar o papel de quem engana (mágico, mago, ator etc) e muitas pessoas têm uma necessidade mórbida de serem enganadas. Um mágico nunca trabalha sozinho, ele precisa de plateia. Esta interação é que faz com que outras pessoas sejam "convencidas" ao que até então jamais foi comprovado pela ciência.

Acho interessante observar que os chamados espíritos só se comunicam quando querem e com algumas pessoas, como se fosse por meritocracia. Livros são editados, cartas são piscografadas, mensagens são passadas, mas os problemas terrenos continuam sem nenhuma alteração. Quem já perdeu um ente querido sabe a grande dor que instala em nosso peito. Quando estamos assim, fragilizados, qualquer pessoa que se aproxima e nos apresenta uma receita para amenizar o sofrimento, terá nossa atenção. No fundo estamos tentando adquirir poderes especiais para controlar a nossa vida amorosa, afetiva, financeira e pessoal. O espiritismo oferece essa possibilidade quando apresenta os seus 'poderes' paranormais.

O ônus da prova não é de quem duvida e sim de quem apresenta uma situação como verdadeira. Portanto... não acredito em nada, até que me provem o contrário. E para aqueles que insistem e querem pensar cientificamente e ter uma mente mais distante das lorotas que nos são contadas, sugiro pesquisar e ler as obras de James Randi... a partir dele, podemos ter uma discussão no mínino interessante!

30 de agosto de 2010

Karatê Kid

Confesso que entrei na sala com muito receio, reticente... mas resolvi encarar a jornada de assistir ao carismático Jaden Smith, filho do Will Smith, em ação. Gostei da atuação do pirralho em "A procura da felicidade", então fui confiante.

A nova versão introduz algumas mudanças, mas segue a história original de 1984 à risca. Agora ao invés do karatê, temos o Kung Fu. O cenário é a China e não Los Angeles. E no papel do protagonista temos um adolescente prepotente de 12 anos, bem diferente do jovem tímido em seus 18 anos da primeira versão. A estrutura da primeira versão continua: um garoto agredido constantemente por colegas de escola e é protegido por um decadente e depressivo velho - vivido pelo lendário das artes marciais Jackie Chan - que o ensina a lutar e a competir no torneio de King Fu.
Em vários momentos me emocionei, pois toda criança passa por momentos parecidos de autoafirmação e descobertas, quando sai do berço e do conforto dos pais para enfrentar o mundo como ele é. Jaden consegue ser simpático, mas soa confiante demais para o papel em algumas situações. Tem a mesma pegada cômica - caras e bocas principalmente - de seu famoso pai.

O final, me pareceu grosseiro e rústico demais, deixando algumas 'histórias' em aberto e se preocupando demais em ser politicamente correto. De qualquer forma, vale a pena assistir, mesmo que seja para comparar com a versão original. E definitivamente, o moleque tem futuro no ramo.

Les Ballets Trockadero de Monte Carlo

 
É comum hoje em dia algumas mulheres atuarem em profissões que antigamente eram exclusivas dos homens. Sabemos que não é nada fácil abrir caminho no mundo machista. Isso não se discute. Mas o inverso também é proporcionalmente verdadeiro. Um caso digno de aplauso - com o perdão do trocadilho - é o vivido pela companhia masculina de ballet "Trockcadero de Monte Carlo" fundada em 1974 e premiada mundialmente.

Os Trocks - como são conhecidos os integrantes da companhia - dão um show de humor e técnica aliados à descontraída presença de palco e o dinamismo em cena. O que é comum para uma mulher no palco, em se falando de alongamento, para eles não passa de um aquecimento. Homens bem treinados e altamente profissionais em figurinos impecáveis, maquiagem assustadoramente perfeita e um sincronismo espetacular, capaz de fazer até quem não gosta de música clássica x ballet ficar emocionado ou dar gargalhadas - aqui menciono a impagável paródia de "O Lago do Cisne" facilmente encontrada no conhecido site de videos.

A música clássica, a dança contemporânea e o ballet nunca mais serão os mesmos! Homens mostrando excelência em um mundo "dominado" por mulheres. Homens divertidos, profissionais e dinâmicos, sem cair no caricato ou no ridículo. Não espere homens travestidos, mas sim homens cumprindo bem o papel que até então era predominantemente feminino! O Teatro Bradesco está de parabéns por apresentar peças deste calibre! Sai do espetáculo leve, mais feliz e pensando na capacidade do ser humano em superar as barreiras.

22 de agosto de 2010

Cidade Alfa

















Vivo na cidade classe AAA,
Que ergue condomínios fortalezas, mas que também incendeia barracos.

A cidade cultura,
Que extasia telespectadores, mas que destrói casebres históricos.

A cidade diversidade,
Que tem a equitabilidade da Parada Gay, mas também a ignorância que agride e mata.


A cidade etnia,
Que tem negro de olho azul, mas que repudia nordestinos.

A cidade fortuna,
Que sedia a alta economia do país, mas que também fomenta a penúria.

A cidade futebol,
Que enaltece a torcida, mas que violenta inocente.

A cidade garoa,
Que orvalha a alma, mas que também polui o pulmão.

A cidade gastronomia,
Que nutre o rico, mas que castiga o estômago do pobre.

A cidade gueto,
Que tem rua da noiva, mas que também alimenta a Cracolândia.

A cidade ímpar,
Que encontra de tudo a toda hora, mas que na solidão oprime e devora.

A cidade marginal,
Que facilita o fluxo, mas que também enlouquece e desnorteia no rush.

A cidade moda,
Que define estilos e visuais, mas que despe e açoita no frio.

A cidade modelo,
Que exporta Giseles, mas que também mantém um HC sempre lotado.

A cidade mosaico,
Que incrusta todos numa massa, mas que distancia e individualiza.

A cidade monocromática,
Que evoca tristeza e desolação, mas que também brilha e aquece no verão.

A cidade paradoxo,
Que inebria os olhos na Paulista, mas que os orvalha na Sé.

A cidade planeta,
Que abriga mundos diversos, mas que segrega cada um na sua!

A cidade progresso,
Que evolui assustadoramente, mas que também impede o cidadão de crescer.

A cidade subterrânea,
Que tem metrô eficiente e seguro, mas que é carente por transporte terrestre.

A cidade turística,
Que tem hotéis impecáveis, mas que também comporta moradores de rua.

A cidade viril,
Que impõe pessoas destemidas, mas essencialmente ilhas de carência e fragilidade.

Esta é a minha grande e admirada desconhecida!
De maus humores e feições angustiadas na correria cotidiana.
De traços rústicos e contrastes a cada esquina
Paulistanamente te amo,
Minha in(feliz)cidade!

(Poema publicado e lançado na 21a. Bienal Internacional do Livro de São Paulo em 20/08/10)

16 de agosto de 2010

A origem


O filme A ORIGEM (Inception, 2010) de Christopher Nolan inova de forma previsível, mas ao mesmo tempo emocionante. Previsível porque todos os efeitos tecnológicos - um deles o exaustivo slow motion com câmera especial - já foram apresentados em muitos longas, e até mesmo na Copa 2010. Em uma coisa o filme inova e sai na frente de todos os concorrentes atuais: roteiro.

Protagonistas famosos, hoje em dia, é quase um pré-requisito para lançar um blockbuster e/ou um thriller, mas a direção de Nolan consegue dar um toque onírico - com o perdão do trocadilho - ao filme que fala de sonhos. Don Cobb (Di Caprio) é um especialista em invadir a mente das pessoas. Com isso, rouba segredos do subconscientequando a mente está mais vulnerável - durante o sono.

O filme questiona a sensação de realidade versus sonho na qual vivemos. Quem garante que o que vivemos não passa de um sonho?! O que torna uma dimensão 'verdadeira' e o que a torna um 'sonho'? O que as diferencia é a forma que a sentimos e/ou reagimos ou ela por si se faz?!

Levanta um debate interessante ao mostrar a dificuldade do mocinho, o exaustivo DiCaprio, de desapegar das lembranças de sua esposa que cometeu suicídio. Diz, indiretamente, que muito de nosso sofrimento acontece porque não somos capazes de seguir em frente quando temos situações mal resolvidas na vida. Nisso eu assino embaixo. Ponto para Nolan!

A película incomoda ao desafiar a inteligência do telespectador. Ela funciona da mesma forma que um sonho... traz fragmentos, realidades personalizadas, cenários recriados e amórficos... traços simétricos dão vida às cenas tiradas de um quadro de Dali. Os diálogos são confusos, e o próprio roteirista brinca com isso na fala de um de seus personagens principais - a queridinha americana Ellen Page. O poder de sedução de Marion Cotillard - a inesquecível Edith Piaf - é inquestionável. Está linda, sagaz, segura e equilibrada, no papel de Mal. DiCaprio faz o de sempre: galã com as cenas dramáticas e falas inteligentes.

Um filme para refletir, não para divertir. Aliás, alguns consideram a reflexão um divertimento. De qualquer forma, seja refletindo ou divertindo, é um filme que merece uma atenção especial. Gostei!

9 de agosto de 2010

O molde humano

 
Outro dia estive pensando na maior dificuldade de todos os casais: aceitar as diferenças existentes no outro. Sempre tem-se a tendência em mudar e moldar o outro à nossa imagem e semelhança. Este comportamento é quase um senso comum nas relações afetivas. É uma amarga ironia, pois quando tentamos mudar o outro estamos admitindo a nossa impotência em mudar a nós mesmos. É mais cômodo culpar o outro do que trabalhar a nossa incapacidade em aceitar as diferenças - ou a nossa diferença interior.

No mundo moderno, os relacionamentos são escassamente definitivos e as separações ficaram tão cotidianas e frequentes que ninguém mais assusta quando um casal deixa de viver no mesmo teto depois de apenas seis meses de casamento. Penso que o real motivo das separações seja a INcapacidade de evoluir do homem contemporâneo. O mundo descartável impera em nossa mente capitalista e imediatista. Adquirimos tudo que queremos com muita facilidade e a velocidade que a internet invadiu nossas ideias, apenas aumentou nossa gula pelo novo - automaticamente desaprendemos de apreciar o 'velho'. Não se curte um relacionamento, não se perde tempo em ouvir e entender o outro - nem a si mesmo - pois existe uma fila à espera para ser atendida. Sim, até inventaram um adágio para tal situação. Quando uma pessoa está enrolando a vida da outra, simplesmente dizem: "A fila anda..." e vai em frente sem dó nem piedade, massacrando os sentimentos do outro como se nada valessem.

Uma coisa eu garanto... quem não consegue conviver com sua solidão 'individual', raramente está preparado a ter um relacionamento saudável, equilibrado e construtivo. Não é à toa que os bares, danceterias e clubes noturnos estão abarrotados... seria uma gula pelo novo descartável ou um desespero por não saber viver sozinho?! Hein?!


O médico, o louco e os gatos


Na esperança de divertir, emocionar e me transportar ao mundo musical, fui assistir à "Jekyll & Hyde - O Médico e o Monstro". A versão brasileira envolve mais de 200 profissionais e já foi montada em 17 países. Efeitos incríveis acontecem no palco: chuva, luzes inebriantes, mecanismos eletrônicos admiráveis etc, mas não mexeram com minha alma. uma média de 28 atores e uma orquestra de 17 músicos faz um trabalho técnico de se admirar, mas nada além disso. O roteiro é interessantíssimo: um médico tenta dissociar sua personalidade má de sua personalidade boa, numa espécie de divisão da psique. O ator, Nando Prado, que dá vida ao protagonista, apesar de ser o galã musical do momento e cantar e 'dançar' com técnica apurada, falhou ao dar vida e emoção a um personagem complexo e intenso. Já a mocinha, vivida pela onipresente Kiara Sasso, foi ofuscada pelo brilho, pelo talento e atuação visceral da atriz Kacau Gomes, que interpreta a prostitua Lucy. O cenário dá um show à parte, e por ser um thriller, raramente inspira admiração pela plateia. Terminei a sessão com uma sensação de 'faltou algo'. Tinha tudo para dar certo, mas falhou no quesito básico: emoção!


"Cats" é baseado em catorze poemas do livro infantil "Old Possum's Book of Practical Cats", publicado pela primeira vez em 1939 com ilustrações do próprio autor (T.S. Eliot). Ele escreveu a obra para seus filhos, depois de passar dias observando o comportamento de seus próprios felinos. Isso sim é um roteiro interessante, mas acredito que o musical brasileiro, ainda que inspirado fielmente no americano na Broadway, não conseguiu resgatar a essência de Eliot. Ficou perdido e preso às pirotecnias modernas.
Um monte de gatos dançantes, cantantes e anárquicos... hã, sei... muitos podem me achar superficial ao dizer isso, mas desculpe-me Andrew Lloyd Webber, a montagem não me tocou na alma, não me emocionou e não me fez arrepiar! A todo momento, eu pensava que seria surpreendido por uma entrada triufante de algum número acrobático ou algo do gênero, mas economizei meus aplausos para um momento que considero merecedor: a entrada triunfal do gato preto "mágico" com seu balé solo! Este sim, mereceu aplausos ardidos. Nem mesmo a interpretação da canção mais gravada do mundo, Memory, foi como eu esperava. Pensei comigo, será que estou num dia insosso?! Apesar de todos os amigos que me acompanhavam terem gostado do musical, Cats não mexeu com minha alma, nem com meu emocional. Nunca gostei de gatos... seria isso?!
Nem mesmo a presença do talentoso Saulo Vasconcelos (o eterno "Fantasma da Ópera") salvou, a meu ver, o musical de cair num emaranhado de pulos, alongamentos e cantorias. Os aplausos foram minguados, fracos e mecânicos. Na saída, ninguém comentava ou elogiava... todos pareciam ter passado mais um domingo com cara de domingo. E eu, confirmava de vez o que eu já sabia: "não gosto de gatos"!

De médico e louco todo mundo tem um pouco? E de gato?!

31 de julho de 2010

Mulheres bêbadas e o sábado de sol



Exatamente às 07h40 da manhã de um sábado ensolarado - e lindo! - estava eu no metrô indo trabalhar e tive o "privilégio" de ver uma cena tragicômica. Tente imaginar... muitas pessoas com cara de emburradas, irritadas, insones, solitárias. Algumas deviam estar indo trabalhar, outras voltando do trabalho, mas uma coisa todas tinham em comum: a NÃO vontade de estar trancafiadoa em um trem subterrâneo em um dia claro e iluminado. Bem, se fosse só isso, não haveria problema algum. Afinal de contas, faz parte da vida encarar os dias ensolarados como também os dias acinzentados! É a dinâmica da vida!
Neste clima denso e silencioso, e ao abrir das portas do vagão, entram 4 garotas - certamente todas menos de 18 anos - muito bonitas, mas extremamente vulgares no vestir e no falar. Na verdade em tudo. O cheiro de álcool adentrou ao vagão assim que elas colocaram o pé no recinto. O gritante som de suas vozes roucas acordou os recatados cochiladores de plantão - como se acordassem um titã de seu sono eterno - e para somar à algazarra e gritaria, o conteúdo de suas conversas era muito peculiar! Algo do gênero:
- Camila, eu só não enfiei a mão na cara dela porque ela fugiu! Corri atrás dela até no banheiro.
A outra complementa magnificamente:
- Eu tenho irmão advogado. E ele me disse que segurança não pode fazer nada. Se você não agredir ele, você pode fazer qualquer coisa. Devia ter enfiado a mão nela. Eu entrava no banheiro e enfiava a cabeça dela no vaso!
- Camila, estou cansado disso sabia... eu queria morrer... (sim o papo é totalmente sem nexo e exageradamente alto, sem falar que três delas estavam uma no colo da outra!).
- Credo, você é maluca mesmoooo... eu já logo quebrava a cara dela!
- E dai, morrer é um direito meu, eu tenho este direito, eu quem decido isso. Ninguém pode me impedir, é meu direito morrer!

O trem parou e desceram. Aqueles que pareciam dormir, acordaram de seus sonos letárgicos e uníssonos começaram a conversar com os estranhos ao lado, reclamando da cena surreal que tínhamos presenciado. Todos, eu digo TODOS, começaram a reclamar e balbuciar uns com os outros.

Coloquei meu fone de ouvido e pensei: "Esta seria uma ótima hora para ouvir Chopin". Desci na estação próxima e fui caminhando para o meu trabalhando meditando na seguinte situação: todos deixaram de ser estranhos - começaram a conversar entre si - quando algumas pessoas, supostamente mais estranhas que eles, os tiraram do hipnotismo letárgico que a cidade grande nos coloca. Ponto para as garotas alcoolizadas... conseguiram sacudir um mundo de robôs e ilhas solitárias.

Até o pior, pode ser reaproveitado... pensei! E trabalhei o dia todo feliz! Sou feliz!

17 de julho de 2010

Vida genérica, mundo cópia



Impossível hoje em dia ter uma coisa, seja ela qual for, que não tenha sido copiada, falsificada ou "generizada". O conceito de original e genuíno fica cada dia mais distante. Lembro de uma cena engraçadíssima que vivi 2 anos atrás quando eu estava saindo do Vaticano (Roma), tinha acabado de assistir à missa com o Papa (mesmo não sendo tão fervorosamente católico eu me emocionei com a aparição dele na janela), e me deparei com dezenas de nigerianos vendendos bolsas Prada, cintos Gucci, sapato Ferragamo etc e uma infinidade de produtos 'importados'. Imaginei várias pessoas que conheço no Brasil que adoram gritar a sete ventos que comprar produtos importados e blá blá blá... mal elas sabem que a origem dos mesmos pode ser europeia sim, mas da porta do Vaticano e das mãos dos nigerianos - não que eu tenha algo contra os patriotas nigerianos, mas ela se destacam na multidão italiana justamente por venderem produtos falsificados. Se este produto estivesse na Daslu, garanto que nem a dodoca patricinha saberia diferenciar do verdadeiro.

Quantas pessoas você conhece que vivem uma vida genérica de sonhos, de trabalho, de namoro, de sexo, de profissão, de desejos...?! Pessoas infelizes e mal humoradas que passam a vida toda no 'genérico' sem nunca terem sorrido com a alma, sem nunca terem amado com o coração e muito menos sem nunca terem vivido visceralmente!!!! Nunca experimentaram uma vida genuína!!!!

Têm amigos genéricos - viciados em nunca serem verdadeiros; Têm chefes genéricos - viciados em agredir, gritar e brigar, sem nunca terem sido líderes; Têm amores genéricos - viciados em sugar, exaurir e tirar toda nossa energia sexo-afetiva; Têm trabalhos genéricos - viciados em nos fazer robôs de produção em série, mas sem nunca nos fazer acordar felizes e contentes com mais um dia laboral, ainda que seja uma segunda fria e chuvosa; Têm genéricos do Iphone - com as mesmas funcionalidades, sem nunca o mesmo estilo; Têm genéricos do Office (Windows) - com o mesmo layout, mas sem as mesmas funcionalidades; Têm genéricos de mulher (travestis) - com o mesmo padrão estético, mas com excessos indesejados; Têm genéricos até deles mesmos.

E você, é genérico em que ou de que? Não adianta fugir, você certamente copia, copiará ou copiou alguma coisa! Ser ou não ser genérico, eis a questão! (Até nesta frase podemos ser genéricos de Shakespeare).


17 de maio de 2010

Desejo de existir


O momento está para "reality show" na TV brasileira. Todo programa que se preze tem um quadro que exibe pessoas do 'povo' competindo, brigando, reconciliando... isso me faz pensar no mais conhecido de todos os "reality shows" - a franquia BBB!

Será que eles, os 'reality shows', são realmente 'reais'? Esta interação social realizada diante de um imenso público - telespectadores - pode ser considerada verdadeira?

Antes de serem escolhidos para viver na 'casa',  os personagens não se conhecem e não têm nenhuma história de vida em comum. Talvez a única coisa em comum entre eles seja a vontade de aparecer - exercitando seus lados exibicionistas - e a óbvia vontade de ganhar o famoso prêmio em dinheiro!
Os organizadores são experts e escolhem sempre uma espécie de cada diversidade de papéis existentes na sociedade contemporânea, quase sempre são: negro, gay, mauricinho, patricinha, culto, pobre, rico e por ai vai uma infinidade de estereótipos! Assim todo telespectador irá se identificar com algum participante e por consequência será fisgado pelo programa. Audiência garantida!

Não pode ser considerado fofoca falar mal dos protagonistas de 'reality shows' porque estão ali por vontade própria e podem escolher falar de suas particularidades ou não. Eles sabem que estão sendo observados e nós sabemos que não é proibido observar. Ambos conhecemos as regras. Não é equivalente a olhar o buraco da fechadura de um quarto ou espiar a calcinha da garota que apanha um objeto no chão! É um acordo comum que agrada as partes participantes!

Eu sempre acreditei que este tipo de comportamento social -  reality shows - nunca fossem educativos. Claro que alguns são mais erotizados, vulgares, agressivos, asquerosos etc, mas no geral penso que eles são uma espécie de terapia do cidadão comum. Pode sim nos proporcionar um olhar até certo ponto terapêutico. Vemos os erros e acertos dos 'brothers' na 'realidade' e não na ficção. Diferente de vermos uma novela onde sempre podemos pensar que tudo não passa da cabeça do autor. São nada mais nada menos que representações simbólicas de pessoas e personagens REAIS e que quase sempre estão muito próximos de nosso cotidiano - aqui novamente destaco a importância de ter os participantes mais diversificados possíveis. Acompanhamos a chegada, o conhecimento, a formação de grupos, as disputas, as paixões, os amores, o erotismo, as brigas e por fim a partida. Tal como uma história 'real'.

Talvez falte nos 'reality shows', por serem feitos justamente de vida real, a tão famosa arte. Mas até que ponto a vida imita a arte ou o inverso? Podemos escolher viver em uma ou em outra 'realidade'. Independente de nossa escolha, seremos sempre imperfeitos buscando aprimoração individual nos erros coletivos cometidos pelos outros.

Por isso acredito que já vale a pena passar um tempo 'bisbilhotando' a vida alheia

29 de abril de 2010

Amor à flor da pele



Chow (Tony Leung Chiu Wai) e sua mulher acabaram de se mudar. Ele conhece Li-Zhen (Maggie Cheung), uma jovem casada que mudou-se recentemente para o mesmo prédio - na verdade uma espécie de pensão familiar. Como sua mulher fica longe de casa muitas vezes, Chow passa muito tempo com sua nova vizinha Li-zhen - que passa muito tempo sozinha porque o marido muito viaja a trabalho. Eles se tornam amigos até que, um dia, são forçados a encarar os fatos: seus respectivos parceiros estão tendo um caso. Com direção de Wong Kar-Wai, Amor à flor da pele (In the mood for love, 2000 China) é um drama sem igual.

O que vem a seguir são espetaculares cenas permeadas em um ambiente escuro (mas com a iluminação perfeita!), slow motion intrigante e uma trilha sonora arrebatadora (uma delas é o bolero sensual "Quiças.. quiças... quiças..." interpretado por Nat King Cole) que muitas vezes nos deixa incomodado.

Torna-se divertido advinhar o figurino da personagem Li-Zhen a cada cena. Ela esbanja sensualidade no figurino de cores e estampas diferentes, mas com um único modelo de vestido com recortes orientais. Mesmo quem não entende nada de moda ficará boquiaberto com tamanho bom gosto, charme e sensualidade da performance de Maggie Cheung - parece que foi escolhida a dedo para o papel! A cena que ela desce escada para comprar macarrão é uma delas!

Os parceiros dos protagonistas nunca são mostrados, fazendo com que nós, telespectadores, tenhamos que exercitar a imaginação e buscar motivos que comprovem a traição. Fica difícil odiar quem não se vê, desta forma, convivemos com mais dúvidas do que certezas. Entramos no mesmo dilema que vive o casal traído.

Um filme desafiador que nao entrega nada facilmente ao telespectar. Tudo tem que ser descoberto, interpretado, lido, entrelido... assim como amantes num quarto de hotel - às escondidas! A câmera carrega poesia em cada tomada e em cada passeio pelos cantos do que revela. Ela prefere sugerir do que mostrar. Isso tudo numa atmosfera poética de expectativa e solidão. 

Um belo conto romântico do cinema moderno. Um belo jeito de narrar o inefável!

6 de abril de 2010

Filhos do Paraíso



É fácil fazer um filme com milhões de dólares disponíveis em conta, mais ainda se pudermos usar tecnologia de ponta. Agora, retratar o "real" e o simples, como ele é, não se torna uma tarefa fácil. Fico admirado quando vejo um filme de baixo orçamento que retrata o humanismo e o valor da solidariedade humana com tanta eficiência!

O Irã mereceu destaque com seu belíssimo filme "Filhos do Paraíso" (Bacheha-Ye aseman, Irã 1997), onde retrata uma história simples, recheada de sutileza e comovente por natureza. É capaz de enaltecer a pureza e a inocência de um casal de irmãos, Ali e Zahra, qualidades tão raras hoje em dia. Ambos quase não vivem a infância por não terem tempo para brincar, pois estão sempre atarefados ajudando os pais nas tarefas domésticas. Isso tudo sem abandonar a escola. Ali é um aluno exemplar. Sua irmã uma menina de excelente comportamento.

O drama dos graciosos irmãos começa quando Ali perde os sapatos da irmã enquanto os trazia do conserto e pede a ela para não contar aos pais (excelente interpretação do garoto). Ambos passam a dividir o tênis de Ali para irem à escola, resultando numa sequência de cenas tensas e recheadas de aventura. A correria de Zahra ao sair da escola para ir ao encontro de Ali e entregar-lhe o tênis merece aplausos. Não apenas pela técnica impécável da filmagem, mas pela capacidade que a mesma tem de nos deixar tensos - assim como os personagens naquele momento.

O par de tênis, assumindo o papel de protagonista, divide com os talentosos atores mirins a eficiente missão de nos fazer pensar, repensar e reformular nossos valores morais, éticos e sentimentais. Tudo gira em torno dele, até mesmo o desfecho final com sua excelente tomada dos pés (descalços) de Ali. Impossível terminar de assistir ao filme e não fazer inúmeros questionamentos de valores. Um filme digno, sem as pirotecnias modernas, mas capaz de arrebatar qualquer coração ressecado. Um filme que merece um lugar garantido na prateleira de qualquer residência, pelo menos naquela onde os pais priorizam uma educação EXCELENTE e essencialmente digna para com os seus filhos.

28 de março de 2010

Preciosa


Filmes têm o poder de nos arrebatar, fazer pensar, meditar, questionar, divertir e por ai vai uma infinidade de funções da sétima arte! Alguns cumprem bem esta missão, outros nem tanto. Claro que depende do momento na vida de cada telespectador. Comigo mesmo já aconteceu de uma comédia pastelão me fazer chorar de emoção e/ou mesmo um drama me fazer rir quando todos estavam choramingando. Esta é mágica da luz que dança na tela! A história é única, mas os aprendizados são diversos!

Preciosa (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire, EUA 2009) -  é uma história comovente de luta, desejo, dor e dificuldades. Situa-se em New York ano de 1987 no bairro do Harlem. Claireece "Preciosa" Jones (Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua infância. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada pela mãe (Mo'Nique), ela cresce transtornada e sem qualquer tipo de amor como referência. Para agravar a situação, ela vive em condições miseráveis. Preciosa tem um filho apelidado pejorativamente de "Mongo", por ser portador de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó e só é trazido para casa quando a assistente social vai visitá-los. Quando engravida pela segunda vez, Preciosa é suspensa da escola e começa então o iníco do que seria a mudança em sua vida!

Um filme forte e violento (mas não no sentido explícito - que para mim nem sempre é o melhor recurso!). As cenas são recheadas de câmera manual, passando uma noção de vida real, emoção, intimidade! Além de contar com atuações de Mariah Carey, Lenny Kravitz entre outros, o filme dá conta do recado e nos mostra que vale a pena lutar, mesmo diante da monstruosidade que o ser humano é capaz de se tornar! O amor, a esperança, a amizade valem muito... são preciosidades num mundo cruel e insano! O sofrimento não vence a bondade e a esperança!

A atriz protagonista não parece ser diferente do personagem de tão incrível a simbiose e a entrega ao papel! Aplausos merecidos!

12 de março de 2010

Chicago - Broadway


Pela primeira vez pude assistir a um musical na Broadway e o escolhido foi "Chicago" de John Kander no Ambassador Theatre de New York.

As protagonistas do musical são as assassinas Velma Kelly (Terra C. MacLeod) e Roxie Hart (Michelle T. Williams). Velma é uma estrela de vaudeville cujo status de celebridade apenas aumenta após assassinar à sangue frio o marido adúltero e a irmã Veronica - a amante dele. Roxie é uma dona-de-casa que sonha em se tornar uma cantora famosa. Quando assassina seu amante Fred, que a enganou para poder manter relações sexuais com ela, é mandada para a penitenciária feminina onde conhece Velma. Cenário é a Chicago de 1920.

Um misto de exímios atores, bailarinos (entre eles Jason Patrick Sands que dá um show de talento, interpretação e total entrega ao papel), coreógrafos, cantores e uma produção técnica impecável!

Interessante como no inconsciente coletivo a vilã quase sempre é bonita, mas certamente perigosa! Como se ser bela fosse um passo para ser má! Não é à toa que as pessoas dizem popularmente: "é tão bela que dói". A beleza realmente incomoda e as pessoas esteticamente belas acabam desenvolvendo seus mecanismos de sobrevicência - assim como os esteticamente feios desenvolvem os seus de defesa. Tratado com muito humor negro, o musical é capaz de nos arrebatar visceralmente quando brinca com valores tão fortes e arraigados em nosso âmago. Satiriza a imprensa que busca pelo escatológico, pelo trágico e pelo cruel. Questiona até onde as pessoas podem ir para conseguir o que querem.

Sai do teatro pensando nos musicais que já assisti no Brasil, um deles o inebriante "Fantasma da ópera"... estamos perto, até porque nosso histórico de teatros musicais é muito recente!!!!! Falta treino, falta técnica apurada, falta deixar a criança crescer!

Inesquecível!

6 de março de 2010

Simplesmente complicado


Simplesmente complicado (It's complicated, EUA 2009) é uma deliciosa comédia romântica que nos diverte com tiradas inteligentes, bem escritas, bem alinhadas com o roteiro e totalmente 'reais'. O trio de estrelas: Meryl Streep, Steve Martin, Alec Baldwin, dão conta do recado e cada um a seu modo, complementa as cenas hilárias e engraçadas.

Meryl Streep é Jane, uma mãe de três filhos que tem uma relação amigável com o seu ex-marido, Jake (Alec), após dez anos da separação. A convivência entre eles acaba se transformando em um romance, sendo que Jake, no momento, está comprometido com outra mulher bem mais jovem. Agora, Jane vive um dilema, já que se tornou a amante de seu antigo marido.

Claro que a história se passa entre casais e pessoas ricas - como se a diretora, Nancy Meyers, quisesse mostrar que 'rico também sofre' - em casas magníficas com vistas deslumbrantes e estilos de vida ainda mais invejáveis. Algumas cenas têm um quê de novelas da Globo no estilo 'Manoel Carlos', mas o talento dos protagonistas nos arrebatam. Apesar de ter um traço de filme para divertir a 'mulher dos 40 anos', não perde a sua dignidade, mesmo quando retrata a 'amante' latina, que tem um filho chamado Pedro, como sendo a antipática da situação. Negros são escassos na película - talvez ai mora um ponto desfavorável.
O filme nos faz pensar e rir ao mesmo tempo, mas confesso que o excesso de 'visão feminina' do mundo, usado em exagero, torna-se desgastante alguns poucos instantes.

Vale assistir para ter sua própria opinião. Uma coisa é certa, rir você irá com certeza!

5 de março de 2010

O nosso Hair Spray



Quando vamos assistir a uma montagem musical brasileira que foi inspirada em um famoso musical americano lançado em 2007 – que primordialmente foi inspirado no filme homônimo de John Walter, lançado em 1988 - já sentamos com certa dose de preocupação e antenas ligadas. Assim fui assistir ontem a “Hair Spray” – montagem produzida e dirigida pelo multifacetário Miguel Falabella.

Em sua maioria, atores e atrizes talentosíssimos, têm apuro vocal e corporal bem trabalhados.

Confesso que alguns erros técnicos aconteceram na apresentação que assisti: som falhou diversas vezes; microfone (geralmente na testa dos atores) esbarrando e produzindo um som desagradável; pessoal técnico atrás dos “carros alegóricos” empurrando-os visivelmente; atores piscando ou fazendo gestos para acertar algum desacerto no palco... mas valeu cada risada, cada lágrima – sim eu me emocionei! – e cada gargalhada que eu dei!

A todo instante eu via mentalmente o filme protagonizado pelo talentoso John Travolta, inevitável não compará-los, até porque é nítida a semelhança de traços estéticos de atores, cenário e plástica (obviamente por conta de contrato e franquia, imagino). Claro que o nosso Edson Celulari cumpre bem o papel que lhe cabe e seria injusto compará-lo ao Travolta que já tem talento de sobra para dançar. Edson consegue nos divertir, tem ótima veia cômica, mas deixa a desejar nos dotes musicais e coreográficos. Imagino que não seja nada fácil dançar, cantar e interpretar com roupas pesadíssimas e tão desajeitadas. Ele mesmo assumiu em entrevista que não é cantor nem bailarino. Postura digna e honesta, mas percebemos a sua dedicação em fazer o seu melhor.

A atriz, Simone Gutierrez, que faz o papel da engraçadíssima, afinadíssima, talentosíssima e divertidíssima (tudo ÍSSIMA mesmo) Tracy Turnblad é de crescer os olhos! Apesar de ser baixinha, fofinha (e de ser humilhada na peça por ser gordinha) , dá um show de interpretação vocal, coreográfica e dramática de tirar o fôlego! Aplausos estridentes!

Arlete Salles foi corajosa ao assumir o grande desafio de cantar, dançar e interpretar um papel que foi desenvolvido com maestria por Michelle Pfeiffer no cinema. Com sua idade acredito que nem tudo é permitido - no palco - mas é engraçada e divertida, mesmo me lembrando seus papeis cômicos de novela.

O musical brasileiro tem um desfecho final um pouco diferente do musical de 2007 apresentado no cinema. A impressão que tive é que foi adaptado ao estilo ‘brasileiro’ de ser. Afinal de contas, brasileiro acha graça de algumas coisas e os americanos de outras. Percebe-se claramente o sitcom de Falabella. Ponto para ele! Produziu, dirigiu, traduziu e ao mesmo tempo conseguiu manter a essência da peça. Parabéns pela ousadia, talento e capacidade que o musical tem de nos fazer rir e divertir com uma história que, conceitualmente, é tão polêmica.

Palmas para o Brasil em assumir riscos e acertos e a continuar produzindo musicais desta estirpe! Neste mesmo caminho aplaudo os já assistidos "O fantasma da ópera" e "A bela e fera". Estamos longe de sermos uma Broadway, mas posso dizer com absoluta certeza, estamos bem pertinho!

Quem quiser saber mais detalhes técnicos da peça, vale visitar http://www.hairspray.com.br/

6 de fevereiro de 2010



Uma comédia deliciosamente divertida, recheada de humor inteligente, roteiro com discretíssimas falhas, música saborosa, atores com uma química sem igual - Anna Kendrick, Danny McBride, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, George Clooney. Até este filme eu não via muito talento para o famoso quarentão de Hollywood, mas devo admitir que Clooney se mostra competente ao atuar ao lado de uma atriz carismática e naturalmente sexy. Talvez isso tenha acontecido porque os questionamentos filosóficos e amorosos do personagem sejam os mesmos que Clooney tenha vivido e/ou vive atualmente. Este é o universo de AMOR SEM ESCALAS (up in the air, EUA 2010), longa dirigido por Jason Reitman.
Clooney é então um consultor que tem como função profissional demitir pessoas. Para isso, percorre todo os EUA cumprindo o seu papel com profissionalismo e seriedade. Tudo vai bem até sentir-se ameaçado por uma jovem de 23 anos com ideias arrojadas e dinâmicas para fazer o mesmo trabalho que ele faz, apenas com uma significativa diferença: economia de 85% nos custos para a empresa. O homem sem chão fixo, que passa mais tempo voando do que solo então tem um novo desafio - polir o seu lado humano que outrora tinha sido esquecido.

Um filme contemporâneo, romântico, árduo, doce, divertido, realístico, forte, pueril... foge do previsível - assim como é nossa vida real. Um filme para rir e chorar simultaneamente e para nos deixar nas alturas!

3 de fevereiro de 2010

Ipad e Avatar - pontos convergentes


O Ipad, o novo "brinquedinho" lançado pelo papa da modernidade Steve Jobs, e Avatar, um filme digno de aplausos e um bom exemplo de como a inovação produz riquezas,  são símbolos da evolução tecnológica absoluta. São formas arrebatadoras de ganhar dinheiro utilizando a máquina a nosso favor. São modelos de uma admirável liberdade econômica, onde uma boa liderança aliada a uma excelente comunicação corporativa, permitem o uso do capital privado e da mão de obra de pessoas inovadoras.

Uma pena que ambos produtos sejam originados dos EUA, sempre liderando o mundo capitalista. Digo pena porque o nosso país tem condições - e mentes brilhantes - para criar muito mais, mas falta o estímulo à inovação, ao jovem, às crianças e ao mundo universitário. Nisso, perdemos feio!!!!

Estamos afogados em nosso próprios recursos - sempre tão mal utilizados!

1 de fevereiro de 2010

Nine


Um show de cores, brilho, luzes, fantasia, angústia, medo, paixão, dor, arrependimento... é assim a vida de Guido Contini (Daniel Day-Lewis em uma magnífica interpretação!) narrada com o sabor único das reminiscências de uma criança que se torna um adulto viciado em sexo e cigarro. Um vulcão de ideias pronto a entrar em erupção, mas que se perde em sua solidão doentia.

NINE (Nine, EUA/Itália 2009) é um filme à moda italiana (o tão batido 'italian way of life'), onde a mãe (Sophia Loren, ainda majestosa!) ocupa o papel central na vida do filho que fora educado religiosamente, mas que encontra no sexo, no cigarro e no teatro a sua grande paixão. Retrata o mundo psicológico de um ser angustiado, sofrido, mas que não deixa de ser uma criança. Busca em todas as mulheres que ama, a figura da própria mãe - mais Freudiano impossível! Torna-se cruel quando busca satisfazer seus prazeres carnais.

Um hall de grandes estrelas enche nossos olhos com suas habilidades coreográficas e vocálicas: Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judy Dench, Kate Hudson, Stacy Ferguson.

Certamente o mérito maior vai para a direção de Rob Marshall que conseguiu extrair profunda e majestosamente o melhor de cada ator, de cada gesto e de cada tomada.

Ponto para o cinema musical contemporâeno!

13 de janeiro de 2010

Seres audiofônicos solitários



Tenho observado algo curioso em Sampa. Nos últimos dias eu tenho circulado pela cidade, por conta de resolver pendências pessoais, e notado uma exagerada frequência de pessoas usando fones de ouvido. Umas falando sozinhas - na verdade com o viva voz do celular - outras cantarolando músicas, algumas sorrindo - imagino estarem ouvindo algum programa radiofônico de humor - e por ai vai uma infinidade de combinações audiofônicas. Todos transeuntes voltados para os sons internos, fechando toda e qualquer oportunidade de interação com os sons externos. Uma cápsula de isolamento!

Uma cidade como São Paulo, a maior do país, é repleta de pessoas solitárias. Vivemos no meio de multidões - personificadas em filas, filas e filas para tudo que existe - mas cada um nos seu mundo e na sua tribo. Para quem vem do interior, o meu caso por exemplo, assustamos com tanta gente e tanta diversidade de sabores, odores, sensores e cores. Depois vamos acostumando a ver tantas caras e bocas diferentes. A seguir somos mais uma delas, mesclada às diversificadas máscaras humanas já existentes.

Em Londres fiquei chocado ao entrar no metrô e ver TODAS - eu disse TODAS - as pessoas lendo em um clima de silêncio absoluto, o vagão mais parecia uma sala de meditação budista. Uma paz lá dentro! Uma harmonia aconchegante onde todos estavam absorvendo o conhecimento das letras. Aquilo me marcou demais! Não deixa de ser outra forma de solidão, mas é bem diferente daquela que temos por aqui no lado brazuca de ser.

Será que, mundialmente, estamos caminhando para um mundo de seres vagantes e solitários?!