27 de novembro de 2009

A princesa e a ervilha




Depois de uma acalorada e deliciosa discussão, na aula de Mestrado, sobre o impacto do cinema nas teias globais, eu e a Telma saímos da sala discutindo ideias, argumentos e posições pessoais sobre o tema. Depois de teorias, teoremas e autores, começamos a falar de filmes preferidos. Ela disse que adora filmes leves e comédias românticas que a façam rir desprentenciosamente, pois assim ela consegue relaxar, tirar o stress da mente e dormir leve. Eu, para atingir o mesmo objetivo, preciso assistir a um drama intenso ou um suspense bem tramado e denso, que me faz pensar e agitar os neurônios, pensar no quanto podemos aprender com os erros e acertos dos outros. São dois gostos bem distintos, mas com o mesmo objetivo - pelo menos nesta situação específica. Telma é uma pessoa alegre, batalhadora e com uma energia muito agradável - sem falar na sua admirável capacidade de rir de si mesma.

Depois de definirmos o tipo de filme pessoal e ouvirmos as listas recíprocas, ela olha para mim e diz:

- Flávio, você é da elite, você é fino, chique! - e deu risada.

Eu, na dúvida, achei engraçado o que ouvi e comecei a rir, mas confesso que fiquei sem saber se ela estava "tirando sarro" de mim ou me elogiando. Ela continuou:

- Você é a "princesinha da ervilha".

Ai sim eu gargalhei... primeiro porque não conhecia a história*, mas achei o termo engraçado, segundo porque achei interessante a analogia crítica que ela fez entre gosto X elite X princesa. Depois de pesquisar sobre o conto e descobrir que foi escrito por Hans Christian Andersen (Odense, 02/04/1805 / Copenhague, 04/08/1875) entrei em choque, pois ele é dos autores da Literatura Infantil que mais admiro. Pensei comigo: "Por mais que estudamos e lemos, nunca iremos conhecer tudo".

Pensei: que garantia temos que a arte da elite é mais valiosa que a arte do povo? O que podemos considerar como elite e como povo? Quem tem o poder de classificar tais parâmetros?

Para não entrar em discussões teóricas de estética e arte, resolvi me ater ao simples fato que foi uma deliciosa conversa.
E assim, nos despedimos e cada uma foi para sua casa. A história da princesinha ficou na minha cabeça...

Fui dormir como um príncipe, confesso.



* A princesa e a ervilha é um dos primeiros contos do dinamarquês Hans Christian Andersen, relata a história de um príncipe que desejava casar com uma princesa de verdade, mas ele estava tendo dificuldade em encontrá-la. Em certa noite de muita tempestado, bateu à porta do castelo uma moça, dizendo-se uma verdadeira princesa. Porém, devido às condições do tempo, ela estava em péssimas condições, toda molhada e com água escorrendo pelos cabelos. Para testar se a moça falava a verdade, a rainha a convidou para dormir no castelo. Antes porém, colocou uma ervilha na cama em que a moça iria dormir e, por cima, vários colchões e cobertas. No dia seguinte, ao perguntar à moça como ela tinha passado a noite, recebeu como resposta que a noite tinha sido péssima, porque alguma coisa a havia machucado. Com esta resposta, a jovem comprovou ser um verdadeira princesa, pois somente uma verdadeira princesa poderia ter a pele tão sensível, e casou com o príncipe.

10 de novembro de 2009

Moço, tem vestido rosa?


Geisy Arruda, 20, posa com vestido que provocou polêmica que a expulsou da Uniban

O que mais me comove no ser humano é a sua capacidade INFINITA de sentir o que realmente não sente - coisa que não acontece no reino animal!

Ficamos chocados com Hitler e sua psicopatia ao criar a utopia de uma raça "pura" e exercitá-la cruelmente em seu campo de concentração.
Ficamos boquiabertos com o muro que dividia as Alemanhas, um muro construído para extirpar, limitar e eliminar a liberdade do ser humano.
Ficamos estupefatos com a adolescente com cara angelical, Suzanne Von Richthofen, que assassionou os pais a pauladas enquanto dormiam.
Ficamos estarrecidos ao ver o casal Nardoni, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Trotta Jatoba, jogar pela janela a filha de 5 anos.

Até que ponto?!

Podemos ser mais crueis que Hitler, mais desumanos que o Muro de Berlim, mais brutais que Suzanne e muito mais demoníaco que Alexandre Nardoni. Quando humilhamos uma garota, Geisy Arruda, 20, por usar um microvestido rosa nos corredores de uma faculdade (diga-se de passagem uma instuição não muito bem avaliada pelas instituições fiscalizadoras do ensino do Governo Federal), estamos exercitando o nosso lado vil, mesquinho, hipócrita e doentio.

Gostamos de apontar os dedos, mas nos escondemos em nossas vis atitudes julgadoras de falsa moral.

Com esta atitudes, não estaríamos isolando, matando, reprimindo e brutalmente destruindo o que o ser humano tem de mais valioso, que é a sua liberdade de expressão?

Milhares de famosas, pré-famosas, pseudo-famosas e aspirante a famosas, saem nas capas de revistas masculinas abrindo as pernas, arrrebitando as bundas photoshopiadas, fazendo biquinhos de virgens puras e sedutoras, e todos compram as revistas e até as colocamos no banco do taxi ou no consultório médico para ajudar a passar o tempo. Elas têm dinheiro, elas são pagas para isso, então permitimos se venderem. Tem uma justificativa "capital".

Se o funk, o pagode ou o axé não ocupam espaço em minha estante - muito menos na mente - por que razão isso me levaria a destruir, condenar e ofender quem admira os gêneros mencionados?

Nas praias se usam drogas descaradamente, nas boates as pílulas azuis rodam soltas, nos escusos consultórios médicos abortos são praticados...

E a Geisy, não não não... ela não pode usar uma roupa curta, porque isso pode nos fazer lembrar que nossa mente tem o mesmo comprimento!
E não vale usar a "aparência" da moça para justificar os seus preconceitos. Se fez isso, cuidado!

E vale o dito megapopular, sempre inspirador: NOSSO DIREITO TERMINA ONDE O DO OUTRO COMEÇA.