21 de outubro de 2009

Velório, pele e lorotas étnicas



Um velório é sempre um momento delicado, triste e traumático para aqueles que ficam. Quando se perde alguém que você gosta é ainda mais difícil. Se bem que, pessoalmente, acredito que perder alguém que continua vivo é mais dolorido do que em morte. Velório me faz lembrar do magnífico filme japonês "A partida", mas isso são outros bugalhos.

Lá estava ele no velório de uma amiga. Ela durante toda sua vida foi vaidosa, sensível, divertida e madura. Tinha os cabelos claros, olhos azuis e pele branca como a neve. Sempre alegre e convidativa, fazia amizade com todos facilmente. Tinha uma energia sem igual.

Enquanto ele, olhando para o caixão, pensando no quanto a vida é fútil, no valor das coisas etéreas e nos momentos vividos com a amiga, aproximou-se uma senhora estilo antiquário e puxou conversa. No meio do papo, ela intimidou:

- Você a conhecia?
- Sim! Era uma pessoa que eu gostava muito.
- Você era porteiro dela?

Esta pergunta, a princípio tão desprentenciosa, camuflava um comportamento glacial e massacrante chamado preconceito. Ele, por ter a pele parda, sempre foi vítima de preconceito velado. Eu costumo chamar esta discriminação de COLORISMO (cor + nazismo), onde o tom de sua pele determina, ou no mínimo influencia, o seu status e suas conquistas - dentre elas, o respeito. Hoje temos uma protagonista negra numa novela das oito, mas que tipo de personagem ela é? Já parou para pensar? Ela destroi famílias de "brancos". É vingativa. Há uma implícita guerra étnica que nunca irá parar, seja na TV, na vida real ou no inconsciente coletivo. Negro só é bonito na passarela, nos editoriais de moda e no mundo artístico, isto é, LONGE do nosso mundo palpável e real.

No Brasil, o IBGE divide os indivíduos em negros, brancos, pardos, amarelos e indígenas. A Europa tem uma conotação diferente sobre esta classificação. Rasteiramente, poderíamos conceituar que raça é um conceito biológico, enquanto etnia é um conceito cultural. Conforme convenção do IBGE, no Brasil, negro é quem se autodeclara preto ou pardo, porque a população negra é a soma de pretos e pardos. Para fins políticos, negra é a pessoa de ancestralidade africana, desde que assim se identifique.

Segundo o silogismo do nosso órgão estatístico citado acima, a Xuxa, convencionalmente, pode se declarar negra. Em contrapartida, o Pelé pode se considerar branco.

A coisa ficou preta...

Um comentário:

  1. Flávio!
    Tuas Postagens são clássicas. Reais.
    Que lindo está tudo isso
    Lamento ter tanto compromisso
    Aqui aprendo contigo
    Ricos são teus artigos
    Continues a desbravar
    Teu lindo caminhar
    Um Sujeito sensível que escreve em forma de Poesias as DUREZAS da vida que dão VIDA!
    Abraços
    Cenira

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Agradeço o seu comentário, é sempre bom exercitarmos a nossa melhor e mais eficiente qualidade: comunicação!
Forte abraço,
Flávio