19 de outubro de 2009

Gota a decifrar



Depois de muito esforço, estudos, tentativas, erros, acertos etc, ele conseguiu passar no concurso e foi morar na capital. Colocou suas coisas numa mochila, na verdade não passavam de algumas calças e camisetas, e foi morar de favor com a irmã e a sobrinha num apartamento num bairro de classe média.

A cidade era, para ele, o grande desafio: pessoas, lugares, bares, shoppings, parques, lojas. Não entendia o comportamento desvairado dos colegas de trabalho. Cada um exercitando mais e mais a lei da selva - sobrevive o mais forte e o maior, nem sempre o melhor. Sua ingenuidade era o seu esconderijo. Lembrava da sua bucólica e pacata cidade quando se sentia sozinho. Começou a entender que havia um preço a ser pago. Deixou um relacionamento para trás, de forma que, quando estava triste costumava confundir solidão com amor. Ele nunca amou, o mais perto que chegou disso foi quando conheceu a dor de ser enganado por alguém que sentia atração física.

Sua irmã, uma frustrada e histérica mulher, criava a filha como se fosse uma miniatura de seus desejos. Depois de perder o marido para outro homem, ela nunca mais foi capaz de confiar nas pessoas. O mundo deveria pagar por fazê-la sofrer desta forma, ninguém escaparia. A cada dia transformava sua filha na sua própria imagem e semelhança: fria com os homens, analítica-depreciativa, vingativa, calculista, mercenária e com um ar desumano no olhar. Era uma mulher no corpo de uma criança de 10 anos.

Ele chegou em casa e, ao abrir a porta, sentiu um ar carregado. Esquadrinhou cada canto da sala e tentou fingir que não tinha notado nada, afinal de contas a sua estadia naquele apartamento quase sempre era invisível. Tomava banho, alimentava-se, vestia-se, mas ao sair deixava cada canto e cômodo impecáveis como os havia encontrado. Não podia deixar sequer uma pista de sua permanência. Na cabeça dele, agindo desta forma, incomodaria menos sua irmã e consequentemente sua sobrinha. Por ser do signo de libra, ele era uma pessoa que se sacrificava para não ter desentendimento com ninguém. Também pagava o preço por este medo de encarar os fatos reais. Sua escolha, seu preço.

Sua irmã o chama no quarto, ele vai assustado. Chegando lá encontra ambas ajoelhadas olhando para o chão e com olhar inquisidor, perguntam a ele:

- Que gota é esta aqui no chão?
- Não sei, acho que é o creme que passei hoje pela manhã.
- Nossa, nós ficamos a tarde inteira tentando advinhar o que seria isso...

Ele quis morrer. Se pudesse escolher, este seria o momento. Pensou:

"Tenho uma irmã e uma sobrinha que passaram a tarde tentando decifrar uma gota no chão... e fogem de decifrar suas dores, suas mentes, seus rancores e seus dissabores".

Foi dormir, precisava ir para algum lugar só dele.

2 comentários:

  1. Leio-te sempre!
    Gosto de estar aqui... Cada postagem um mundo intenso, de subjetividade única.

    Nunca pare de escrever.

    Abraço!

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  2. Realmente um belo texto! Um mergulho raso num oceano profundo!

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Agradeço o seu comentário, é sempre bom exercitarmos a nossa melhor e mais eficiente qualidade: comunicação!
Forte abraço,
Flávio