28 de outubro de 2009

É isso ai!



Impossível existir uma pessoa que não admire o trabalho de Michael Jackson. Eu, obviamente, me encaixo nesta categoria. Não sou um obcecado fã, mas fico boquiaberto ao ver sua ginga 'moonwalker'. Impossível um corpo humano flutuar, deslizar e fluir de forma tão desafiadora! Até criamos a ilusória sensação que somos capazes de fazer isso no banheiro com a mesma forma graciosa que ele - sim, eu disse banheiro porque o 'mico' será tão grande que é melhor estarmos sozinhos e termos apenas o espelho como juiz!

Ontem assisti à première do documentário "This is it" (2009, EUA - Dir.: Kenny Ortega). Sala lotada, alguns artistas circulando e muita tensão e expectativa no ar. Eu já estava preparado para chorar, mas para minha sorte não cheguei a tanto - e isso não quer dizer que não tenha gostado, muito pelo contrário. Minha admiração por MJ sempre foi grande. Tenho CDs, DVDs, gosto dos clipes, das músicas, das batidas e do uso da tecnologia pirotécnica em seus shows. Gosto de ver a transformação estética que ele sofreu - ou melhor, que ele "encarou" - e de suas esquisitices consumistas. Sim, irei usar o verbo no tempo presente, pode parecer piegas, mas para mim ele não morreu! A sua força transcende ao aspecto físico. Ele é imortal.

O que vi diante de meus olhos foi um ser humano excessivamente tímido, exageradamente talentoso (sim, com exageros assustador!) e quantitativamente educado. Uma pessoa que cria em momentos de aura espiritual e tem dificuldade de 'explicar' suas ideias inovadoras à sua equipe técnica. Uma pessoa que ama o que faz e o faz com muito carinho para os fãs e admiradores. Uma pessoa que respeita o próximo, o planeta e a si mesmo. Um ser que, a meu ver, é perdido em sua própria solidão, assim como um deus que por ter muito poder estará sempre sozinho - para sua própria sobrevivência!

É isso ai!

21 de outubro de 2009

Velório, pele e lorotas étnicas



Um velório é sempre um momento delicado, triste e traumático para aqueles que ficam. Quando se perde alguém que você gosta é ainda mais difícil. Se bem que, pessoalmente, acredito que perder alguém que continua vivo é mais dolorido do que em morte. Velório me faz lembrar do magnífico filme japonês "A partida", mas isso são outros bugalhos.

Lá estava ele no velório de uma amiga. Ela durante toda sua vida foi vaidosa, sensível, divertida e madura. Tinha os cabelos claros, olhos azuis e pele branca como a neve. Sempre alegre e convidativa, fazia amizade com todos facilmente. Tinha uma energia sem igual.

Enquanto ele, olhando para o caixão, pensando no quanto a vida é fútil, no valor das coisas etéreas e nos momentos vividos com a amiga, aproximou-se uma senhora estilo antiquário e puxou conversa. No meio do papo, ela intimidou:

- Você a conhecia?
- Sim! Era uma pessoa que eu gostava muito.
- Você era porteiro dela?

Esta pergunta, a princípio tão desprentenciosa, camuflava um comportamento glacial e massacrante chamado preconceito. Ele, por ter a pele parda, sempre foi vítima de preconceito velado. Eu costumo chamar esta discriminação de COLORISMO (cor + nazismo), onde o tom de sua pele determina, ou no mínimo influencia, o seu status e suas conquistas - dentre elas, o respeito. Hoje temos uma protagonista negra numa novela das oito, mas que tipo de personagem ela é? Já parou para pensar? Ela destroi famílias de "brancos". É vingativa. Há uma implícita guerra étnica que nunca irá parar, seja na TV, na vida real ou no inconsciente coletivo. Negro só é bonito na passarela, nos editoriais de moda e no mundo artístico, isto é, LONGE do nosso mundo palpável e real.

No Brasil, o IBGE divide os indivíduos em negros, brancos, pardos, amarelos e indígenas. A Europa tem uma conotação diferente sobre esta classificação. Rasteiramente, poderíamos conceituar que raça é um conceito biológico, enquanto etnia é um conceito cultural. Conforme convenção do IBGE, no Brasil, negro é quem se autodeclara preto ou pardo, porque a população negra é a soma de pretos e pardos. Para fins políticos, negra é a pessoa de ancestralidade africana, desde que assim se identifique.

Segundo o silogismo do nosso órgão estatístico citado acima, a Xuxa, convencionalmente, pode se declarar negra. Em contrapartida, o Pelé pode se considerar branco.

A coisa ficou preta...

19 de outubro de 2009

Gota a decifrar



Depois de muito esforço, estudos, tentativas, erros, acertos etc, ele conseguiu passar no concurso e foi morar na capital. Colocou suas coisas numa mochila, na verdade não passavam de algumas calças e camisetas, e foi morar de favor com a irmã e a sobrinha num apartamento num bairro de classe média.

A cidade era, para ele, o grande desafio: pessoas, lugares, bares, shoppings, parques, lojas. Não entendia o comportamento desvairado dos colegas de trabalho. Cada um exercitando mais e mais a lei da selva - sobrevive o mais forte e o maior, nem sempre o melhor. Sua ingenuidade era o seu esconderijo. Lembrava da sua bucólica e pacata cidade quando se sentia sozinho. Começou a entender que havia um preço a ser pago. Deixou um relacionamento para trás, de forma que, quando estava triste costumava confundir solidão com amor. Ele nunca amou, o mais perto que chegou disso foi quando conheceu a dor de ser enganado por alguém que sentia atração física.

Sua irmã, uma frustrada e histérica mulher, criava a filha como se fosse uma miniatura de seus desejos. Depois de perder o marido para outro homem, ela nunca mais foi capaz de confiar nas pessoas. O mundo deveria pagar por fazê-la sofrer desta forma, ninguém escaparia. A cada dia transformava sua filha na sua própria imagem e semelhança: fria com os homens, analítica-depreciativa, vingativa, calculista, mercenária e com um ar desumano no olhar. Era uma mulher no corpo de uma criança de 10 anos.

Ele chegou em casa e, ao abrir a porta, sentiu um ar carregado. Esquadrinhou cada canto da sala e tentou fingir que não tinha notado nada, afinal de contas a sua estadia naquele apartamento quase sempre era invisível. Tomava banho, alimentava-se, vestia-se, mas ao sair deixava cada canto e cômodo impecáveis como os havia encontrado. Não podia deixar sequer uma pista de sua permanência. Na cabeça dele, agindo desta forma, incomodaria menos sua irmã e consequentemente sua sobrinha. Por ser do signo de libra, ele era uma pessoa que se sacrificava para não ter desentendimento com ninguém. Também pagava o preço por este medo de encarar os fatos reais. Sua escolha, seu preço.

Sua irmã o chama no quarto, ele vai assustado. Chegando lá encontra ambas ajoelhadas olhando para o chão e com olhar inquisidor, perguntam a ele:

- Que gota é esta aqui no chão?
- Não sei, acho que é o creme que passei hoje pela manhã.
- Nossa, nós ficamos a tarde inteira tentando advinhar o que seria isso...

Ele quis morrer. Se pudesse escolher, este seria o momento. Pensou:

"Tenho uma irmã e uma sobrinha que passaram a tarde tentando decifrar uma gota no chão... e fogem de decifrar suas dores, suas mentes, seus rancores e seus dissabores".

Foi dormir, precisava ir para algum lugar só dele.

Os olhos dos meus olhos



No interior de Goiás, algumas pessoas têm a mania de se referir ao sexo como "fazer bobagem". A priori é engraçado ouvir tal expressão, mas se tirarmos nossos olhos da casca e adentrarmos no subconsciente da palavra, poderemos ver com os olhos de nossos olhos. A culpa, geralmente 'ensinada' na infância, está atrelada ao conceito de que sexo é ruim, é pecado. Quase sempre passamos uma vida toda tentando reverter esta visão. Repetimos certos conceitos, quase sempre automaticamente, e não percebemos que isso só nos cega e nos faz enxergar apenas o óbvio. E assim nos tornamos um mundo superficial, de pessoas óbvias, estagnadas e estancadas no comportamento repetitivo e, geralmente, sem identidade.

De todos os nossos sentidos (e aqui não irei discutir se são 5 ou 6, como a maioria insiste) o que mais aperfeiçoamos - diria que por mero comodismo - é a visão. Esta poderosa ferramenta pode construir ou destruir o nosso mundo interno. Os chamados 'espelhos da alma' podem nos levar à escuridão absoluta ou ao paraíso extasiante.

Hoje, ao vir para o trabalho, ouvi uma senhora chorando ao telefone aos berros com sua filha. Depois de alguns minutos tagarelando, ela sabiamente falou em tom de prece: " - Filha, eu não sou chorona, eu sou sentimental... Tenho mais motivos para rir do que para chorar!" Eu achei sensacional esta pérola dita por ela, principalmente naquele momento delicado - ela tinha se machucado ao cair de uma escada. Pensei comigo: Que linda maneira de ver a vida e os acontecimentos! Que olhos apurados e dignos de admiração. Inevitável não pensar no adágio bíblico: "o pior cego é aquele que vê e finge que não vê". E o engraçado é que ela caiu, segundo o que ouvi parcialmente da conversa, por não ter visto o degrau. Drummond transformou a pedra que viu em seu caminho em poema.

Há muitas pessoas que enxergam perfeitamente, mas nada vêem. Para ver uma árvore nem sempre é preciso abrir a janela. Nestes dias de chuva e frio, inúmeras pessoas gastam horas reclamando do mau tempo. Quando faz sol, idem. Nossos olhos podem e DEVEM ser REeducados diariamente. É mais cômodo ver o lado feio de toda situação e de toda pessoa. Ver o belo quase sempre exige um certo esforço e inteligência. Um lindo bordado, se virado ao avesso, não passa de um desengonçado emaranhado de linhas. Você escolhe como quer ver a situação e tem que ter total consciência de que o seu PONTO de vista é sempre, no mínimo, bilateral. E ainda que fosse unilateral, seria apenas o SEU...!

13 de outubro de 2009

Divã





Uma quarentona, Mercedes, descobre que seu marido tem uma amante (ou supõe que tem!) e entra em crise existencial. Esta crise desencadeia diversos comportamentos e situações na vida da protagonista, que na busca do autoconhecimento no divã, embrenha por hilários monólogos e situações dramaticamente divertidas. Questiona sua vida profissional, marital, familiar e sexual. Este questionamento proporciona momentos únicos.

O diretor, José Alvarenga Jr (BRA, 2009),  provou que mesmo com clichês é possível fazer um longa engraçado e bem-humorado, que nos faz rir e chorar simultaneamente. Fatos comuns, corriqueiros e do nosso dia-a-dia são facilmente transformados em questionamentos maduros, profundos e delicados. O filme, bem montado com suas sequências alternadas cômicas, consegue nos fazer rir de tanto chorar e chorar de tanto rir. Frases de efeito e diálogos inteligentes fazem desta comédia um destaque na categoria. Cena imperdível: Mercedes vai com a melhor amiga numa boate.

Ponto para a excelente atuação de Lilian Cabral e um quase aplauso pelo aperfeiçoamento profissional do então aspirante a ator Reynaldo Gianecchini na sua considerável atuação. Ponto para o cinema nacional, dá para sentir orgulho de ser brasileiro nestas horas.

2 de outubro de 2009

Você tem cheiro de que?




O cheiro natural de uma pessoa certamente não é um cheiro essencialmente agradável – para isso criamos os perfumes. O hálito natural também não é confortável – para isso existem os inúmeros cremes dentais, enxaguantes bucais, balas etc. As excreções então, nem merecem comentários. O ser humano é um ser que fede, que exala mau cheiro e tem péssimos hábitos alimentares. Aqui nem discuto apenas as questões de higiene pessoal.

A filosofia indiana diz que podemos analisar os chakras* de uma pessoa pela situação (cor, aparência, odor etc) que ela deixa o prato após a refeição. Quanto mais sujo ficar o prato, mais ‘impura’ é a alimentação e consequentemente mais sujos são os seus canais energéticos. De forma que, esta filosofia favorece a ingestão de legumes, verduras, frutas e hortaliças em geral – sempre tão coloridas, mas ao mesmo tempo tão ‘limpas’.

Menos de 5 minutos de caminhada, pude sentir diferentes odores. Alguns me incomodaram muito, outros consegui abstrair. Andei e fui sentindo pelo caminho: um fumante que mais parecia uma maria-fumaça (cigarro me sufoca e me dá dor de cabeça!); uma pessoa suada e insuportavelmente fedida passando; a marginal com seus fedores de esgoto típicos; uma mulher e seu perfume ‘vencido’; uma barraquinha de churrasquinho de gato (desculpem-me os onívoros, mas carne para mim tem um cheiro horrível!); pastel frito (eu amo pastel, mas convenhamos, o cheiro de óleo aquecido e tetra-utilizado é nojento!)... e podem até duvidar, mas até cheiro de cachorro molhado eu senti – mesmo sem ver nenhum.

E se você pensar: onde ele estava andando? Eu te digo, Vila Olímpia, uma região recheada de empresas e escritórios de luxo, bares e restaurantes chiques. Tudo bem que eu estava indo para a Universidade, depois de um dia todo de trabalho (imagino que a maioria das pessoas também tenha trabalhado), mas tenho absoluta e total garantia que eu estava ‘cheirosinho’. Sem trocadilhos!

Ah, nada como o meu Egoiste Platinum da Chanel.



* Chakras são, segundo a filosofia Yôga, canais dentro do corpo humano (nadis) por onde circula a energia vital (prana) que nutre órgãos e sistemas. Existem várias rotas diferentes e independentes por onde circula esta energia. Os chakras são os pontos onde essas rotas energéticas estão mais próximos da superfície do corpo.