21 de setembro de 2009

A partida




Tratar de um tema polêmico de forma respeitosa e flexível é um dos grandes feitos do filme "A partida" (Okuribito, 2008 Japão) ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2009. Algumas fórmulas e formas audiovisuais já estão exauridas no cinema, mas quando são estruturadas por uma fluente química entre os atores, o tempero muda e o sabor final das cenas é de lamber os lábios. A música tirada do violoncelo é maestrosamente encorporada aos dramas vividos por cada personagem. O silêncio em seus gestos, nos olhares esguios, nos sorrisos contidos e em suas pudicas expressões de afetos dão um toque oriental bem peculiar às cores, à belíssima paisagem e à fotografia que enche os olhos e a alma.

Se eu fosse descrever o filme em uma única frase, certamente não inspiraria ninguém a vê-lo: "Um violoncelista retorna à sua cidade natal, onde passa a trabalhar como agente funerário." A forma como o ritual de aconcionamento do corpo, parte da tradição japonesa, é tratado, nos deixa estupefatos diante do inefável respeito que os entes queridos são tratados. O ritual da passagem é ao mesmo tempo um preparatório para que os que ficam possam cultuar a sensação de que realmente se despediram.

A clássica forma narrativa japonesa é recheada de factíveis surpresas e desfechos únicos, tais como as que o protagonista Daigo é capaz de nos apresentar, fazendo-nos sorrir e chorar com uma desenvoltura sem igual. O perfeito domínio dos músculos faciais - tanto nas suas atrapalhadas quanto nas suas dores - dão a este ator um poder shakespeariano sobre o telespectador. Diante de tantas cenas lúgubres, a narrativa é dirigida com deliciosas cenas cômicas que juntas à trilha sonora sem igual, dão um equilíbrio doce e majestosamente aceitável.

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Flávio