28 de setembro de 2009

Onde os fracos não têm vez



O cinema surgiu como uma expressão marginalizada, levaram-se décadas para considerá-lo como 'arte' - a sétima arte. Hoje é inegável o seu poder na indústria de entretenimento. Um filme ao ser lançado movimenta milhões de dólares e milhares de pessoas na sua pré e pós-produção. Não foram os primeiros nem tampouco os únicos, mas os irmãos Lumiére ficaram famosos por lançarem-se como os responsáveis pelo surgimento do cinema no ano de 1895. A fama, junto com um eficiente marketing, lhes deram este mérito. Foram inteligentes e canalizaram o trabalho de outros profissionais. Não questiono o talento de ambos, isso nem ouso discutir. Foi a dupla que contribui substancialmente para a história do audiovisual.

Já no nosso século dois irmãos, Coen, fizeram uma obra cinematográfica espetacularmente perturbadora: Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007 EUA) - vencedor de 4 Oscars. Um caçador encontra uma valise com muito dinheiro, resolve pegá-la. Um matador é contratado para resgatá-la, um xerife à procura do matador e várias histórias entrelaçadas e moldadas pelo comportamento de um vilão impiedoso, ardiloso e inteligente. Obviamente os irmãos Ethan e Joel Coen contam atualmente com uma tecnologia de ponta, ótimos atores, excelentes roteiristas e ótimas técnicas cinematográficas, capazes de gerar uma obra-prima digna de cada aritmia, suor e angústia que nos provocam. Assistir às cenas de maior tensão equivale a ficar à beira de um precipício, ter a certeza que vai cair, mas sem saber a hora exata. Temos a forte tendência em explicar os erros comparando-os aos acertos, nossas dores com nossas alegrias, nosso sofrimento com nosso gozo... E se eu dissesse: Esqueça todos estes paradigmas socráticos e dispa-se de toda e qualquer tentativa de entender, compreender e viver o seu mundo. Exercite seu lado desumano - no sentido de não sentir emoções relativas aos humanos. Tenha coragem de sentir raiva, medo, dor e angústia. Permita-se ter prazer ao vingar-se. Esqueça de valores morais que foram cravados em seu cérebro. Agrida se tem vontade, surpreenda, não dê ao outro chance para argumentação. Passe, se preciso for literalmente, por cima do que for para atingir seus objetivos. Vise vencer, lucrar e o dominar todos. Seja impiedoso, cruel, frio e maquiavélico, mas não grite, não seja rude nem mal educado. Mantenha calma, equilíbrio e harmonia, mesmo que este caos mental represente o sofrimento horripilante do outro.

Não espere ter prazer catártico no final, nem tampouco um desfecho confortável oferecido na maioria dos filmes do gênero drama. Ao falar isso, posso estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, mas a graça está justamente em COMO se chega até o final, não o final em si.

Permita-se surpreender, mas depois não diga que não avisei!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradeço o seu comentário, é sempre bom exercitarmos a nossa melhor e mais eficiente qualidade: comunicação!
Forte abraço,
Flávio