4 de agosto de 2009

Infância Roubada



Todos nós, seres humanos adultos, já tivemos uma infância. Uma época mágica de sonhos, imaginação, fantasias e despreocupação com as inevitáveis responsabilidade da vida adulta. Sim, este tempo é inquestionavelmente o melhor de nossas vidas. Salvo algumas exceções. Nem quero entrar no mérito das agressões contra crianças.

Imagine um bebê, com alguns meses de vida, no banco traseiro de um carro dirigido por sua mãe que é baleada ao abrir o portão da garagem para entrar em casa. O ladrão rouba o carro e foge sem perceber a presença do bebê, e só percebe ao ouvi-lo chorar, provavelmente de fome, depois de muitos quilômetros adiante. O mais interesse é ver a ignorância do ladrão aos necessários cuidados infantis, uma vez que ele próprio fugiu de casa quando era criança por ter visto e sofrido agressão por parte do pai que o impedia de tocar a mãe moribunda na cama. Cresceu e viveu nas ruas, sob a lei dos sem-tetos e dos sem-medo. Aprendeu a sobreviver e tornou-se um líder de gangue que rouba, mata e assalta para sobreviver. Neste dilema, entre cuidar do bebê sequestrado ao acaso e continuar vivendo sua vida de bandido é que se desenvolve o interessantíssimo enredo do filme Infância roubaba (Tsotsi*, África do Sul / Inglaterra, 2005) ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de 2006. Acaba convencendo uma moradora da favela, Miriam, para amamentar o seu 'filho'. Deste conviívio forçado surgem cenas de muita tensão e potencialmente ricas em semânticas sócio-políticas.

Este belíssimo filme, com uma fotografia digna de admiração e ótimas tomadas externas - já que usa pouquíssimos recursos de estúdio - nos faz pensar no dilema entre ser bom e ser mal, e o que nos leva a ser cada um destes extremos. Articula que somos uma consequência daquilo que passamos em nossa infância. O título traduzido foi muito bem utilizado, pois traz uma ambiguidade da infância ao determiná-la como 'roubada'. Tanto o bebê foi roubado como a infância do protagonista foi roubada, dentro do enredo apresentado.

Dispa-se de todos os conceitos audiovisuais pré-estabelecidos e mergulhe-se numa obra digna de admiração!


* Na gíria urbana de Johannesburg a palavra "tsotsi" significa assassino.

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Flávio