31 de julho de 2009

O pardalzinho magnífico

Hoje em dia temos grandes atrizes. Algumas são ótimas anfitriãs, excelentes representantes da categoria beldade, outras são exemplares a serem seguidos nos programas sociais de ajuda aos menos favorecidos - dá-lhe Angelina Jolie - e algumas únicas no segmento quadril inquieto - dá-lhe Beyoncé... sim o mundo das estrelas é vasto e satisfaz o gosto de todo telespectador!

Piaf - Um hino ao amor (La Môme, Inglaterra/França/República Tcheca, 2007) é um filme que retrata com muita dignidade a vida da cantora francesa mais famosa de todos os tempos, que de menina abandonada pela mãe passa a ser a maior intérprete de todos os tempos. Ao mesmo tempo que foi intensa e frágil, foi capaz de fazer qualquer sacríficio em nome da arte, em nome do prazer de subir ao palco e fazer o que mais sabia fazer - cantar com encanto.

Marion Cotillard (vencedora do Oscar 2008 de melhor atriz) é uma destas atrizes que, apesar de ser desconhecida do grande público, tem um talento que extravassa as técnicas de atuação no cinema. Causa-nos arrepios nas cenas dramáticas e nos faz sorrir com ternura nas poucas cenas meigas e felizes que a personagem/cantora viveu. Um banho de talento e dedicação, percebe-se claramente que a atriz entregou seu corpo, sua alma e sua vida nas mãos de Edith, deixando-se sentir as dores, os horrores e os sabores vividos pela intérprete do amor.

Em vários momentos pensei no quanto a vida de Piaf, chamada de Petit Piaf: pardalzinho, foi sofrida, triste e dolorosa, mas mesmo assim teve força para levar adiante seu sonho e se tornar uma cantora sem igual. Por outro lado, penso que inúmeras pessoas não conseguem crescer na vida, nem tampouco conquistar seus objetivos porque gastam muito tempo e energia reclamando dos dissabores que aparecem pelo caminho. Quem canta, seus males espanta - já diz o adágio.

30 de julho de 2009

Os Infiltrados



Uau... hoje em dia é raro um filme despertar tanta curiosidade, suspense e fazer nossos corações dispararem ansiosos, tão grande é a quantidade de películas que são lançadas diariamente. Os infiltrados (The Departed , EUA 2006) fala, dentre tantas temáticas abordadas, de dizer a verdade, ser sincero, de jogo psicológico permeado de artimanhas, trapaças mercenárias e muita ação - sempre com a identidade do Scorsese que dispensa comentários!


A polícia consegue infiltrar um homem no grupo comandado por um mafioso do crime organizado, que por sua vez também consegue infiltrar um outro homem na polícia. Cria-se então uma verdadeira batalha por sobrevivência e poder. Atores de grande porte, tais como Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Anthony Anderson e Alec Baldwin, dão um show a parte, cada um à sua maneira. Diria que é um filme 'machista', pois mostra apenas homens no comando, nas decisões, no poder, nas brigas... se não fosse pela atriz Vera Farmiga (Madeleine) que dá um toque de sensualidade, inteligência e equilíbrio no arsenal masculino que se apresenta em quase todos os seus 149 minutos de duração.


O final é por si só surpreendente... não pelo que acontece, mas sim por imaginar que pode ser 'real' o que é mostrado em cena! Enredo originalíssimo e altamente bem estruturado. Apesar de longo, vale cada minuto... o mais interessante é o que é mostrado nas entrelinhas, naquilo que o ser humano é capaz de fazer e não fazer.

29 de julho de 2009

Trilogia das cores: azul, branco e vermelho

Eu sou encantando pelo cinema europeu. A sua narrativa, trilha sonora, fotografia, montagem, atores... tudo é único e foge ao óbvio. O diretor Krzystof Kieslowski, cineasta polonês e um dos meus preferidos, é uma unanimidade. Sua história é deveras curiosa. Morando em Paris e desiludido com a política, Krzystof resolveu filmar as dores do mundo. A Trilogia das Cores (Trois couleurs, 1993-1994), inspirada nas cores da bandeira francesa, e em seus significados, é um dos momentos mais poéticos do cinema europeu.



Bleu, A Liberdade é Azul, (1993) é o primeiro e é um drama. Julie (a linda Juliette Binoche) perde o marido (famoso compositor) e a filha pequena em um acidente de carro. Tenta se matar mas não consegue pois é fraca demais para fazer isso. Fica só. E ser livre é, muitas vezes, difícil. O filme é recheado de momentos de dor, solidão e busca pela liberdade. A trilha sonora de Zbigniew Preisner é espetacular e nos conduz ao clima denso do filme. O final, é emocionante.





Blanc, A Igualdade é Branca, (1993) é o segundo e uma película próxima à comédia. Para Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), cabelereiro polonês, estar vivo não é nada fácil. Vai à Paris e é humilhado. Sua mulher, Dominique (Julie Delpy), pede o divorcio, já que Karol Karol não "consumou" o casamento - fato este que dá um tom cômico-dramático às cenas seguintes. Por ser humilhado e ignorado pela esposa, ele volta à Polônia (fugindo dentro de uma mala) e arquiteta a sua mais magnífica forma de vingança - que não detalharei aqui para não estragar a surpresa de quem vai assistir. Hilário e extasiante!





Rouge, A Fraternidade é Vermelha, (1994) é o terceiro e último filme da trilogia. Assemelha-se a um poema, recheado de fotografia impecável. O rosto de Irene Jacob, musa com beleza clássica e angelical, flutuando em fundos vermelhos é de aquecer qualquer coração. Irene é Valentine, modelo suíça que vive em Paris, longe do namorado ciumento. Sua história é interligada à de um jovem que quer ser juiz. Valentine atropela uma cadela e ao levá-la de volta ao dono - endereço na coleira, conhece um estranho que passa seus dias ouvindo ligações telefônicas dos vizinhos. Desse encontro surge uma estranha amizade que, aos poucos, modifica a vida de ambos personagens. Magnífico!


P.S.: A Liberdade é Azul ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor filme e melhor fotografia, tendo ainda Juliette Binoche como melhor atriz. A Igualdade é Branca deu o Urso de Prata em Berlim para Kieslowski como melhor diretor. A Fraternidade é Vermelha ganhou Cannes como melhor filme, o Cesar por melhor trilha sonora e foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e ao Oscar como melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

24 de julho de 2009

Ponte para Flaviobítia



Com o tempo perdemos o que temos de mais precioso que é a docilidade e a pureza infantil. Nada é tão puro quanto o sorriso - sempre sincero - de uma criança. Sou hiper suspeito em defender os conceitos infantis, uma vez que é notória a minha eterna vontade de ser pai e o meu amor incondicional às crianças - e aos meu sobrinhos que crescem mais rápido do que a minha necessidade de estar ao lado deles.

O filme da Disney "Ponte para Terabítia" (Bridge to Terabithia, EUA 2007) me fez chorar deliciosamente, pois relembra a infância com seus dilemas peculiares, que todos nós passamos ou 'pulamos'. Reforça que o mais importante é acreditar no que sonhamos e imaginamos e a sempre manter a mente aberta para o novo. A obra cinematográfica foi inspirada no livro que foi publicado em 1977. A autora Katherine Paterson o escreveu como forma de consolar seu filho mais novo, David, devido à morte trágica de uma grande amiga. O enredo descreve maestrosamente a vida de um casal de adolescentes com características muito diferenciadas do que seria senso comum. A garota, Leslie Burke, é uma excelente competidora de corrida na escola, independente e extremamente decidida no que quer e na forma de se vestir, destacando-se da maioria feminina. Já o garoto, Jess Aarons, é sensível, calado, tímido e ótimo desenhista. Como se não bastasse ele possui 4 irmãs, sendo o único filho homem na família. Estas discrepâncias nos perfis de cada um - já que a mulher na sociedade é sempre mostrada como sensível e o homem como rústico - os leva a desenvolver uma amizade sui generis, criando juntos mentalmente um reino mágico e encantado (Terabítia) que serve de refúgio para ajudá-los a enfrentar os problemas que enfrentam na escola. Terminei o DVD com a doce e inefável sensação de que minha infância foi vivida.
Pensei no quanto eu me diverti quando era criança pequena - já que ainda me sinto criança, só que agora grande. Eu e uma turma de molecada da rua, íamos para os córregos próximos e brincávamos de floresta: mergulhávamos na água barrenta, engolíamos peixinhos acreditando que assim aprenderíamos a nadar - eu sempre jogava o peixinho de volta na água e dizia que tinha engolindo, minha porção vegetariana já estava querendo sair! Tínhamos um mundo só nosso, onde não existia medo, raiva, angústia, vingança nem tampouco inveja. Era um mundo inventado, sim era, mas isso não o fazia inferior. Um dia éramos índios, no outro éramos astronautas, no seguinte cientistas. Era o nosso refúgio, nossa válvula intermediadora, nossa ponte para o mundo dos adultos.


Até hoje mantenho certos refúgios para os momentos mais críticos da vida. Seja usando um objeto da infância - tenho um par de sapatinhos que usei quando tinha menos de 1 ano, uma foto inspiradora ou mesmo uma imagem mental cravada na parede do cérebro. Cada um cumpre o seu papel que é resgatar-me do mundo dos 'adultos' e levar-me para o mundo 'flaviobítia' - onde tudo é possível, e a única coisa que é impossível é ser adulto - na concepção pejorativa da palavra.

E você, tem o seu mundo? Está desenvolvendo ou matando o seu refúgio interno?

16 de julho de 2009

Mulher, trabalho e submissão




Uma amiga me contou uma história interessante: ela tem uma amiga que é casada e tem um filho de 7 anos. Depois de muitos anos ocupando o perfil de "Amélia", ela resolveu trabalhar e foi à luta. Depois de um mês inteiro de correria, suor, stress, cobrança etc, ela recebeu o seu primeiro salário. Toda feliz, imagino, pegou o cheque - fruto de seu esforço - e deu nas mãos de seu marido para ele descontar. Boooommmmmmm... Era uma vez um salário! Ela nunca mais viu a cor nem o cheiro do dinheiro.

Minha amiga - a que me contou esta história - ficou chocada com a atitude de sua amiga e deu uma bronca nela. Eu, na condição de estranho na história, fiquei perplexo em saber que em pleno século 21, onde as mulheres brigam bravamente por direitos e igualdades, ainda existem mulheres ingênuas e submissas aos controles machistas. Não é um controle declarado - talvez por isso eu o ache mais maligno - é um controle que o homem exerce parecendo 'amor' para com sua mulher. É algo do tipo: "Querida, te amo e quero ter mais um filho com você" que equivale a "Querida, quem manda sou eu e quero que você fique mais alguns anos presa em casa". Este complexo mecanismo opressor x oprimido está cada vez mais sofisticado, e quando menos esperamos, ele dá as caras em nossa própria vida.

Acredito que somos seres diferentes, homens e mulheres, que ocupamos papeis diferentes - isto é um fato inquestionável! A problemática não está em sermos apenas diferentes, mas em sim sermos submissos. Um homem não é capaz de gerar um filho em sua barriga e uma mulher não é capaz de gerá-lo sozinho sem a contribuição masculina - pelo menos até onde a ciência afirma. Ser diferente não é sinônimo de ser inferior. E quem se acha superior em alguma coisa, ou cai na tentação de achá-lo, deve lembrar que a morte unifica qualquer suposto sentimento de superioridade. Somos falíveis, mortais, imperfeitos... Humanos. Desta fatalidade ninguém escapará.

Como disse uma amiga minha no seu twitter: "não somos seres humanos numa jornada espiritual. Somos seres espirituais numa jornada humana". Podemos aprender com cada pessoa ao nosso lado, com cada fato que nos acontecer ou simplesmente podemos nos fechar em nossa concha de egoísmo. É uma escolha, sempre! Crescer doi - é um processo corajoso.

Mata-se muito mais em nome do "amor" do que do ódio...

9 de julho de 2009

Espaçonave e tribo



"São Paulo é um lugar de todas as
tribos, mas cada um na sua!"
Acho interessante o quanto a cidade de São Paulo é plural. No mesmo dia, podemos ver um punk ouvindo MPB, um emo curtindo música setaneja, um padre almoçando num restaurante badalado e caro, um executivo de bermuda e tênis, uma loirinha de cabelo crespo, um negro de olhos azulados, um japonês de cabelos platinados, um chef de cozinha comendo hot dog na esquina. Esta miscigenação é forte e latente em todas as classes sociais.


É uma espaçonave estacionada no planeta chamado Brasil. Tudo aqui é único, diferente e não é um produto seriado. Como em toda espaçonave, ela é isolada do resto do planeta, não depende dele para viver, tem suas leis próprias que são regidas pelos seus "pilotos". Dela partem tendências, leis, modismos, costumes e regras. Queira sim ou queira não, você sempre fará parte de uma tribo. Nem sempre gostamos que outros integrantes de outras tribos venham opinar ou invadir nosso mundinho. Não raramente queremos impor nossos costumes tribais a outros indivíduos. A forte tendência a copiar o outro é que nos faz sermos aceitos em grupo. O multiculturalismo paulistano é uma prova de que é possível convivermos com os diferentes sem deixar sermos 'contaminados'. Cada um na sua - com direito a circular (não permanecer!) por entre a tribo alheia. Quem aqui vive, esquece do resto do mundo. Fica-se fechado e isolado do contato extra-terrestre. Tem-se tudo para viver, e viver bem!


A necessidade de expressão é algo típico do gênero humano, os animais em sua maioria são iguais em suas aparências e vivem bem em bandos. Já nós, os humanos, temos necessidade de sempre sermos diferentes na forma de vestir, falar, expressar, possuir, agir e politicar. Como se estivéssemos buscando eternamente um ideal inatingível. Conheço uma pessoa que gosta de fofocas (aliás quase todos gostam), mas o prazer dela não é simplesmente fofocar. Ela gosta de 'parecer' diferente, ela busca saber o que ninguém sabe, de um ângulo diferenciado. E se for alguma fofoca de conhecimento de todos, ela sempre traz algum 'ponto' diferencial e exclusivo, como se isso fizesse dela uma pessoa 'diferente' e única. Quer sempre saber mais do que todos, gastando muito tempo e energia nisso. É uma forma de ser diferente, já que, por minha dedução, ela tenha dificuldade em ser genuína em outros aspectos de sua vida pessoal, principalmente no afetivo. Cada um na sua...


Qual tribo você pertence? É melhor perguntar para seus amigos...

7 de julho de 2009

Arthur e o Pequeno Príncipe*




Arthur era uma criança doce, carinhosa e agitada. Tinha pouco mais de sete anos e um sorriso contagiante no rosto. Mesmo morando num barraco na favela Camaleão, ele gostava muito de ler e ouvir histórias contadas pelos adultos. Seu pai não sabia ler, muito menos sua mãe, desta forma ele passava as noites olhando para a Lua através dos buraquinhos no telhado de seu quarto que ficava no alto do morro. Não tinha televisão em casa. Quando ia à escola sentia-se feliz, pois a tia Dalva sempre lia histórias antes do intervalo. Este era o momento mais esperado por ele, quando o contato com a sua imaginação o fazia voar para muito longe de sua triste realidade. Aprendeu o gosto pela leitura na escola, onde sua professora Dalva sempre dizia que a leitura é uma forma de viajar sem sair do lugar.


Seu maior sonho era ganhar o livro "O pequeno príncipe" de Antoine Saint-Exupéry. Quando pediu o livro a seus pais como presente de Natal, eles ficaram totalmente frustrados e não sabiam como dizer ao filho que não tinham dinheiro nem para comer, muito menos comprar um livro. Sua mãe Beatriz o chamou no quarto quando seu pai tinha saído e confidenciou:

- Filho, seu pai não tem dinheiro para comprar o livro que você pediu. Eu estou sem emprego e também não tenho condições. O pouco dinheiro que conseguimos é para comprar comida. Achamos mais importante alimentá-lo com comida do que com livros. Assim você consegue ir à escola e estudar.

A partir deste dia, nunca mais Arthur teve coragem de pedir nada a seus pais, pois viu o sofrimentos nos olhos de sua mãe.

Começou a pedir dinheiro na escola, dizia que era para comprar remédio para seu cachorrinho que estava doente. Conseguiu juntar, com a ajuda dos coleguinhas Bia e Gabriel, um total de R$5,95. Pegou este valor e saiu correndo até a livraria da esquina. Entrou e com seu saquinho de moeda na mão direita, pediu ao balconista:

- Tio, me dá o livro "O pequeno príncipe".

Colocou o saquinho de moeda no balcão. O atendente olhou para ele com cara de espanto. Com o mesmo olhar varreu todo o perímetro no qual estava a criança e não viu ninguém que pudesse ser seu pai ou sua mãe. Sorriu, passou a mão em sua cabeça e disse:


- Olá garoto. Qual seu nome?
- Arthur...
- Arthur, o livro que você quer não chegou ainda, só teremos na semana que vem, ok? Volte depois.


O pobre garoto murchou o semblante, recolheu suas moedas e saiu cabisbaixo. Na verdade o vendedor mentiu ao dizer que o livro estava em falta. Ele ficou com pena de ter que dizer ao garoto que o livro custava R$20,00 e que suas moedas não eram suficientes para adquiri-lo. Achou melhor não contrariá-lo.


Arthur voltou para casa triste e naquela noite não conseguiu dormir. Passou a noite toda sonhando com as viagens do príncipe de cabelos loiros encaracolados. Viu os primeiros raios do sol nascer através dos buracos no seu telhado. Era Natal. Levantou da cama, calçou seu chinelinho marrom e foi para sala. Ao invés de leite com bolacha, como sua mãe sempre colocava na mesa, encontrou um pacote de presente. Correu gritando:

- Mãeeee, de quem é este presente?
- É seu meu filho, Feliz Natal!

Arthur num gesto instintivo abriu o pacote, rasgando o papel vorazmente. Era o livro. Capa branca brilhante, desenhos em aquarela nas cores amarela. Não acreditou quando leu "O Pequeno Príncipe". Pulou nos braços de sua mãe e a abraçou forte - sem soltar o livro de suas mãos. Nem lembrou de perguntar sobre seu pai. Mal sabia que a esta hora seu pai estava limpando a piscina do vizinho para assim ter dinheiro para comprar comida. Abriu o livro, sentou no chão... Seus olhos brilhavam... E começou a ler vagarosamente:

- "Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma impressionante gravura. Ela representa ela uma jibóia que engolindo um animal."


* Esta estória foi iniciada por mim e continuada por 4 crianças adoráveis: Bia, Biel, Van e Tutu, numa tarde de domingo. O que era para ser apenas uma brincadeira, acabou tornando-se algo prazeroso e de grande valor. Graças a eles, pude ver, nesta estória codificada por mim, o mundo com olhos mais ingênuos e puros - típicos da imaginação infantil.

3 de julho de 2009

Ego




Ainda sonho
Com um superego
Que me deixa cego
Por mais que eu nego
Por obscuridades que trafego
Num frenesi que me esfrego
- Ah, sim!
Um dia certamente me entrego
Serei mais do que simplesmente
Um alterego


O riso de Borat



A mistura de gêneros é uma constante no cinema atual. Um filme não é mais facilmente rotulado como 'drama' ou só 'suspense'. Fazem-se filmes cômicos com apurados textos dramáticos, apoiados em muito suspense regado ao realismo do cinema moderno e mesclado ao romantismo satírico, passando pelo fantástico e fechando a história com pedaços de cenas realistas ao estilo documentário.

A comédia BORAT (Borat: cultural learnings of America for make benefit glorious nation of Kazakhstan, EUA 2006) não contém toda esta miscelânea fílmica, mas certamente é um exemplo bem humorado que não pode ser ignorado. O filme é apuradamente levado às raias do humor escatológico e irreverente. O ator britânico Sacha Baron Cohen, no papel do jornalista do Cazaquistão chamado Borat Sagdiyev, dá um banho de interpretação realística ao misturar cenas de pessoas comuns às cenas editadas e frias dos filmes produzidos para parecerem 'reais'. A massacrante crítica política contra o sistema americano é um de seus pontos-chaves. Nâo falo de política partidária, mas sim daquela que envolve os valores culturais de um povo, as suas formas de expressão, suas crenças e seus orgulhos. Debate-se, regado a muita risada por parte do telespectador, sexualidade, etiqueta, racismo, folclore, status, consumismo, capitalismo e um turbilhão de comportamentos ditados pelo modo 'americano' de ser. Expõe-se claramente o preconceito e a hipocrisia da cultura americana.

Ver o personagem correndo pelado atrás de seu produtor, ambos atravessando um salão onde acontece um congresso de corretores de imóveis, é apenas uma cena a mais no turbilhão que nossos olhos verão. Sim, é um filme para se rir muito - se você gosta de filmes ao estilo "Casseta e planeta x Mister Bean x Jerry Lewis x Peter Sellers " - um riso educador, questionador e altamente ácido. Não é um filme "mamão com açúcar" nem tampouco é para ser visto com a família toda reunida numa tarde de domingo, mas certamente é uma película que irá mexer com seus valores morais, ou no máximo irá deixar você boquiaberto diante de tamanha audácia do personagem/ator.

1 de julho de 2009

Precisamos de um PRÉ-conserto!



Alguns comportamentos estão tão arraigados em nosso dia-a-dia que não percebemos a profundidade que eles habitam. Um deles é o preconceito. Nós, brasileiros, somos um povo alegre, extrovertido, batalhador, guerreiro - e altamente preconceituoso!

Temos uma infinidade de situações que possibilitam o cruel exercício do preconceito, uma delas é a famosa piadinha. Tem piadinha para loira, negro, nordestino, pobre, padre, mulher, português etc. Todas salientam o forte sentimento sádico-moral chamado 'preconceito'. Pessoas preconceituosas geralmente procuram ocupar um papel divertido, para mascarar seu sadismo. É uma espécie de 'bobo da corte'.

As piores, a meu ver, são aquelas que referenciam a situação desfavorável de uma pessoa ou um grupo.

Com a recente morte do ícone pop MJ, pude ouvir - e receber por e-mail - piadinhas do tipo:


1. Michael Jackson morreu e ao fazerem
sua autópsia encontram no seu estômago vestígios de pé-de-moleque.


2. MJ chegou no céu e a primeira coisa
que quis ver foi o menino Jesus.

Sinceramente, o que me desperta pena não é a piada em si, mas a atitude da pessoa que envia e/ou faz este tipo de comentário! Que somos preconceituosos, isso é fato! Mas disseminar um comportamento sádico e doentio é algo altamente inadimissível nos tempos atuais. Os maiores preconceituosos tentam mascarar seu sadismo em forma de piada, imaginando que assim a sua agressão seja mais fácil disseminada - e frequentemente é, por conta da nossa vil cumplicidade. Eles, os agressores, só existem por conta de nós, os receptores, que também somos tão responsáveis quanto eles no complexo movimento agressivo.

Uma amiga querida, outro dia por e-mail, admitiu ser preconceituosa e que precisava melhorar isso. Uau! fiquei feliz ao ler tamanha sinceridade dela, pois eu jamais imaginaria que ela seria preconceituosa aos extremos e muito menos que estaria disposta a lutar contra os seus auto-demônios! Pensei ao ler seu e-mail: "Nossa, isso sim que é maturidade! Reconhecer seus defeitos, referenciá-los e ainda assim formalizar uma batalha."

Não é confortável, nem é fácil enumerar nossos erros, falhas e preconceitos. Certamente não é uma tarefa para qualquer pessoa. Ponto para quem admite suas falhas e está disposto a estirpá-las. Num mundo tão agressivo e preconceituoso, pessoas assim nos fazem acreditar no azul do céu - mesmo quando está nublado!