24 de junho de 2009

Onde está a sujeira?




Érica era uma menina doce e carinhosa. Adorava desenhar de bichinhos de pelúcia e mantinha uma coleção imensa de Barbies - algumas delas trazidas de viagens feitas por parentes. A sua verdadeira tristeza era seu pai nunca lhe dava carinho, nem sequer a olhava direito. Vivia muda e introspectiva pelos cantos, acreditando que um dia ele iria levá-la para tomar um sorvete na pracinha da esquina ou que ambos iriam comer pipoca juntinhos frente à televisão. Ao invés disso, seu pai, quando não estava vociferando com sua mãe dando-lhe ordens e mais ordens na organização da casa, estava na rua reclamando da vida e jogando conversa fora com os amigos do xadrez.


Por não saber dirigir, quando entrou na universidade, Érica imaginou que teria a grande chance de sua vida que era ficar sozinha com seu pai no carro no trajeto diário até a faculdade - já que ele iria levá-la nos 6 primeiros meses. Talvez ali ela pudesse estreitar os laços afetivos e obter o tão desejado carinho que sempre sentiu falta. A esperança a movia, seu amor era maior do que a dúvida.


Primeiro dia de aula ela acordou motivada e com um sorriso contagiante nos lábios. Deu bom dia a todos e lá se foram. No trajeto, seu pai passou os trinta minutos reclamando ininterruptamente da sujeira do rio, do lixo acumulado, da água suja, do mal estado de conservação da estrada, da falta de educação das pessoas, do governo que nada faz para melhorar esta situação e por ai foi... Érica nem teve tempo de perguntar nada nem ouvir nada de seu pai. Ficou chocada por ouvir tanta reclamação e mal humor em tão pouco tempo. Não entendia como ele via tanta coisa negativa num rio tão bonito e bucólico. Um pouco rústico, sim era, mas nada como ele descrevia.


O tempo passou e a doce menina teve que aprender a dirigir e ir sozinha para a faculdade depois que seu pai faleceu. Neste dia muita coisa mudou. Ela percebeu que do lado do motorista, na pista esquerda, também tinha um outro córrego, bem menor que o da direita, mas era EXATAMENTE como seu pai descrevia. Ela até achou que ele não tinha sido tão exagerado assim, pois a sujeira era realmente imensa e absurda. Naquela manhã nem conseguiu ir à aula. Parou o carro no estacionamento da faculdade e chorou por muito tempo. Foi um choro de perdão, de dor e de arrependimento por ter compreendido que perdeu muito tempo julgando o comportamento de seu pai e gastou pouco tempo amando-o despretenciosamente. Agora era impossível fazê-lo, perdeu tempo demais reclamando da reclamação de seu pai e não gastou um segundo sequer amando-o como ele precisava.

Um comentário:

  1. Flávio!

    Perdemos tempo sim não enxergando quem está bem pertinho da gente: Que seja
    Cantando, resmungando, falando de política, de religião, de animais, de poluição, de fitebol, de ciúmes...
    As pessoas podem não falarem coisas que gostamos mas o importante é que falem alguma coisa!
    E não valorizamos isso!!!
    Sempre muito instigante e pertinente os teus textos. Não pare!
    Abraços
    Cenira

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Agradeço o seu comentário, é sempre bom exercitarmos a nossa melhor e mais eficiente qualidade: comunicação!
Forte abraço,
Flávio