5 de janeiro de 2009

Estamira, o lixo e a verdade




Num domingo chuvoso resolvi assistir ao documentário "Estamira" (Brasil, 2004) de Marcos Prado que nos mostra a vida de uma doente mental que passa seus dias em um lixão próximo à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. De um lado as maravilhas de uma cidade apresentada aos turistas com seus dólares no bolso e do outro uma podridão de lixos e restos humanos alimentando uma minoria desgraçada e sofredora.

Não caia na tentação do julgamento viciado em achar que a doença mental dela veio desta pobreza... não, não foi... não se iluda. Sua mãe passou por alguns tratamentos psiquiátricos, de certa forma a genética foi-lhe desfavorável. Mas isso ainda não é tudo! Sua história de vida, que no documentário é mostrada em doses homeopáticas num tempo cronológico invertido, isto é, do final ao início, vai nos colocando em dúvidas em relação ao julgamento que possamos ter feito diante das atitudes por ela tomadas. Sua fala é recheada de delírios insanos e sábios, confusos e cristalinos, atordoantes e provocadores de reflexão.

A sua frase célebre: "não existem mais inocentes, mas sim espertos ao contrário", torna-se um marco de sua personalidade, projetando sua dor, raiva e frustração diante da vida e das pessoas.

Marcos Prado, fotógrafo que encontrou Estamira em 2.000 e aceitou a missão de mostrar a vida da "louca" do lixão, usou cenas a cores com iluminação natural e outras em preto-e-branco granulado, mas ambas com uma beleza e olhar único de um fotógrafo profissional. Buscou exibir o belo que existe no lado simples da vida, sem glamour, sem retoques e sem fantasias.

Estamira mulher mostra-se verbalmente agressiva, arrogante, vulgar e até certo ponto desagradável, mas é ouvida por Marcos em todos os seus clamores. O diretor força-nos a ouvir o clamor e a revolta da catadora de lixo contra um "deus estuprador" e contras os médicos "copiadores" de receitas. Revolta-se contra os estupros sofridos, contra o marido que a traiu descaradamente, as agressões da infância e também contra a maldade humana em toda a sua amplitude.

O documentário exibe os desamparo humano social, econômico e político. São questionadas as condições dos hospitais psiquiátricos, dos tratamentos reduzidos às drogas farmacológicas - mesmo as adequadas - que têm o intuito de amenizar o breu das psicoses, mas correndo o risco de deixar de lado ouvir o outro. Estamira mulher nos faz refletir muito sobre a realidade insuportável da vida na pobreza.

A imagem final transfigura-se a imagem da mulher sofrida que lava sua alma num mar violento e vigoroso que a derruba e a faz curvar ao chão para então fazê-la sorrir. Tudo isso com a beleza dos morros cariocas aos fundos. A pobreza desgraçada, moldada pela beleza capitalista e aristocrática fluminense.

Sobre Deus, ela vocifera:

"Que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!"

Quem sou eu para dizer mais alguma coisa... Estamira é sábia em suas falas e humanas em suas agressões!

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Flávio