28 de dezembro de 2009

O novo herói azul




Para mim, Avatar (2009, EUA) empolga e ao mesmo tempo entedia. Explico: empolga por apresentar efeitos especiais bem acabados e perfeitos movimentos sincronizados e reais - não apenas por conta da tecnologia 3D. Entedia porque não inova na narrativa e apresenta uma abundância de elementos simbólicos, principalmente no que se refere ao mundo do herói, que desanimam por não desafiar/surpreender o telespectador.

Mesmo tendo a impressão que o diretor Cameron está apenas exibindo seus dotes tecnológicos e inovadores, esteticamente o filme nos enche os olhos. Inevitável comentar alguns fatos que já cansaram de ser explorados: custou cerca de R$230 milhões + R$200 mi, segundo o site Imdb, em torno da publicidade gasta pelo estúdio para forçar a ideia de que a revolução feita pelo filme equivaleria à chegada do som/cor ao cinema; levou 12 anos para conseguir terminá-lo porque a tecnologia teve que ser desenvolvida; os atores escalados não sabiam para qual filme estavam sendo testados etc.

Não deve ser fácil para um diretor atual - e para toda a equipe envolvida na produção de um filme - criar uma obra que consiga competir com o poder considerável que o DVD, o download, a TV a cabo e a internet, ocupa hoje em nossas vidas.

Humanos serem considerados ETs e o mocinho ter que conviver com o dilema, criado pela paixão, entre dois mundos é algo corriqueiro em filmes de ficção. O roteiro até tenta nos surpreender, mas fatalmente cai no senso comum na finalização de todas as suas histórias paralelas. Talvez esta seja a receita para um blockbuster, ser previsível no desenrolar dos fatos, mas sem perder a capacidade de inovar - e como sempre a tecnologia ainda nos extasia. Um caminho seguro já trilhado por tantos outros: Star wars, Matrix, Senhor dos anéis etc. Já consigo ver a quantidade de estatuetas que o filme levará na grande festa americana.

Ainda assim, acredito que a grande estrela deste filme é o marketing.

22 de dezembro de 2009

Idosos desvairados, dedicação humanitária e agulhas



Semana do Natal: shoppings abarrotados, filas, filas, filas e mais filas... tá bom, eu confesso, eu abomino multidão. Não acredito que nós, brasileiros, estamos educadamente preparados para conviver em aglomerações. As pessoas atropelam, esbarram, empurram, encostam, pressionam - e pedir desculpas que é bom, nada! Ao mesmo tempo que existe um espírito do Natal no ar - que eu mais considero como 'espírito capitalista do TUDO pode' - as pessoas também ficam perturbadas, malucas, desvairadas. O que acontece?!

Até os idosos, que geralmente eu considero sempre mais educados e comedidos, ficam desvairados. Carregam sacolas pesadas sem reclamar, furam filas sem o menor pudor - como se ser idoso eliminasse a obrigação de ser educado - estacionam com uma agilidade admirável, coisa que não acontece em outras épocas do ano! E por falar em idosos, gostaria de saber o que acontece com os idosos de hoje. Alguém saberia me dizer?! Eles estão estressados e vivem testados a paciência do resto das pessoas. Se for para me aposentar assim, prefiro continuar trabalhando e ocupando a mente. Existe algum antídoto para não nos tornarmos assim?!

Ontem assisti na TV à história de uma senhora aposentada - e muito bem de vida - que dedica boa parte de seu tempo aos moradores de uma favela no Rio. Reportagem comovente, profunda e emocionante. Este sim é um exemplo a ser seguido. Uma pessoa a serviço dos menos favorecidos. Ela poderia estar curtindo a confortável vida com seus filhos - também com alto padrão de vida - e não se preocupando com nada, mas optou por doar o seu tempo e dinheiro aos necessitados. Contou que é assim desde criança. Que sente necessidade de auxiliar o próximo. LINDO!

Logo a seguir, no mesmo programa televisivo, assisti à reportagem do padrasto que enfiou mais de 10 agulhas de costura no corpo seu enteado de 2 anos - para cumprir rituais de magia negra. Dopava o bebê com vinho e água. Recuso a continuar comentando detalhes, não é necessário!

Depois veio a reportagem de crianças que enviam cartas ao Papai Noel e algumas pessoas 'adotam' estas cartas e realizam os pedidos dos pimpolhos. Pensei de novo comigo: belo exemplo de vida! Algumas crianças pediam comida e roupa.

Eu, sinceramente, não consigo sorrir quando sei que existem pessoas chorando de fome. E nesta época, tudo isso fica mais latente porque a televisão usa estas histórias para nos comover e para ganhar Ibope, claro.

Pergunto: você comemora o Natal pelo o que vê ou pelo o que não vê?

3 de dezembro de 2009

Heroi do que?



Não é engraçado que hoje os nossos herois são os vampiros da lua, o bruxinho (com vassoura mágica) de rosto angelical, os policiais 'cientistas' vingativos e os serial killers a serviço do 'bem'?

Foi-se o tempo onde idolatrávamos o super-homem, o batman, o he-man e tantos outros herois da luz, do dia e da luta incansável pelo bem.

O que está acontecendo?!

27 de novembro de 2009

A princesa e a ervilha




Depois de uma acalorada e deliciosa discussão, na aula de Mestrado, sobre o impacto do cinema nas teias globais, eu e a Telma saímos da sala discutindo ideias, argumentos e posições pessoais sobre o tema. Depois de teorias, teoremas e autores, começamos a falar de filmes preferidos. Ela disse que adora filmes leves e comédias românticas que a façam rir desprentenciosamente, pois assim ela consegue relaxar, tirar o stress da mente e dormir leve. Eu, para atingir o mesmo objetivo, preciso assistir a um drama intenso ou um suspense bem tramado e denso, que me faz pensar e agitar os neurônios, pensar no quanto podemos aprender com os erros e acertos dos outros. São dois gostos bem distintos, mas com o mesmo objetivo - pelo menos nesta situação específica. Telma é uma pessoa alegre, batalhadora e com uma energia muito agradável - sem falar na sua admirável capacidade de rir de si mesma.

Depois de definirmos o tipo de filme pessoal e ouvirmos as listas recíprocas, ela olha para mim e diz:

- Flávio, você é da elite, você é fino, chique! - e deu risada.

Eu, na dúvida, achei engraçado o que ouvi e comecei a rir, mas confesso que fiquei sem saber se ela estava "tirando sarro" de mim ou me elogiando. Ela continuou:

- Você é a "princesinha da ervilha".

Ai sim eu gargalhei... primeiro porque não conhecia a história*, mas achei o termo engraçado, segundo porque achei interessante a analogia crítica que ela fez entre gosto X elite X princesa. Depois de pesquisar sobre o conto e descobrir que foi escrito por Hans Christian Andersen (Odense, 02/04/1805 / Copenhague, 04/08/1875) entrei em choque, pois ele é dos autores da Literatura Infantil que mais admiro. Pensei comigo: "Por mais que estudamos e lemos, nunca iremos conhecer tudo".

Pensei: que garantia temos que a arte da elite é mais valiosa que a arte do povo? O que podemos considerar como elite e como povo? Quem tem o poder de classificar tais parâmetros?

Para não entrar em discussões teóricas de estética e arte, resolvi me ater ao simples fato que foi uma deliciosa conversa.
E assim, nos despedimos e cada uma foi para sua casa. A história da princesinha ficou na minha cabeça...

Fui dormir como um príncipe, confesso.



* A princesa e a ervilha é um dos primeiros contos do dinamarquês Hans Christian Andersen, relata a história de um príncipe que desejava casar com uma princesa de verdade, mas ele estava tendo dificuldade em encontrá-la. Em certa noite de muita tempestado, bateu à porta do castelo uma moça, dizendo-se uma verdadeira princesa. Porém, devido às condições do tempo, ela estava em péssimas condições, toda molhada e com água escorrendo pelos cabelos. Para testar se a moça falava a verdade, a rainha a convidou para dormir no castelo. Antes porém, colocou uma ervilha na cama em que a moça iria dormir e, por cima, vários colchões e cobertas. No dia seguinte, ao perguntar à moça como ela tinha passado a noite, recebeu como resposta que a noite tinha sido péssima, porque alguma coisa a havia machucado. Com esta resposta, a jovem comprovou ser um verdadeira princesa, pois somente uma verdadeira princesa poderia ter a pele tão sensível, e casou com o príncipe.

10 de novembro de 2009

Moço, tem vestido rosa?


Geisy Arruda, 20, posa com vestido que provocou polêmica que a expulsou da Uniban

O que mais me comove no ser humano é a sua capacidade INFINITA de sentir o que realmente não sente - coisa que não acontece no reino animal!

Ficamos chocados com Hitler e sua psicopatia ao criar a utopia de uma raça "pura" e exercitá-la cruelmente em seu campo de concentração.
Ficamos boquiabertos com o muro que dividia as Alemanhas, um muro construído para extirpar, limitar e eliminar a liberdade do ser humano.
Ficamos estupefatos com a adolescente com cara angelical, Suzanne Von Richthofen, que assassionou os pais a pauladas enquanto dormiam.
Ficamos estarrecidos ao ver o casal Nardoni, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Trotta Jatoba, jogar pela janela a filha de 5 anos.

Até que ponto?!

Podemos ser mais crueis que Hitler, mais desumanos que o Muro de Berlim, mais brutais que Suzanne e muito mais demoníaco que Alexandre Nardoni. Quando humilhamos uma garota, Geisy Arruda, 20, por usar um microvestido rosa nos corredores de uma faculdade (diga-se de passagem uma instuição não muito bem avaliada pelas instituições fiscalizadoras do ensino do Governo Federal), estamos exercitando o nosso lado vil, mesquinho, hipócrita e doentio.

Gostamos de apontar os dedos, mas nos escondemos em nossas vis atitudes julgadoras de falsa moral.

Com esta atitudes, não estaríamos isolando, matando, reprimindo e brutalmente destruindo o que o ser humano tem de mais valioso, que é a sua liberdade de expressão?

Milhares de famosas, pré-famosas, pseudo-famosas e aspirante a famosas, saem nas capas de revistas masculinas abrindo as pernas, arrrebitando as bundas photoshopiadas, fazendo biquinhos de virgens puras e sedutoras, e todos compram as revistas e até as colocamos no banco do taxi ou no consultório médico para ajudar a passar o tempo. Elas têm dinheiro, elas são pagas para isso, então permitimos se venderem. Tem uma justificativa "capital".

Se o funk, o pagode ou o axé não ocupam espaço em minha estante - muito menos na mente - por que razão isso me levaria a destruir, condenar e ofender quem admira os gêneros mencionados?

Nas praias se usam drogas descaradamente, nas boates as pílulas azuis rodam soltas, nos escusos consultórios médicos abortos são praticados...

E a Geisy, não não não... ela não pode usar uma roupa curta, porque isso pode nos fazer lembrar que nossa mente tem o mesmo comprimento!
E não vale usar a "aparência" da moça para justificar os seus preconceitos. Se fez isso, cuidado!

E vale o dito megapopular, sempre inspirador: NOSSO DIREITO TERMINA ONDE O DO OUTRO COMEÇA.

28 de outubro de 2009

É isso ai!



Impossível existir uma pessoa que não admire o trabalho de Michael Jackson. Eu, obviamente, me encaixo nesta categoria. Não sou um obcecado fã, mas fico boquiaberto ao ver sua ginga 'moonwalker'. Impossível um corpo humano flutuar, deslizar e fluir de forma tão desafiadora! Até criamos a ilusória sensação que somos capazes de fazer isso no banheiro com a mesma forma graciosa que ele - sim, eu disse banheiro porque o 'mico' será tão grande que é melhor estarmos sozinhos e termos apenas o espelho como juiz!

Ontem assisti à première do documentário "This is it" (2009, EUA - Dir.: Kenny Ortega). Sala lotada, alguns artistas circulando e muita tensão e expectativa no ar. Eu já estava preparado para chorar, mas para minha sorte não cheguei a tanto - e isso não quer dizer que não tenha gostado, muito pelo contrário. Minha admiração por MJ sempre foi grande. Tenho CDs, DVDs, gosto dos clipes, das músicas, das batidas e do uso da tecnologia pirotécnica em seus shows. Gosto de ver a transformação estética que ele sofreu - ou melhor, que ele "encarou" - e de suas esquisitices consumistas. Sim, irei usar o verbo no tempo presente, pode parecer piegas, mas para mim ele não morreu! A sua força transcende ao aspecto físico. Ele é imortal.

O que vi diante de meus olhos foi um ser humano excessivamente tímido, exageradamente talentoso (sim, com exageros assustador!) e quantitativamente educado. Uma pessoa que cria em momentos de aura espiritual e tem dificuldade de 'explicar' suas ideias inovadoras à sua equipe técnica. Uma pessoa que ama o que faz e o faz com muito carinho para os fãs e admiradores. Uma pessoa que respeita o próximo, o planeta e a si mesmo. Um ser que, a meu ver, é perdido em sua própria solidão, assim como um deus que por ter muito poder estará sempre sozinho - para sua própria sobrevivência!

É isso ai!

21 de outubro de 2009

Velório, pele e lorotas étnicas



Um velório é sempre um momento delicado, triste e traumático para aqueles que ficam. Quando se perde alguém que você gosta é ainda mais difícil. Se bem que, pessoalmente, acredito que perder alguém que continua vivo é mais dolorido do que em morte. Velório me faz lembrar do magnífico filme japonês "A partida", mas isso são outros bugalhos.

Lá estava ele no velório de uma amiga. Ela durante toda sua vida foi vaidosa, sensível, divertida e madura. Tinha os cabelos claros, olhos azuis e pele branca como a neve. Sempre alegre e convidativa, fazia amizade com todos facilmente. Tinha uma energia sem igual.

Enquanto ele, olhando para o caixão, pensando no quanto a vida é fútil, no valor das coisas etéreas e nos momentos vividos com a amiga, aproximou-se uma senhora estilo antiquário e puxou conversa. No meio do papo, ela intimidou:

- Você a conhecia?
- Sim! Era uma pessoa que eu gostava muito.
- Você era porteiro dela?

Esta pergunta, a princípio tão desprentenciosa, camuflava um comportamento glacial e massacrante chamado preconceito. Ele, por ter a pele parda, sempre foi vítima de preconceito velado. Eu costumo chamar esta discriminação de COLORISMO (cor + nazismo), onde o tom de sua pele determina, ou no mínimo influencia, o seu status e suas conquistas - dentre elas, o respeito. Hoje temos uma protagonista negra numa novela das oito, mas que tipo de personagem ela é? Já parou para pensar? Ela destroi famílias de "brancos". É vingativa. Há uma implícita guerra étnica que nunca irá parar, seja na TV, na vida real ou no inconsciente coletivo. Negro só é bonito na passarela, nos editoriais de moda e no mundo artístico, isto é, LONGE do nosso mundo palpável e real.

No Brasil, o IBGE divide os indivíduos em negros, brancos, pardos, amarelos e indígenas. A Europa tem uma conotação diferente sobre esta classificação. Rasteiramente, poderíamos conceituar que raça é um conceito biológico, enquanto etnia é um conceito cultural. Conforme convenção do IBGE, no Brasil, negro é quem se autodeclara preto ou pardo, porque a população negra é a soma de pretos e pardos. Para fins políticos, negra é a pessoa de ancestralidade africana, desde que assim se identifique.

Segundo o silogismo do nosso órgão estatístico citado acima, a Xuxa, convencionalmente, pode se declarar negra. Em contrapartida, o Pelé pode se considerar branco.

A coisa ficou preta...

19 de outubro de 2009

Gota a decifrar



Depois de muito esforço, estudos, tentativas, erros, acertos etc, ele conseguiu passar no concurso e foi morar na capital. Colocou suas coisas numa mochila, na verdade não passavam de algumas calças e camisetas, e foi morar de favor com a irmã e a sobrinha num apartamento num bairro de classe média.

A cidade era, para ele, o grande desafio: pessoas, lugares, bares, shoppings, parques, lojas. Não entendia o comportamento desvairado dos colegas de trabalho. Cada um exercitando mais e mais a lei da selva - sobrevive o mais forte e o maior, nem sempre o melhor. Sua ingenuidade era o seu esconderijo. Lembrava da sua bucólica e pacata cidade quando se sentia sozinho. Começou a entender que havia um preço a ser pago. Deixou um relacionamento para trás, de forma que, quando estava triste costumava confundir solidão com amor. Ele nunca amou, o mais perto que chegou disso foi quando conheceu a dor de ser enganado por alguém que sentia atração física.

Sua irmã, uma frustrada e histérica mulher, criava a filha como se fosse uma miniatura de seus desejos. Depois de perder o marido para outro homem, ela nunca mais foi capaz de confiar nas pessoas. O mundo deveria pagar por fazê-la sofrer desta forma, ninguém escaparia. A cada dia transformava sua filha na sua própria imagem e semelhança: fria com os homens, analítica-depreciativa, vingativa, calculista, mercenária e com um ar desumano no olhar. Era uma mulher no corpo de uma criança de 10 anos.

Ele chegou em casa e, ao abrir a porta, sentiu um ar carregado. Esquadrinhou cada canto da sala e tentou fingir que não tinha notado nada, afinal de contas a sua estadia naquele apartamento quase sempre era invisível. Tomava banho, alimentava-se, vestia-se, mas ao sair deixava cada canto e cômodo impecáveis como os havia encontrado. Não podia deixar sequer uma pista de sua permanência. Na cabeça dele, agindo desta forma, incomodaria menos sua irmã e consequentemente sua sobrinha. Por ser do signo de libra, ele era uma pessoa que se sacrificava para não ter desentendimento com ninguém. Também pagava o preço por este medo de encarar os fatos reais. Sua escolha, seu preço.

Sua irmã o chama no quarto, ele vai assustado. Chegando lá encontra ambas ajoelhadas olhando para o chão e com olhar inquisidor, perguntam a ele:

- Que gota é esta aqui no chão?
- Não sei, acho que é o creme que passei hoje pela manhã.
- Nossa, nós ficamos a tarde inteira tentando advinhar o que seria isso...

Ele quis morrer. Se pudesse escolher, este seria o momento. Pensou:

"Tenho uma irmã e uma sobrinha que passaram a tarde tentando decifrar uma gota no chão... e fogem de decifrar suas dores, suas mentes, seus rancores e seus dissabores".

Foi dormir, precisava ir para algum lugar só dele.

Os olhos dos meus olhos



No interior de Goiás, algumas pessoas têm a mania de se referir ao sexo como "fazer bobagem". A priori é engraçado ouvir tal expressão, mas se tirarmos nossos olhos da casca e adentrarmos no subconsciente da palavra, poderemos ver com os olhos de nossos olhos. A culpa, geralmente 'ensinada' na infância, está atrelada ao conceito de que sexo é ruim, é pecado. Quase sempre passamos uma vida toda tentando reverter esta visão. Repetimos certos conceitos, quase sempre automaticamente, e não percebemos que isso só nos cega e nos faz enxergar apenas o óbvio. E assim nos tornamos um mundo superficial, de pessoas óbvias, estagnadas e estancadas no comportamento repetitivo e, geralmente, sem identidade.

De todos os nossos sentidos (e aqui não irei discutir se são 5 ou 6, como a maioria insiste) o que mais aperfeiçoamos - diria que por mero comodismo - é a visão. Esta poderosa ferramenta pode construir ou destruir o nosso mundo interno. Os chamados 'espelhos da alma' podem nos levar à escuridão absoluta ou ao paraíso extasiante.

Hoje, ao vir para o trabalho, ouvi uma senhora chorando ao telefone aos berros com sua filha. Depois de alguns minutos tagarelando, ela sabiamente falou em tom de prece: " - Filha, eu não sou chorona, eu sou sentimental... Tenho mais motivos para rir do que para chorar!" Eu achei sensacional esta pérola dita por ela, principalmente naquele momento delicado - ela tinha se machucado ao cair de uma escada. Pensei comigo: Que linda maneira de ver a vida e os acontecimentos! Que olhos apurados e dignos de admiração. Inevitável não pensar no adágio bíblico: "o pior cego é aquele que vê e finge que não vê". E o engraçado é que ela caiu, segundo o que ouvi parcialmente da conversa, por não ter visto o degrau. Drummond transformou a pedra que viu em seu caminho em poema.

Há muitas pessoas que enxergam perfeitamente, mas nada vêem. Para ver uma árvore nem sempre é preciso abrir a janela. Nestes dias de chuva e frio, inúmeras pessoas gastam horas reclamando do mau tempo. Quando faz sol, idem. Nossos olhos podem e DEVEM ser REeducados diariamente. É mais cômodo ver o lado feio de toda situação e de toda pessoa. Ver o belo quase sempre exige um certo esforço e inteligência. Um lindo bordado, se virado ao avesso, não passa de um desengonçado emaranhado de linhas. Você escolhe como quer ver a situação e tem que ter total consciência de que o seu PONTO de vista é sempre, no mínimo, bilateral. E ainda que fosse unilateral, seria apenas o SEU...!

13 de outubro de 2009

Divã





Uma quarentona, Mercedes, descobre que seu marido tem uma amante (ou supõe que tem!) e entra em crise existencial. Esta crise desencadeia diversos comportamentos e situações na vida da protagonista, que na busca do autoconhecimento no divã, embrenha por hilários monólogos e situações dramaticamente divertidas. Questiona sua vida profissional, marital, familiar e sexual. Este questionamento proporciona momentos únicos.

O diretor, José Alvarenga Jr (BRA, 2009),  provou que mesmo com clichês é possível fazer um longa engraçado e bem-humorado, que nos faz rir e chorar simultaneamente. Fatos comuns, corriqueiros e do nosso dia-a-dia são facilmente transformados em questionamentos maduros, profundos e delicados. O filme, bem montado com suas sequências alternadas cômicas, consegue nos fazer rir de tanto chorar e chorar de tanto rir. Frases de efeito e diálogos inteligentes fazem desta comédia um destaque na categoria. Cena imperdível: Mercedes vai com a melhor amiga numa boate.

Ponto para a excelente atuação de Lilian Cabral e um quase aplauso pelo aperfeiçoamento profissional do então aspirante a ator Reynaldo Gianecchini na sua considerável atuação. Ponto para o cinema nacional, dá para sentir orgulho de ser brasileiro nestas horas.

2 de outubro de 2009

Você tem cheiro de que?




O cheiro natural de uma pessoa certamente não é um cheiro essencialmente agradável – para isso criamos os perfumes. O hálito natural também não é confortável – para isso existem os inúmeros cremes dentais, enxaguantes bucais, balas etc. As excreções então, nem merecem comentários. O ser humano é um ser que fede, que exala mau cheiro e tem péssimos hábitos alimentares. Aqui nem discuto apenas as questões de higiene pessoal.

A filosofia indiana diz que podemos analisar os chakras* de uma pessoa pela situação (cor, aparência, odor etc) que ela deixa o prato após a refeição. Quanto mais sujo ficar o prato, mais ‘impura’ é a alimentação e consequentemente mais sujos são os seus canais energéticos. De forma que, esta filosofia favorece a ingestão de legumes, verduras, frutas e hortaliças em geral – sempre tão coloridas, mas ao mesmo tempo tão ‘limpas’.

Menos de 5 minutos de caminhada, pude sentir diferentes odores. Alguns me incomodaram muito, outros consegui abstrair. Andei e fui sentindo pelo caminho: um fumante que mais parecia uma maria-fumaça (cigarro me sufoca e me dá dor de cabeça!); uma pessoa suada e insuportavelmente fedida passando; a marginal com seus fedores de esgoto típicos; uma mulher e seu perfume ‘vencido’; uma barraquinha de churrasquinho de gato (desculpem-me os onívoros, mas carne para mim tem um cheiro horrível!); pastel frito (eu amo pastel, mas convenhamos, o cheiro de óleo aquecido e tetra-utilizado é nojento!)... e podem até duvidar, mas até cheiro de cachorro molhado eu senti – mesmo sem ver nenhum.

E se você pensar: onde ele estava andando? Eu te digo, Vila Olímpia, uma região recheada de empresas e escritórios de luxo, bares e restaurantes chiques. Tudo bem que eu estava indo para a Universidade, depois de um dia todo de trabalho (imagino que a maioria das pessoas também tenha trabalhado), mas tenho absoluta e total garantia que eu estava ‘cheirosinho’. Sem trocadilhos!

Ah, nada como o meu Egoiste Platinum da Chanel.



* Chakras são, segundo a filosofia Yôga, canais dentro do corpo humano (nadis) por onde circula a energia vital (prana) que nutre órgãos e sistemas. Existem várias rotas diferentes e independentes por onde circula esta energia. Os chakras são os pontos onde essas rotas energéticas estão mais próximos da superfície do corpo.

28 de setembro de 2009

Onde os fracos não têm vez



O cinema surgiu como uma expressão marginalizada, levaram-se décadas para considerá-lo como 'arte' - a sétima arte. Hoje é inegável o seu poder na indústria de entretenimento. Um filme ao ser lançado movimenta milhões de dólares e milhares de pessoas na sua pré e pós-produção. Não foram os primeiros nem tampouco os únicos, mas os irmãos Lumiére ficaram famosos por lançarem-se como os responsáveis pelo surgimento do cinema no ano de 1895. A fama, junto com um eficiente marketing, lhes deram este mérito. Foram inteligentes e canalizaram o trabalho de outros profissionais. Não questiono o talento de ambos, isso nem ouso discutir. Foi a dupla que contribui substancialmente para a história do audiovisual.

Já no nosso século dois irmãos, Coen, fizeram uma obra cinematográfica espetacularmente perturbadora: Onde os fracos não têm vez (No country for old men, 2007 EUA) - vencedor de 4 Oscars. Um caçador encontra uma valise com muito dinheiro, resolve pegá-la. Um matador é contratado para resgatá-la, um xerife à procura do matador e várias histórias entrelaçadas e moldadas pelo comportamento de um vilão impiedoso, ardiloso e inteligente. Obviamente os irmãos Ethan e Joel Coen contam atualmente com uma tecnologia de ponta, ótimos atores, excelentes roteiristas e ótimas técnicas cinematográficas, capazes de gerar uma obra-prima digna de cada aritmia, suor e angústia que nos provocam. Assistir às cenas de maior tensão equivale a ficar à beira de um precipício, ter a certeza que vai cair, mas sem saber a hora exata. Temos a forte tendência em explicar os erros comparando-os aos acertos, nossas dores com nossas alegrias, nosso sofrimento com nosso gozo... E se eu dissesse: Esqueça todos estes paradigmas socráticos e dispa-se de toda e qualquer tentativa de entender, compreender e viver o seu mundo. Exercite seu lado desumano - no sentido de não sentir emoções relativas aos humanos. Tenha coragem de sentir raiva, medo, dor e angústia. Permita-se ter prazer ao vingar-se. Esqueça de valores morais que foram cravados em seu cérebro. Agrida se tem vontade, surpreenda, não dê ao outro chance para argumentação. Passe, se preciso for literalmente, por cima do que for para atingir seus objetivos. Vise vencer, lucrar e o dominar todos. Seja impiedoso, cruel, frio e maquiavélico, mas não grite, não seja rude nem mal educado. Mantenha calma, equilíbrio e harmonia, mesmo que este caos mental represente o sofrimento horripilante do outro.

Não espere ter prazer catártico no final, nem tampouco um desfecho confortável oferecido na maioria dos filmes do gênero drama. Ao falar isso, posso estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, mas a graça está justamente em COMO se chega até o final, não o final em si.

Permita-se surpreender, mas depois não diga que não avisei!

Na natureza selvagem



Um jovem de 22 anos recém-formado, Christopher McCandless, decide abandonar a vida de conforto para ir em busca de seu sonho: buscar a liberdade pelos caminhos do mundo até o Alasca selvagem. Para isso, doa suas economias, abandona seu carro e sai apenas com uma mochila nas costas, sem avisar os pais de sua decisão. Assim é "Na natureza selvagem" (Into the wild, EUA 2007), baseado em fatos. Este drama é recheado de conceitos metafísicos, construídos sobre as teorias de grandes escritores (Tolstoi / Thoreau) lidos e cultuados pelo protagonista ao mesmo tempo que servem de base para os questionamentos levantados pelo narrador - voz off da irmã de McCandless. Seguindo seus instintos ele viaja de carona com estranhos, nas boleias de caminhões, de canoa, a pé, arranja empregos temporários... Tudo na medida do necessário para sua sobrevivência. Não se fixa nem estabelece relacões afetivas. Quando isso começa acontecer, trata de partir sem avisar, como se estivesse fugindo da possibilidade de sofrer. Busca a sua própria felicidade, ao mesmo tempo que exercita o desapego total do mundo material, da mentira, da mesquinharia e das relações capengas.

Uma direção magistral feita com muitas cenas com a câmera nas mãos e imagens trêmulas - simulando imagens documentais. Mérito de Sean Penn que escreveu e dirigiu o longa. O enredo vai intercalando a viagem de Christopher com rápidos flashbacks de seu passado - sempre narrados em off pela irmã. Penn não dá uma aura mística nem esotérica ao personagem, mas sim procura mostrá-lo como uma pessoa de fácil convívio, espontânea e que, mesmo cultivando certa tristeza interior, é capaz de seguir em frente com seus objetivos. A dedicação e a entrega do ator, Emile Hirsch, às vivências do protagonista é um feito surpreendente. Percebe-se nitidamente a coragem, o profissionalismo e o prazer do ator no exercício de sua profissão, levando-nos a crer que a ficção é o real. A trilha sonora fica a cargo de Eddie Vedder (vocalista do Pearl Jam) em seu primeiro álbum solo, o que o levou a obter vários prêmios - melhor canção e melhor banda sonora. A fotografia é um deleite que busca equilibrar o selvagem com o frágil; o doce com o amargo; o simples com o perigoso. Um festival de cores, nuances, brilho e ritmo, como raramente vemos nas telas.

Fica no final, para mim, a grande pergunta: o NOSSO selvagem está fora ou dentro de nós?

22 de setembro de 2009

Putas tristes



Um querido amigo me presenteou com uma obra espetacular, ganhadora de Prêmio Nobel de Literatura e que aqui no Brasil foi traduzida por Eric Nepomuceno e publicada pela Editora Record, chamada MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES do Gabriel Garcia Márquez. O que me faz admirar um bom autor, dentre tantas outras características, é capacidade que ele tem de nos prender a atenção e nos 'forçar' a CON(viver) as suas dores, amores, sabores e calores. Numa sentada só peguei o livro e me delicei sem limites, pois a leitura é divertida, agradável e muito interessante. Ver o mundo com os olhos de um homem de 90 anos, de forma tão direta e profunda, não é algo tão comum de acontecer. Falar do óbvio, mas de forma magnífica! Questionar um amor profundo, insano... mas qual amor é equilibrado?!

Segue um 'teaser' para quem ainda não leu:

... "Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a mina mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco. "


Preciso comentar algo?

21 de setembro de 2009

A partida




Tratar de um tema polêmico de forma respeitosa e flexível é um dos grandes feitos do filme "A partida" (Okuribito, 2008 Japão) ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2009. Algumas fórmulas e formas audiovisuais já estão exauridas no cinema, mas quando são estruturadas por uma fluente química entre os atores, o tempero muda e o sabor final das cenas é de lamber os lábios. A música tirada do violoncelo é maestrosamente encorporada aos dramas vividos por cada personagem. O silêncio em seus gestos, nos olhares esguios, nos sorrisos contidos e em suas pudicas expressões de afetos dão um toque oriental bem peculiar às cores, à belíssima paisagem e à fotografia que enche os olhos e a alma.

Se eu fosse descrever o filme em uma única frase, certamente não inspiraria ninguém a vê-lo: "Um violoncelista retorna à sua cidade natal, onde passa a trabalhar como agente funerário." A forma como o ritual de aconcionamento do corpo, parte da tradição japonesa, é tratado, nos deixa estupefatos diante do inefável respeito que os entes queridos são tratados. O ritual da passagem é ao mesmo tempo um preparatório para que os que ficam possam cultuar a sensação de que realmente se despediram.

A clássica forma narrativa japonesa é recheada de factíveis surpresas e desfechos únicos, tais como as que o protagonista Daigo é capaz de nos apresentar, fazendo-nos sorrir e chorar com uma desenvoltura sem igual. O perfeito domínio dos músculos faciais - tanto nas suas atrapalhadas quanto nas suas dores - dão a este ator um poder shakespeariano sobre o telespectador. Diante de tantas cenas lúgubres, a narrativa é dirigida com deliciosas cenas cômicas que juntas à trilha sonora sem igual, dão um equilíbrio doce e majestosamente aceitável.

16 de setembro de 2009

Matemática do diabo



Nas andanças atrás de satisfazer um vício pessoal incorrigível - filmes - achei um que parecia ser insosso e totalmente 'mamão com açúcar' chamado "Matemática do diabo'. Ao ler o título pensei que se tratava de um elaborado e inteligente filme de terror moderno, mas lendo os créditos percebi que era produzido por Dustin Hoffman - não tem como ignorar esmero talento, pensei. Enganei-me duplamente ao pensar que poderia ser um filme de terror e ao imaginá-lo insosso.

A temática 'nazismo' é uma das mais exaustivamente abordadas no cinema, de forma que é quase sempre cansativo quando o enredo mostra a massacrante suástica. Neste segmento, algumas películas cumprem um papel histórico interessante - quase todas dizem ser baseadas em fatos reais - mas a maioria usa da imaginação livre para REcriar aquele tempo de dor, sofrimento e desvario humano.

Em "Matemática do diabo" (The devil's arithmetic, EUA 1999), Hannah (Dunst) é transportada magicamente para o mundo dos judeus que são levados a um campo de extermínio nazista. Ela testemunha os horrores sofridos por muitos judeus daquela triste época e entende a dor que seu povo teve que suportar no passado. Começa a valorizar a sua vida atual - até então totalmente desinteressada pela cultura e costumes de seu povo. Ela participava dos rituais familiares com desânimo e não se interessava por nada a respeito da história de seus pais e de seu povo. Excelente interpretação dramática das iniciantes Kirsten Dunst e Brittany Murphy, cenas emocionantes e extremamente bem filmadas, sem parecerem forçadas. Um final digno de admiração, como todo filme americano sobre os horrores da guerra. A obra é uma adaptação do romance homônio de Jane Yolen, e foi produzido por Dustin Hoffman e pela atriz Mimi Rogers.

Vale a pena, inquestionavelmente!


8 de setembro de 2009

Escopofilia desvairada



Por mais que eu ame e seja aficcionado em tecnologias, ainda me espanto com a rapidez invasiva que o mundo tecnológico apodera-se de nosso cotidiano outrora pueril. Antes era só deixar o fone fora do gancho que não éramos mais encontrados, caso quiséssemos dormir, fugir do mundo e/ou mergulhar em nossos tormentos psicológicos. Hoje temos câmera em todos os lugares, até nos mais imprevisíveis que a nossa vã imaginação consegue alcançar.

Além do telefone fixo e do endereço geográfico, atualmente temos celular, e-mail, orkut, blog, twitter, site, msn, SMS, GPS etc. É um desejo desvairado por ser visto, encontrado, numa frenética vontade de estar sempre conectado a tudo e a todos - uma necessidade 'doentia' por novidades. Desculpe-me Christian Metz*, mas a pulsão escopofílica não se limita apenas ao cinema, nem somente à câmera ou ao ego do espectador como sujeito transcendental, acredito que esta necessidade reality show, quase sempre mórbida, já está fazendo parte do nosso dia-a-dia.

Existe uma nova categoria nos meandros da comunicação permeada pelos recursos tecnológicos atuais: a internet. Sim, esta senhora de menos de 4 décadas de seu surgimento inicial, toma boa parte de nosso precioso tempo. Sem ela, quase nada fazemos hoje em dia. Quando não acessamos nossos e-mails pessoais (no plural, nota-se), temos a sensação equivalente a ver o carteiro indo embora com uma correspondência urgente que não nos foi entregue.

Se alguém conhece alguma pessoa que não acessa nenhuma destas tecnologias mencionadas acima, POR FAVOR, me avisa, pois esta pessoa deve ser descendente direta do Dalai Lama e está aqui neste planeta apenas para ajudar-nos - pobres e viciados mortais - a evoluir. Preciso praticar o desapego e ir ao encontro da luz.


* Christian Metz - The Imaginary Signifier: Psychoanalysis in France, 1925-1985.

4 de setembro de 2009

SMS



Tenho observado um fato muito curioso: as pessoas estão cada dia mais dependentes de aparelhos eletrônicos. Um deles, talvez o mais cultuado hoje em dia, é o telefone móvel - mais conhecido como celular. Do pedreiro ao executivo, todos possuem celular. É muito comum possuir hoje em dia mais que um aparelho e/ou chip. Os limites na comunicação foram derrubados. Até mesmo uma conhecida operadora de telefonia usa o slogan "sem fronteiras". Uma empresa de pesquisa de mercado, chamada Synovate, levantou dados assustadores sobre o consumo atual de celulares. A quantidade de pessoas que possuem mais de um aparelho celular é maior do que aqueles que não possuem nenhum. Minha mãe, por exemplo, tem mais de 75 anos e quis um celular, mal saber usar 10% das funcionalidades do aparelho, mas tem e usa.


O mais interessante é que a briga agora é pela novidade, pela tecnologia. Por enquanto o Iphone ainda lidera. E olha que nestes quesitos eu o considero imbatível. Uso o aparelho para inúmeras atividades diárias, talvez a menos usual seja 'falar'. Podemos fotografar, filmar, escrever/ler e-mails, acessar à internet, desenhar, ouvir música, baixar conteúdos, jogar etc. A nossa forma de comunicar mudou profundamente. Trocamos mais mensagens de texto - os chamados SMS - do que conversamos pessoalmente com as pessoas. É uma nova conexão com nossas vidas e quase sempre supera nossa comunicação olho-no-olho.

As pessoas não ficam sem celular em nenhum momento! Esperando elevador, presas no trânsito, estáticas nas filas, andando pelas ruas, usando o banheiro etc, sempre começam freneticamente a mexer no aparelho, é uma fixação incontrolável que se apoderou da coletividade. É uma desesperada necessidade de atenção e uma crescendo tendência ao egoismo. O mais divertido é participar da vida e das decisões pessoais de pessoas estranhas. Outro dia, no elevador da Universidade, uma moça discutia aos prantos com o namorado por ele não entender as dificuldades dela no relacionamento. Quando tiver que descer no meu andar, ela continuou, fiquei torcendo para que ela voltasse para ele. Quase continuei só para ver o desfecho final da história, mas estava atrasado (risos).

No metrô de Londres, há um ano atrás, fiquei perplexo ao perceber que o vagão inteiro estava lendo alguma coisa: livro, jornais, gibis etc, e ninguém falava ao celular. Ninguém falava alto nem tampouco portava algum telefone móvel visível. Certamente possuíam, mas tive a impressão que não cultuavam tanto o aparelho. A cultura ocupava um lugar de destaque.

31 de agosto de 2009

Puma inova



Qual o limite da criatividade humana? Qual a diferença entre ser criativo e repaginar? Uma coisa é certa, sempre desenvolvemos eficientes soluções nos momentos mais críticos, seja na vida pessoal, profissional ou afetiva.

Fiquei admirado diante da solução criativa e moderna, encontrada pela Puma, em fazer seu marketing e sua propaganda de maneira um tanto quanto 'itinerante'. Os tênis ficam expostos em prateleiras dentro de uma de uma van com as laterais em acrílico transparente, de forma que todas as pessoas conseguem visualizar o produto de forma milimetricamente arrumada e esteticamente chamativa. Tudo com o design característico da Puma e com uma excelente combinação de cores. Ótima solução para a probição atual nas propagandas e outdoors externos às lojas. As pessoas olhavam, entreolhavam, olhavam novamente... Ninguém conseguia ficar imune à novidade.

Consegui tirar uma fotografia (celular com câmera nesta hora faz milagre), mas o efeito ao vivo é inquestionavelmente inovador, único. Aplausos!

26 de agosto de 2009

Twittando




Um parâmetro atual que nos faz sentir 'velhos' e/ou 'ultrapassados' é a tecnologia. Ela tornou-se uma mediadora de nossa capacidade cognitiva diante do turbilhão de novidades que nos é despejado diariamente. A mais nova onda é o Twitter. Não é fácil defini-lo, mas é delicioso usá-lo. É uma mistura de orkut com agenda com diário, mas com um diferencial altamente positivo: cada post não pode ultrapassar 140 caracteres. Excelente ideia! Assim não entupimos o cyber espaço com tanta lorota e podemos, por exemplo, postar: "Dia de sol alegre e brilhante, vou bater perna, tomar suco e curtir o doce far niente". Vale postar tudo, desde que seja algo seu, e claro, bom senso cabe em qualquer lugar!


A função principal do site é permitir seguir uma pessoa que você gosta. Alguns artistas usam para se promover, vender, exibir etc. Cada um utiliza o Twitter com o seu toque pessoal. Pode-se até personalizar o layout da página, mas no geral é tudo muito padronizado. Cabe pessoa tem o seu endereço no site, geralmente começa pelo arroba @ e seguido pelo nome, é quase uma norma.


Outro dia dei altas risadas ao saber que a @ivetesangalo ficou frustrada ao saber que o perfil que ela seguia da Fernanda Young era falso. Fiquei pensando no quanto este mundo é maluco. Uma pessoa é capaz de criar um alterego falso, gastar um tempo escrevendo e criando um perfil para poder se passar por outra para pode atrair outras pessoas...


Os perfis que mais divirto seguindo são: @santoEvandro e @ivetesangalo, pois são recheados de bom humor, palavras otimistas e cumprem o papel 'social' que exercem na mídia. Tenho até @Hebe_Camargo, mas vai saber se é verdadeiro... @xuxameneghel ontem xingou os fãs porque alguns criticaram a Sasha que cometeu um erro gramatical ao escrever a palavra 'cena' com S, deu maior barraco... @marcelotas sei que é verdadeiro e admiro o trabalho do cara, este é intrínseco às novas mídias... @lulusuperpop é de dar inveja, hoje está em Paris e fica postando fotos tiradas na hora... pode isso? E por ai vai.


Você não entendeu nada do que eu disse? Chiiiii... Sinto muito, você está bem fora da realidade, melhor se atualizar ou vão te chamar de 'velho'!


Ah! e para quem quer me add, eu sou @flavio2207, vamos que vamos!

19 de agosto de 2009

Sugar Blues




Alguns me conhecem e sabem que sou vegetariano a mais de 10 anos, outros nem fazem ideia - na verdade eu procuro não divulgar isso quase nunca, não gosto de atrapalhar o estilo de vida das pessoas, cada um tem o seu tempo e o seu processo evolutivo e tem direito de escolher levar a vida que quiser, sendo ou não onívoro.


Depois de aprender a ficar anos e anos sem me alimentar de nenhum tipo de animal 'morto' (desculpem-me pela ironia!), quero sempre aperfeiçoar meus hábitos alimentares... e num destes papos descontraídos entre amigos, chegou até mim o livro SUGAR BLUES (Editora Ground, 1975) escrito por William Dufty. Ele compara o açúcar à heróina, pois ambos passam pelo mesmo processo de refinamento químico para se chegar à cor e aparência tão 'pura'! Seu livro faz denúncias gravíssimas e agora entendo o porquê de seu livro deixar de ser publicado desde 1975.


Como o ópio, a morfina e a heroína, o açúcar é uma droga destrutiva, formadora de hábito entre a população mundial e está mais arraigada em nossos hábitos alimentares do que imaginamos. Quase nada do que a indústria produz está livre de sacarose hoje em dia. Até no pão tem açúcar! E nunca tivemos uma população mundial tão doente de diabetes, coração, pele, fígado...

O açúcar comercial nada mais é do que um concentrado de ácido cristalizado.


Não é fácil! Eu adoro doces, vez ou outra tenho rompantes e ataco um chocolate, um bombom, um bolo... nao sou totalmente dependente, mas sou um consumidor 'abduzido'. Chá eu já tomo sem açúcar, refrigerante eu abomino, agora falta o cafezinho (que raramente tomo) e o suco... e por ai vou começar outra reeducação alimentar, equivalente à que comecei 10 anos atrás quando me alimentava de carnes.


Termino com um trecho interessante tirado do livro:


Em 1897 Freud escreveu: "... está claro para mim que a masturbação é o maior dos hábitos, 'vício primal', e que é apenas em forma de substituição e reposição que os outros vícios - álcool, morfina, tabaco etc - vêm a existir". Ele não menciona cocaína e açúcar; era viciado em ambos.

Para quem quiser a versão digital em PDF, já que o livro só pode ser comprado em sebos, é fácil encontrá-lo pela internet.
Já vou logo adiantando, depois de ler este livro você não conseguirá colocar uma colher de açúcar na boca sem ficar 'preocupado'!
Boa leitura e ótima reeducação alimentar!

13 de agosto de 2009

Você é IN ou OUT?



Numa brincadeira descontraída sempre acontecem frases e motes engraçados. Duas amigas conversavam e uma delas argumentava sobre uma modesta 'reforminha' que iria fazer: instalar o seu Home Theater. Calma... Não pense que ela comprou o aparelho e estava diante da caixa para começar a odisseia! Nada disso! Ela, chique, contratou uma decoradora para desenhar, estudar e instalar o aparelhinho desejado. Assim que a profissional entrou na casa e começou seus estudos arquitetônicos decorativos, olhou para uma parede em textura azul e vociferou:

- Nãooooo, tire isso o mais breve possível. Parede texturizada está OUT, querida!!!! Eu me recuso a instalar o Home aqui... OUT!

Pronto, está instalada a brincadeira do IN e do OUT. Agora para qualquer coisa que um gosta e outro não gosta, se tornou OUT ou IN, dependendo da situação!

Depois de muitas gargalhadas e macaquices da turminha ditadora de tendências do mundo moderno fashion e contemporâneo, resolvi criar uma lista - com a ajuda deles, deixo bem claro! - do que HOJE está DENTRO e do que está FORA de uso/moda. Confesso que foi divertido, apesar de no início a lista do OUT disparar na frente do IN. Isso só prova que nós, seres considerados humanos, temos mais facilidade em apontar os 'erros' do que identificar os 'acertos'. Interessante... Pensei.


IN:
  • Transporte público
  • Almoço em família
  • Ter um amigo vegetariano
  • Reciclar e reutilizar
  • Simplicidade
  • Trabalhos voluntários
  • Religiosidade
  • Mente aberta
  • Passear no parque
  • Tomar banho de balde (bebês)
  • Unha francesinha
  • Produtos orgânicos
  • Contratar uma decoradora
  • Rir
  • Açúcar mascavo
  • Amar
  • Sonhar
  • Entender a pessoa como ela é
  • Tomar chá branco
  • Iphone
  • Notebook
  • Água
  • Personal Trainning
  • Alimentação saudável
  • Subir escadas
  • Celular no vibra-call
  • Twitter


OUT:

  • Pirataria
  • Parede texturizada
  • Vidro jateado
  • Blusa de oncinha decotada
  • Repetir frases feitas
  • Acreditar que existem príncipes encantados
  • Falar ao celular enquanto dirige
  • Fumar
  • Beber e dirigir
  • Andar de carro para todo lugar
  • Toque de celular esdrúxulo
  • Consumismo em shopping
  • Tomar coca-cola
  • Visual carregado
  • Ser negativo
  • Fanatismo religioso
  • Radicalismo
  • Fritura
  • Fila
  • Ser ranzinza
  • Pintar unha do pé
  • Conta bancária negativa
  • Açúcar refinado
  • Desktop
  • Academia lotada
  • Falar ao celular no elevador
  • Orkut

E você, tem alguma coisa IN ou OUT que quer compartilhar com a nossa lista? Mande para mim flavicsil@gmail.com
Ah, quase esqueci... Usar termos em inglês (IN / OUT) está OUT... !

6 de agosto de 2009

Um beijo roubado



Um dono de um café restaurante, agitado, dinâmico e bonito, conhece as pessoas pelo tipo de comida que elas pedem e não pelo seus nomes. Uma mulher sensível, bonita, intensa, mas que sofre por ter sido trocada por outra mulher. Ela vai até o café na intenção de encontrar o seu ex-namorado. Ela e o dono do café têm algo em comum. O que seria?!


Assim é UM BEIJO ROUBADO (My Blueberry Nights, Hong Kong / China / França, 2007) do diretor Wong Kar-Wai. Atores de peso, tais como Rachel Weisz, Jude Law, Natalie Portman e Norah Jones (famosa cantora americana, ganhadora de inúmeros prêmios musicais). Feito de cores, nuances, movimentos e brilhos humanos. Pequenos gestos e grandes atitudes dão o toque masjestoso e poético nas cenas slow motion que representam grande parte da película. O enredo em si não traz grandes novidades nem inovações, mas é justamente isso que faz deste filme uma obra admirável. Sem presunção o filme é capaz de nos atingir em cheio, com sua simplicidade mesclada à magnífica intrepretação dos atores. Um filme singelo, doce, profundo e equilibrado. Fala de pessoas e suas buscas, seus traumas, dores e amores, sem tanta confusão, nem violência, nem situações exageradamente incomuns. Tudo é feito de forma real e humana, bem próxima do dia-a-dia de uma pessoa comum - ainda que, como já disse o poeta: "de perto ninguém é normal". Afinal de contas, a normalidade é uma conceito ultra relativo. Tudo depende do ângulo analisado e de quem analisou.

4 de agosto de 2009

Infância Roubada



Todos nós, seres humanos adultos, já tivemos uma infância. Uma época mágica de sonhos, imaginação, fantasias e despreocupação com as inevitáveis responsabilidade da vida adulta. Sim, este tempo é inquestionavelmente o melhor de nossas vidas. Salvo algumas exceções. Nem quero entrar no mérito das agressões contra crianças.

Imagine um bebê, com alguns meses de vida, no banco traseiro de um carro dirigido por sua mãe que é baleada ao abrir o portão da garagem para entrar em casa. O ladrão rouba o carro e foge sem perceber a presença do bebê, e só percebe ao ouvi-lo chorar, provavelmente de fome, depois de muitos quilômetros adiante. O mais interesse é ver a ignorância do ladrão aos necessários cuidados infantis, uma vez que ele próprio fugiu de casa quando era criança por ter visto e sofrido agressão por parte do pai que o impedia de tocar a mãe moribunda na cama. Cresceu e viveu nas ruas, sob a lei dos sem-tetos e dos sem-medo. Aprendeu a sobreviver e tornou-se um líder de gangue que rouba, mata e assalta para sobreviver. Neste dilema, entre cuidar do bebê sequestrado ao acaso e continuar vivendo sua vida de bandido é que se desenvolve o interessantíssimo enredo do filme Infância roubaba (Tsotsi*, África do Sul / Inglaterra, 2005) ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de 2006. Acaba convencendo uma moradora da favela, Miriam, para amamentar o seu 'filho'. Deste conviívio forçado surgem cenas de muita tensão e potencialmente ricas em semânticas sócio-políticas.

Este belíssimo filme, com uma fotografia digna de admiração e ótimas tomadas externas - já que usa pouquíssimos recursos de estúdio - nos faz pensar no dilema entre ser bom e ser mal, e o que nos leva a ser cada um destes extremos. Articula que somos uma consequência daquilo que passamos em nossa infância. O título traduzido foi muito bem utilizado, pois traz uma ambiguidade da infância ao determiná-la como 'roubada'. Tanto o bebê foi roubado como a infância do protagonista foi roubada, dentro do enredo apresentado.

Dispa-se de todos os conceitos audiovisuais pré-estabelecidos e mergulhe-se numa obra digna de admiração!


* Na gíria urbana de Johannesburg a palavra "tsotsi" significa assassino.

1 de agosto de 2009

Antes que termine o dia



Sabe aqueles dias que você está afim de ficar largado no sofá assistindo a um filminho 'mamão com açúcar' que não te faça pensar muito nem tampouco tirar o seu conforto mental? Pois é... foi justamente neste momento que cai na armadilha ao pegar na minha pilha de DVDs uma comédia romântica, a princípio sem compromisso, chamada Antes que termine o dia (If only, EUA/Inglaterra, 2004). De edredon a postos, sofá, travesseiro, frio e chuva - ultimamente só tem feito este clima em São Paulo - e uma vontade tremenda de ficar hibernando, lá fui eu.


Doce ilusão alimentei por alguns instantes. O filme eu considero uma obra-prima por diversos motivos. Um deles é que eu pude ver Londres e vários lugares por onde tive a oportunidade de conhecer. A sensação de ter visto pessoalmente um lugar que vemos na TV é sempre prazerosa. Outro foi que desandei a chorar em determinadas cenas e não parava mais - acho que cada filme nos fala intimamente em determinada fase de nossas vidas.

O enredo parece banal e corriqueiro: uma moça americana que namora um inglês, ambos bonitos e profissionalmente bem estabelecidos, têm seus dilemas na vida amorosa. Ela o ama acima de qualquer coisa, mas ele vive para o trabalho e nem sequer lembra de datas importantes na vida de sua namorada. Após terminarem o namoro, um acidente muda completamente a vida de ambos. Este acidente muda muito coisa, mas algumas nem sempre podem ser alteradas.
Não quero falar muito para não estragar a surpresa de quem assistirá ao filme, mas já adianto que as cenas são emocionantes, surpreendentes e deliciosas de serem vistas. Uma curiosidade interessante: o personagem Ian (inglês) é o que mais chora no filme, atitude esta que hoje é mais delegada para a figura feminina.
Terminei de assistir ao filme, depois de me esbaldar em lágrimas, com a deliciosa sensação de que podemos sim nos pequenos gestos diários, fazer com que nossa vida tome sentido, principalmente para com a pessoa que amamos - ou pensamos que não amamos. Vale cada minuto e cada segundo assistido... recomendo para aqueles que têm dificuldade em perceber o que realmente a vida tem de bom.

31 de julho de 2009

O pardalzinho magnífico

Hoje em dia temos grandes atrizes. Algumas são ótimas anfitriãs, excelentes representantes da categoria beldade, outras são exemplares a serem seguidos nos programas sociais de ajuda aos menos favorecidos - dá-lhe Angelina Jolie - e algumas únicas no segmento quadril inquieto - dá-lhe Beyoncé... sim o mundo das estrelas é vasto e satisfaz o gosto de todo telespectador!

Piaf - Um hino ao amor (La Môme, Inglaterra/França/República Tcheca, 2007) é um filme que retrata com muita dignidade a vida da cantora francesa mais famosa de todos os tempos, que de menina abandonada pela mãe passa a ser a maior intérprete de todos os tempos. Ao mesmo tempo que foi intensa e frágil, foi capaz de fazer qualquer sacríficio em nome da arte, em nome do prazer de subir ao palco e fazer o que mais sabia fazer - cantar com encanto.

Marion Cotillard (vencedora do Oscar 2008 de melhor atriz) é uma destas atrizes que, apesar de ser desconhecida do grande público, tem um talento que extravassa as técnicas de atuação no cinema. Causa-nos arrepios nas cenas dramáticas e nos faz sorrir com ternura nas poucas cenas meigas e felizes que a personagem/cantora viveu. Um banho de talento e dedicação, percebe-se claramente que a atriz entregou seu corpo, sua alma e sua vida nas mãos de Edith, deixando-se sentir as dores, os horrores e os sabores vividos pela intérprete do amor.

Em vários momentos pensei no quanto a vida de Piaf, chamada de Petit Piaf: pardalzinho, foi sofrida, triste e dolorosa, mas mesmo assim teve força para levar adiante seu sonho e se tornar uma cantora sem igual. Por outro lado, penso que inúmeras pessoas não conseguem crescer na vida, nem tampouco conquistar seus objetivos porque gastam muito tempo e energia reclamando dos dissabores que aparecem pelo caminho. Quem canta, seus males espanta - já diz o adágio.

30 de julho de 2009

Os Infiltrados



Uau... hoje em dia é raro um filme despertar tanta curiosidade, suspense e fazer nossos corações dispararem ansiosos, tão grande é a quantidade de películas que são lançadas diariamente. Os infiltrados (The Departed , EUA 2006) fala, dentre tantas temáticas abordadas, de dizer a verdade, ser sincero, de jogo psicológico permeado de artimanhas, trapaças mercenárias e muita ação - sempre com a identidade do Scorsese que dispensa comentários!


A polícia consegue infiltrar um homem no grupo comandado por um mafioso do crime organizado, que por sua vez também consegue infiltrar um outro homem na polícia. Cria-se então uma verdadeira batalha por sobrevivência e poder. Atores de grande porte, tais como Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Anthony Anderson e Alec Baldwin, dão um show a parte, cada um à sua maneira. Diria que é um filme 'machista', pois mostra apenas homens no comando, nas decisões, no poder, nas brigas... se não fosse pela atriz Vera Farmiga (Madeleine) que dá um toque de sensualidade, inteligência e equilíbrio no arsenal masculino que se apresenta em quase todos os seus 149 minutos de duração.


O final é por si só surpreendente... não pelo que acontece, mas sim por imaginar que pode ser 'real' o que é mostrado em cena! Enredo originalíssimo e altamente bem estruturado. Apesar de longo, vale cada minuto... o mais interessante é o que é mostrado nas entrelinhas, naquilo que o ser humano é capaz de fazer e não fazer.

29 de julho de 2009

Trilogia das cores: azul, branco e vermelho

Eu sou encantando pelo cinema europeu. A sua narrativa, trilha sonora, fotografia, montagem, atores... tudo é único e foge ao óbvio. O diretor Krzystof Kieslowski, cineasta polonês e um dos meus preferidos, é uma unanimidade. Sua história é deveras curiosa. Morando em Paris e desiludido com a política, Krzystof resolveu filmar as dores do mundo. A Trilogia das Cores (Trois couleurs, 1993-1994), inspirada nas cores da bandeira francesa, e em seus significados, é um dos momentos mais poéticos do cinema europeu.



Bleu, A Liberdade é Azul, (1993) é o primeiro e é um drama. Julie (a linda Juliette Binoche) perde o marido (famoso compositor) e a filha pequena em um acidente de carro. Tenta se matar mas não consegue pois é fraca demais para fazer isso. Fica só. E ser livre é, muitas vezes, difícil. O filme é recheado de momentos de dor, solidão e busca pela liberdade. A trilha sonora de Zbigniew Preisner é espetacular e nos conduz ao clima denso do filme. O final, é emocionante.





Blanc, A Igualdade é Branca, (1993) é o segundo e uma película próxima à comédia. Para Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), cabelereiro polonês, estar vivo não é nada fácil. Vai à Paris e é humilhado. Sua mulher, Dominique (Julie Delpy), pede o divorcio, já que Karol Karol não "consumou" o casamento - fato este que dá um tom cômico-dramático às cenas seguintes. Por ser humilhado e ignorado pela esposa, ele volta à Polônia (fugindo dentro de uma mala) e arquiteta a sua mais magnífica forma de vingança - que não detalharei aqui para não estragar a surpresa de quem vai assistir. Hilário e extasiante!





Rouge, A Fraternidade é Vermelha, (1994) é o terceiro e último filme da trilogia. Assemelha-se a um poema, recheado de fotografia impecável. O rosto de Irene Jacob, musa com beleza clássica e angelical, flutuando em fundos vermelhos é de aquecer qualquer coração. Irene é Valentine, modelo suíça que vive em Paris, longe do namorado ciumento. Sua história é interligada à de um jovem que quer ser juiz. Valentine atropela uma cadela e ao levá-la de volta ao dono - endereço na coleira, conhece um estranho que passa seus dias ouvindo ligações telefônicas dos vizinhos. Desse encontro surge uma estranha amizade que, aos poucos, modifica a vida de ambos personagens. Magnífico!


P.S.: A Liberdade é Azul ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor filme e melhor fotografia, tendo ainda Juliette Binoche como melhor atriz. A Igualdade é Branca deu o Urso de Prata em Berlim para Kieslowski como melhor diretor. A Fraternidade é Vermelha ganhou Cannes como melhor filme, o Cesar por melhor trilha sonora e foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e ao Oscar como melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

24 de julho de 2009

Ponte para Flaviobítia



Com o tempo perdemos o que temos de mais precioso que é a docilidade e a pureza infantil. Nada é tão puro quanto o sorriso - sempre sincero - de uma criança. Sou hiper suspeito em defender os conceitos infantis, uma vez que é notória a minha eterna vontade de ser pai e o meu amor incondicional às crianças - e aos meu sobrinhos que crescem mais rápido do que a minha necessidade de estar ao lado deles.

O filme da Disney "Ponte para Terabítia" (Bridge to Terabithia, EUA 2007) me fez chorar deliciosamente, pois relembra a infância com seus dilemas peculiares, que todos nós passamos ou 'pulamos'. Reforça que o mais importante é acreditar no que sonhamos e imaginamos e a sempre manter a mente aberta para o novo. A obra cinematográfica foi inspirada no livro que foi publicado em 1977. A autora Katherine Paterson o escreveu como forma de consolar seu filho mais novo, David, devido à morte trágica de uma grande amiga. O enredo descreve maestrosamente a vida de um casal de adolescentes com características muito diferenciadas do que seria senso comum. A garota, Leslie Burke, é uma excelente competidora de corrida na escola, independente e extremamente decidida no que quer e na forma de se vestir, destacando-se da maioria feminina. Já o garoto, Jess Aarons, é sensível, calado, tímido e ótimo desenhista. Como se não bastasse ele possui 4 irmãs, sendo o único filho homem na família. Estas discrepâncias nos perfis de cada um - já que a mulher na sociedade é sempre mostrada como sensível e o homem como rústico - os leva a desenvolver uma amizade sui generis, criando juntos mentalmente um reino mágico e encantado (Terabítia) que serve de refúgio para ajudá-los a enfrentar os problemas que enfrentam na escola. Terminei o DVD com a doce e inefável sensação de que minha infância foi vivida.
Pensei no quanto eu me diverti quando era criança pequena - já que ainda me sinto criança, só que agora grande. Eu e uma turma de molecada da rua, íamos para os córregos próximos e brincávamos de floresta: mergulhávamos na água barrenta, engolíamos peixinhos acreditando que assim aprenderíamos a nadar - eu sempre jogava o peixinho de volta na água e dizia que tinha engolindo, minha porção vegetariana já estava querendo sair! Tínhamos um mundo só nosso, onde não existia medo, raiva, angústia, vingança nem tampouco inveja. Era um mundo inventado, sim era, mas isso não o fazia inferior. Um dia éramos índios, no outro éramos astronautas, no seguinte cientistas. Era o nosso refúgio, nossa válvula intermediadora, nossa ponte para o mundo dos adultos.


Até hoje mantenho certos refúgios para os momentos mais críticos da vida. Seja usando um objeto da infância - tenho um par de sapatinhos que usei quando tinha menos de 1 ano, uma foto inspiradora ou mesmo uma imagem mental cravada na parede do cérebro. Cada um cumpre o seu papel que é resgatar-me do mundo dos 'adultos' e levar-me para o mundo 'flaviobítia' - onde tudo é possível, e a única coisa que é impossível é ser adulto - na concepção pejorativa da palavra.

E você, tem o seu mundo? Está desenvolvendo ou matando o seu refúgio interno?