8 de novembro de 2008

Apólogo: A troca das cadeiras


Certa vez, estando cansada de agüentar o peso de seu próprio dono, a cadeira resmungou à sua companheira mesa:


- Cansei de ser sentada. Ninguém me trata com respeito, o meu dono chega da rua de qualquer jeito e vai logo se acomodando aos trancos. Se ao menos tivessem mais pessoas nesta casa. Se bem que o seu peso vale por três. Isto sem mencionar os odores...


A mesa, em sua magnânima postura – toda de vidro temperado, pernas de aço escovado com design europeu – fingiu não ouvir nada.


A cadeira continuou a lamentação:
- Além do mais somos quatro aqui e eu sou sempre a escolhida, não é justo, quero trocar de posição. Acho mais do que justo um rodízio semanal de lugares. É o meu direito exigir a troca constante! Só eu estou ficando velha enquanto todas as outras três ficam jovens e lindas!


Sua colega da esquerda, num ar blasé, retruca:
- Foi você quem escolheu ficar de frente para porta, querendo ser a primeira a ser vista pelos visitantes. Agora paga o preço, bem feito! Meu primo sofá sempre me dizia: “o apressado come cru”.
- Escuta aqui, desde o início eu notei a sua inveja sobre a minha posição! Não tenho culpa se meu jeito de ser te incomoda!
- Inveja?! Eu?! Você só pode estar delirando, eu continuo até hoje com o plástico cobrindo a minha pele. Tenho aparência de nova, ainda conservo o odor da minha mãe fábrica. Só fui usada por três vezes e todas elas foram por crianças.


A mesa continuou ouvindo por horas aquela ladainha de lamúria.


Ao ouvirem o barulho da chave na porta, todas silenciaram. Era a empregada chegando para cumprir a sua rotina semanal de limpeza.
A cadeira da direita não resistiu e sussurrou à sua inconformada colega:
- Hoje é a sua chance de mudar de lugar, a faxineira sempre nos coloca de pernas para cima logo após o almoço, posso trocar de lugar com você nesta hora. Eu já cansei de ficar escondida entre a parede e o sofá. Nem resto de comidas caem sobre mim. Nem lustrada direito eu sou. Quero me sentir útil, usada, quero servir ao meu dono. Se quiser, podemos trocar. Não nasci para ficar oculta.
- Obrigada amiga. Vamos aproveitar a faxina da tarde e mudaremos.


Neste instante, a mesa que até então nada falava, disse:


- Meninas, que adianta ficarem brigando por posição se todas vocês sempre estarão embaixo de mim? Estando à direita, à esquerda, na frente ou atrás, não importa. Todas sempre serão usadas para que eu possa fazer o meu trabalho. Sou usada para comer, ler, conversar, jogar baralho, escrever... e vocês, para que servem além de sentar?! Nem isso sabem fazer com majestade. Preocupam-se muito com o status e pouco com a serventia. Cada ser tem um propósito neste mundo. Não queira ser uma obra de arte, conforme-se em ser cadeira, feita para sentar. Não se trata de ser menos ou mais do que ninguém. Imagina se todas as cadeiras quisessem ocupar o mesmo lugar! A dignidade vem com a capacidade de entendermos o nosso lugar no mundo.
Neste momento um silêncio profundo dominou a sala, pois as cadeiras respeitavam muito o que ouviam da mesa, pois quando elas chegaram naquela casa, a mesa já estava ali.


A faxineira toda serelepe com balde e pano nas mãos aproximou, começou afastar todos os móveis, e, como era previsto, colocou todas as cadeiras de pernas para o ar. Assim que saiu para buscar o sabão em pó, as cadeiras rapidamente trocaram de lugar numa rapidez quase imperceptível pelos os olhos humanos adultos – talvez uma criança conseguisse ver.


- Vamos é a nossa chance, ela não notará a troca! – dizia a cadeira da esquerda. E assim fizeram a troca.


Depois de limpar toda a casa, a faxineira voltou cantarolando e começou a recolocar as cadeiras no lugar. Ajeita aqui, ajeita ali e de repente viu uma mancha no assento de uma delas.


- Chi, o patrão vai brigar comigo! Acho melhor colocar esta cadeira escondida.


Dito e feito. A faxineira trocou as cadeiras de posição instintivamente, voltando-as todas às posições originais.


A mesa, que segurava o riso, calmamente disse:
- Bem que eu tentei alertá-las, minhas queridas. Por baixo de mim já passaram tantas cadeiras que já perdi a conta. Vocês podem ser dignas e exemplares em suas tarefas, desde que façam com dedicação e vontade. A rebeldia nem sempre nos leva a caminhos seguros. Não queiram ser o que não são. Uma cadeira jamais poderá ser um quadro, nem tampouco uma geladeira. Vocês brigam por uma posição de destaque, mas esquecem que estou aqui sempre a protegê-las. Não existe uma cadeira melhor do que a outra, todas vocês têm uma importante função em uma casa. O que seria do mundo se todos nós quiséssemos ser cadeiras?
Após dizer estas palavras, a mesa sentiu-se reconfortada e feliz ao ver suas queridas pupilas pensativas e com um ligeiro sorriso nos lábios.


Hora do jantar!


Este texto foi criado para a disciplina de Literatura Infanto-juvenil na Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura


(Flávio Vicente em 03/novembro/2008)

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