5 de setembro de 2008

Pegajosa e Doce

Ainda estou chocado com a comoção e a desordem gerada em São Paulo na venda de ingressos para a Turnê Internacional Sticky & Sweet da Mega Diva Cantora Mãe Atriz Dançarina Produtora Empresária e Sexy Simbol Madonna Louise Veronica Ciccone. Impossível não ficar contrariado com tamanho descaso e desorganização da empresa que está subsidiando este evento aqui no Brasil. Não posso deixar de considerar que estamos na maior cidade do país, e que São Paulo é uma das maiores cidades do mundo. Quando li que a cada dia da turnê o estádio comportará em média 75 mil pessoas, fiquei boquiaberto. Imaginei a cena, a multidão, os movimentos, os gritos, a alegria, o choro, a emoção... serão mais de 150 mil súditos para ver a Rainha.
Fiquei pasmo ao ver já na segunda-feira, pessoas de barracas montadas na porta do Credicard Hall à espera do início das vendas dos ingressos. Detalhe: o início foi na quarta-feira ao meio-dia, dois dias depois que os primeiros peregrinos começaram a se instalar na fila. Uma multidão foi se aglomerando. Cada um deve ter sua história de vida, sua razão para estar ali e seus motivos - fique pensando. Pessoas que venderam objetos pessoais, outras pediram demissão para resgatar o FGTS e assim poder usá-lo na compra dos ingressos.

Estava eu à meia-noite do dia 03 de setembro esperando o início das vendas on line, mouse e olhos preparados para a largada (e imaginando a quantidade de pessoas que estariam na mesma situação naquele exato momento). Três, dois, um... já! Inicia-se um processo infinito de clique-clique irritante e angustiante. Página fora do ar, servidores sobrecarregados, F5 insistente e nada! Para um fã, quando mais perto da sua musa, melhor. A frustração também é inversamente proporcional à distância. Receber a saliva "sagrada" de sua musa é motivo de alegria. Quem sabe numa destas ela joga um chapéu, um lenço ou uma gota de suor mesmo.
Já passava das 02h da manhã e nada de eu conseguir efetuar a compra. Comecei a meditar, respirar, rezar para um santo que nem existe ainda: o São Padroeiro dos Ingressos!
Uma amiga chegou na fila de um ponto-de-venda às 05h da manhã e só foi conseguir sair de lá, com ingressos nas mãos, às 22h contente e sorrindo pela conquista, diga-se de passagem. Disse que era a realização de um sonho. Para um outro fã ouvir isto é compreensível, mas imagino para uma pessoa anti-Madonna. Deve achar que a minha amiga é uma mãe desocupada e maluca.
Este fato me fez lembrar de Lênin. Ele pregava que uma das formas de agradar o povo é oferecer algo muito desconfortável por um bom tempo e depois dar algo médio para compensar. Assim o ruim deixará de ser tão ruim e passa a ser até certo ponto desejado. O tal bode expiatório vem a calhar.

Sou um tanto suspeito para afirmar qualquer coisa em relação à Madonna. Jamais esquecerei quando em 1985 eu vi na TV uma mulher vestida de noiva enrolada na grinalda, rolando pelo chão, gemendo e cantando "Like a Virgin". Fui fisgado ali... o adolescente no ápice de seus hormônios sendo atraído por uma figura que pregava o despudor sexual e comportamental. Aquilo foi suficiente! A partir de então, tal como um fã incondicional, comecei a seguir seus passos e sua carreira - construída milimetricamente planejada (ao contrário do que muitos pensam).
Amigos mais próximos já conhecem esta minha fixação por ela. Diria que hoje, já mais maduro, não sou mais tão louco-desvairado assim. Consigo esperar 1 dia para comprar um CD novo, um DVD lançado e/ou qualquer outro objeto que tenha sido "criado" pela deusa. Antes eu recortava até manchetes de jornal que mencionavam o nome dela (quanta paciência e quanto tempo eu tinha naquela época!). Hoje não me vejo dias na fila esperando o lançamento de um DVD ou a venda ingressos para um show, mas ainda assim fico umas horinhas sem stress. Hoje não recorto toda e qualquer reportagem que leia em revistas e jornais, mas não consigo ficar sem lê-las. Já não uso camisetas com suas fotos e letras de músicas, mas ainda assim sustento fotos dela na parede do meu quarto. As prioridades com o tempo mudam. adquirimos umas e abandonamos outras.

Fiquei pensando no que atrai milhões de pessoas a ver uma outra pessoa de estatura baixa (ela tem menos de 1,60m), miudinha, voz fina e beleza comum. Hoje consigo analisar assim, mas se alguém me dissesse tudo isso há alguns anos atrás eu teria criado um legítimo "quebra-quebra" em defesa da imagem da deusa - quanta inocência!
Feia ela não é, mas fica difícil concorrer com uma Nicole Kidman, uma Gisele Bundchen e mais uma legião de mulheres perfeitas moldadas a plásticas, silicones, botox etc; estupenda cantora sabemos que ela não é, mas fica difícil concorrer com a voz de Alicia Keys, Alanis Morissette, Rihanna; ótima dançarina ela não é, mas fica difícil compará-la com uma Débora Colker, Ana Botafogo. Então deduzo que o que admiramos nela certamente não é o esmero físico ou atributos estéticos apenas.

Ela é uma legítima leonina, e como bons leoninos somos de coração bom, sensíveis e muito decididos. Somos vaidosos, alegres, críticos e objetivos. Isso eu até consigo entender facilmente, pois são caraceterísticas que tenho em mim mesmo. Outras questões insistem:
Como uma pessoa consegue movimentar tanta energia em tantas pessoas ao mesmo tempo?
Ela não tem idéia total deste poder - afinal de contas ela não está no dia-a-dia destas pessoas. No máximo ela fica informada de números, cifras, reportagens e retorno financeiro.
Então me resta uma linha de raciocínio. De todas as mulheres midiáticas, ela foi a única (e pioneira) a falar de sexo de forma mais aberta, mais agressiva, mais desafiadora e mais provocante. Brincou com tabus sexuais, com preferências, com o proibido e prazeres ocultos. Isso em plena década de oitenta. Hoje existe uma legião de seguidoras e clones. Todas tentando seguir o rastro deixado pela MÃEdonna - Britney Spears, Kylie Minogue, Christina Aguilera, Gwen Stefani - emitando aparência física e até mesmo tentando ser polêmicas.
Um fato jamais esquecerei. Quando o Papa, na época o nosso saudoso João Paulo II, disse que queria vê-la, ela respondeu: "se ele quiser me ver, pode assistir ao meu show!"
Claro que a intenção dele era justamente "catequisá-la", pois este fato aconteceu bem na época que ela estava pondo fogo em cruzes e beijando santos (Like a Prayer), mas para ela não passou de uma oportunidade de mostrar o poder que mantém.

Tudo tem um preço nesta vida. Recentemente seu irmão mais novo, Christopher Ciccone, resolveu lançar uma biografia onde conta fatos íntimos e pessoais de sua irmã famosa. Ele foi o responsável pelo cenário de suas duas últimas turnês mundiais. No primeiro momento, fiquei pensando na ingratidão e desrespeito que ele teve ao lançar tal livro. Ela é sua irmã, poxa! E não é uma irmã como as que temos. É uma pessoa extremamente visada, conhecida e responsável por ditar comportamentos no mundo tudo. O que ele quer com isso? Mostar que ele tem mais poder do que ela ou está apenas exercitando a sua frustração por algo pessoal que tenha acontecido entre os dois? Por enquanto ainda não saiu aqui no Brasil, então só esperar e ler para entender os reais motivos para tamanha ingratidão (isto é, se a tradução for de boa qualidade).

Depois de experimentar o mundo e o mundano (mesmo acreditando que o que vemos dela não é exatamente o que ela é, mas o que ela quer que vemos), resolveu casar, criar filhos e morar numa "fazenda" nos arredores de Londres. Pratica yôga, cabala e ótimos hábitos alimentares e esportivos. Está impecável no auge dos seus 50 anos! Até a voz amadureceu, ficou mais afinada - consegue atingir tons antes impossíveis. Está com corpo mais firme - resultado de horas na academia e no yôga. Escreveu uma coleção de livros infantis. Lançou um documentário onde teve intenção de mostrar-se mais humana, mais perto de nós simples mortais. Adotou uma criança negra e órfã, gerou protestos no mundo todo com esta atitude.

Got no boundaries and no limits
If there's excitement, put me in it
If it's against the law, arrest me
If you can handle it, undress me
(Give it to me - Madonna)

Eu me pergunto: Por que, nós seres humanos, temos a necessidade visceral de idolatrar outros seres humanos como se fossem deuses imortais?

P.S.:
Acabei de ler que ela fará outro show na cidade do Rio de Janeiro. No total serão 4 shows no Brasil. Nosso país é mesmo assim, exagerado em tudo: na bondade, na amizade, na geografia, no talento, na beleza e na amistosidade. Temos em nós uma inexplicável necessidade de agradar os "gringos" que nos visitam. Eu me divirto...

P.S.:
Acabei de saber, novamente, que ela fará um quinto show no Brasil. Agora serão 3 em São Paulo (18, 20 e 21 de dezembro) e 2 no Rio (14 e 15 dezembro). Uau... isso que é ter admiradores!!!

Um comentário:

  1. Gostei Flávio, realemnte o que será que faz com que milhões de pessoal fiquem elouquecidas p ver um outro ser humano, ídolos!!
    Sou fã da maddona desde a mesma época que vc citou o "like a Virgin" foi um marco mesmo.
    Gostaria de ver o show, mas hoje em dia os mais privilegiados podem se dar ao luxo de fazer isso, pensemos no valor exorbitante dos ingressos.
    O Nine Inch nails tbém ... outro sonho de consumo não realizado, he,he assim caminha o brasiliero.
    Bjos
    MJ

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Forte abraço,
Flávio