22 de setembro de 2008

Visão para a cegueira



Como sou admirador dos trabalhos do Fernando Meirelles desde o filme Domésticas, não via a hora de poder assistir a personificação dos personagens "anônimos" da obra de Saramago "Ensaio sobre a cegueira" - numa versão mais hollywoodiana "Blindness". Para quem não tenha lido a obra ainda, é importante saber que os personagens não são caracterizados por nomes próprios e sim por substantivos/adjetivos: mulher do médico, médico, rapariga dos óculos escuros etc. Hoje em dia é muito comum best sellers serem transpostos para o cinema. Uns se tornam verdadeiras obras-primas, enquanto outros nunca deveriam ter saído das páginas do livro. Esta responsabilidade é quase total do diretor. Depois de finalizar a leitura do livro, eu estava muito ansioso para assistí-lo. Talvez esta ansiedade tenha sido gerada devido a presença de fatos chocantes e delicados tratados na obra. No filme, os personagens vão perdendo a visão misteriosamente e sem uma causa com justificativa médica. Diferente da cegueira tradicional, todos vão adquirindo uma cegueira branca. São urgentemente reunidos pelo Governo e colocados em um hospital psiquiátrico em quarentena. Ai que os problemas começam, pois são privados de cuidado pessoal e vivem sob condições desumanas. São divididos em alas e rapidamente começam os conflitos de convivência, poder e ganância. A única pessoa que enxerga é a mulher do médico (Julianne Moore) e, por esta razão, acaba se tornando, de certa forma, a mãe de todos. Nas cenas seguintes assistimos a estupros, traições, crueldade, imundices, fome e mais uma infinidade de comportamento humano diante das adversidades que a vida nos coloca. Os atores foram escolhidos com esmero e maestria. Os cenários, em sua maioria são locações externas, trazem uma São Paulo suja e imunda, mas charmosa. Locações em Montevidéu e Canadá dão um ar mais cinza no enredo.
O filme é uma espécie de "ame-me ou deixe-me", não há meio termo.

Enquanto eu esperava pelo início da sessão, fiquei atento aos comentários das pessoas que aguardavam nas filas e na saída da sessão anterior.
Em sua maioria, saíam com cara de "questionamento". Uns pareciam estar em êxtase, outros balbuciavam irritados:
- Não entendi nada! Que filme maluco!
Fique pensando em como alguém pode sentar por duas horas para assistir a um filme e sair de lá dizendo não ter entendido nada?!

As pessoas estão acostumadas a sentar nas poltronas de seus lares e verem filmes fáceis de serem digeridos. A cultura atual da televisão é moldada sobre a cultura do fácil: você senta e sem esforço algum assiste a tudo que se passa em sua frente. Deixa a mente vagar como um zumbi tecnológico.
Quando um filme nos tira deste sossego torpe, temos a tendência em rotulá-lo de "ruim". Nem tudo o que não entendemos pode ser caracterizado de ruim - isto é um preconceiro dos mais grosseiros. Cada filme tem um propósito ao ser produzido, uns foram feitos para nos divertir, outros rir, alguns chorar e outros questionar. No caso de "Ensaio", eu já tinha lido a obra e já sabia o que me esperava nas telas. Certamente, algumas pessoas que estavam de bobeira no shopping e resolveram ir ao cinema... olharam o cartaz, acharam interessante e resolveram entrar.
Quando fazemos isso, temos que ter a consciência do que pode nos esperar. Sempre tem algo interessante a analisar, ver, pensar, apreciar.

Voltando ao "Ensaio"... sai da sala introspectivo aos extremos:
O que nós, seres humanos, somos capazes de fazer para conseguirmos o que queremos?
Qual o preço que pagamos para atingir nossos objetivos?
O que realmente importa, em nossa vida, quando perdemos o conforto material?
É fácil sermos civilizados quando estamos no conforto de nossa casa, do nosso carro e do nosso trabalho. E quando somos privados de nossas necessidades básicas, tais como visão, comida e higiene?
Enxergar é, sem dúvida alguma, uma das melhores coisas da vida. Não só o olhar físico, mas a capacidade de atravessar fronteiras e barreiras. Estar disposto a abrir os olhos diante daquilo que nos cega. Enfrentar o obscuro em busca da luz no final do túnel. Todos os grandes homens da humanidade foram pessoas que enxergavam além do óbvio, além do mediano em que a maioria das pessoas habitam.

O que você vê quando fecha os olhos e encara a sua escuridão pessoal?
Que tipo de claridade você busca quando fecha os olhos diante da vida, das pessoas e dos problemas? Sua cegueira é construída em cima de quais valores?

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