19 de agosto de 2008

Professor: o educar são!











Outro dia ouvi alguém dizer que todo professor é um ator frustrado. Na hora causou-me certo espanto, pois esta frase foi proferida por uma pessoa engajada no meio educacional. Acredito que esta pessoa cometeu alguns exageros, e o maior deles seja o uso da palavra TODO para expressar uma idéia fragmentada e um tanto quanto preconceituosa, para não dizer semanticamente desfavorável aos seus colegas de profissão. Um ator vive da interpretação de papéis com um determinado fim – nisso o professor pode até assemelhar-se, mas incluir o termo “frustrado” na comparação me parece um tanto exagerado da parte de quem disseminou este tipo de comentário. Tenho comigo uma regrinha – que considero quase uma superstição – quando ouço qualquer afirmação de uma pessoa, procuro fazer uma análise de discurso do autor, antes de assimilar cegamente o conceito defendido. É interessante porque quase sempre mais aprendo de mim mesmo do que do outro.


As pessoas geralmente responsabilizam o professor pela educação da criança e com isso excluem a total responsabilidade dos pais nesta delicada tarefa. É comum ouvirmos dizer, entre os professores, que a educação deve vir dos pais e não dos professores. A educação é construída no dia-a-dia de seus lares, nos detalhes, nos momentos de conflito, nas alegrias, nas tristezas, nas descobertas etc. Com isso, temos um dilema, pois hoje em dia o aluno passa mais tempo na escola, portanto na companhia dos professores, do que com os próprios pais – que quase sempre voltam do trabalho já noite. Outra questão abrangente deve ser levada em consideração: a suposta “educação” que é referida como competência dos professores é, quase sempre, limitada pelo próprio sistema educacional. Um pai eleva a voz com o filho, coloca de castigo, limita e/ou amplia seus movimentos de liberdade, senta com ele para conversar energicamente, aprova ou desaprova comportamentos etc, enquanto o professor tem que ser um verdadeiro psicólogo/pai/mãe/tio/vô para conseguir um resultado favorável e pedagogicamente correto dentro da sala de aula. Isto tudo, claro, sem sequer elevar a voz com seus pupilos, imagina então usar outros métodos educacionais. Os pais sentem-se ofendidos. Na verdade, esta ofensa pode nascer mais por orgulho, pois é delicado saber que um filho tem dificuldade de relacionamento social – isso reflete uma possível falha na própria educação que os pais receberam e/ou têm conhecimento e estão repassando aos seus filhos.


O nosso país nem sempre incentiva o professor em seus mergulhos acadêmicos – altamente necessários para que se possa continuar produzindo e “educando” as crianças, outrora chamadas ‘futuro do nosso país’. Para ilustrar este fato, também recorro à outra história ouvida por um colega professor atuante. Disse ele que um certo político foi inaugurar um laboratório de informática em uma escola da periferia de São Paulo. A diretoria da escola e seus funcionários organizaram o espaço, colocaram ótimos equipamentos tecnológicos, mesas, cadeiras, ventilação etc. Visita feita, discurso proferido, sorrisos e abraços fotográficos registrados e lá se foi o político. A seguir também se foram os equipamentos e toda tecnologia exposta – era só para a sua visita. A escola continuou como estava: distante da realidade cibernética e mergulhada no marasmo das dificuldades pedagógicas enfrentadas diariamente pelos professores. E o dito popular diria: “Foi para inglês ver”! Nesta situação posso acreditar no fato de que alguns professores são atores frustrados: vivem de encenar situações e personagens. Esta diretora parece encaixar perfeitamente nos ofícios shakespearianos.


Enquanto brincávamos de carrinho de madeira, jogar bola na rua, bete, esconde-esconde, cabra-cega, amarelinha etc, as crianças de hoje competem em passar níveis no Playstation 3 e no Wii com tanta desenvoltura que nos deixam estarrecidos diante de tamanha simbiose tecnológica. O mouse de um computador mais parece uma extensão de seus próprios corpos, um terceiro braço.

É quase humanamente impossível pensar na educação atual sem utilizar os meios tecnológicos disponíveis hoje em dia – ainda que não sejam acessíveis à maioria da população. O poder do fascínio pela tecnologia é tão grande que crianças gastam o pouco dinheiro que possuem para ficarem horas e horas em espaços pagos de acesso a internet e games, deixando com isso de conviver com seus pais, amigos e colegas de aula. Cria-se com isso uma certa deficiência na comunicação. A rapidez da comunicação on line favorece a lentidão na comunicação presencial. Fica difícil mostrarmos aos nossos alunos o valor de um olho-no-olho pessoalmente quando com um clique virtual podemos ter acesso ao mundo inteiro. É uma competição acirrada. O que temos que fazer é trazer a facilidade deste mundo virtual para o dia-a-dia educacional. Mostrar que, mesmo o computador fazendo perfeitos cálculos digitais, nada substitui o pensamento e raciocínio lógico.


“A televisão não foi criada para educar, mas sim para entreter” – esta fala reproduzida pelo Professor Yuri muito me chamou a atenção. Segundo ele, diversos sociólogos e estudiosos do tema discutem este assunto há anos. E fiquei pensando nisso por um longo tempo – até porque jamais assisto à televisão e quando me disponho a sentar na frente do aparelho, certamente é para assistir a um bom filme escolhido em DVD ou mesmo na TV a cabo. Sempre fui de encontro a este raciocínio de que a televisão não educa em nada seus telespectadores, pelo contrário, ela os estimula a ficarem cada vez mais passivos esperando a resposta da vida com a facilidade de um clique no controle remoto. Por outro lado, é inegável o fascínio/poder que a TV exerce sobre a camada mais humilde da população – a ponto de atores serem agredidos na rua por serem confundidos com os personagens que interpretam nas novelas. E é deste poder que a telinha sobrevive. Pode faltar qualquer outro utensílio doméstico na casa de uma pessoa, mas raramente falta a televisão – e não raro, vemos em favelas, moradores com um home theater de última geração sendo venerado em suas salas. Talvez seja um portal capaz de transportar os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas alegrias – prova disso é que os personagens que mais fazem sucesso nas novelas são sempre aqueles que sofrem muito, são pobres e depois de um certo tempo ficam ricos, belos e poderosos. Isso, Freud explica.


Todos nós, sem exceção, temos um professor que lembramos com carinho e afeição – ou que nos marcou e despertou sentimentos não tão carinhosos. De qualquer forma, uma coisa é fato, o papel do professor em nossas vidas é indiscutivelmente salutar.


Os próprios professores são os que mais criticam o sistema educacional – seria por que estão engajados na situação ou por que nós, seres humanos, estamos sempre descontentes com o temos/somos?

Por outro lado, sem os visionários e os descontentes, não teríamos mudanças nem tampouco progressos. Progressão nem sempre quer dizer mudança. Às vezes retroceder é sinônimo de evolução – até porque o conceito de evolução está intimamente ligado a aperfeiçoar-se, e para nos tornarmos melhores, quase sempre é preciso (re)pensar nossas atitudes e nossos comportamentos. Uma coisa é fato: críticas só são construtivas quando junto a elas apresentamos sugestões de (re)construção. Falar por falar, gritar por gritar de nada adianta. O mundo precisa mais de líderes do que de descontentes educacionais. Líder no sentido de exemplo a seguir, que fique claro. O risco acontece quando muitos professores utilizam a justificativa de 'incentivar a cidadania' e embutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos. São capazes de venerar Karl Marx e ignoram alguns fatos bastantes peculiares de sua vida enquanto vivo: viveu às custas de um amigo industrial, engravidou a empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência.

"Uniformizar, alimentar, dar livros didáticos aos jovens e perguntar como foi o dia na escola é fundamental, mas isso ainda não é educação para o século XXI." diz Monica Weinberg e Camila Pereira, jornalistas da VEJA.

Para encerrar este texto, utilizo-me das pesquisas e estatísticas, mesmo sabendo que elas podem ser tendenciosas e manipulativas. Uma coisa é inegável: elas não são 100% equivocadas. Seguem dados coletados pela CNT/Sensus:

  • 22% dos professores do ensino básico não têm diploma universitário
  • O Brasil está em 52º lugar em ciências e em 53º em matemática - em uma lista de 57 países
  • 60% dos estudantes chegam ao fim da 8a. série sem saber interpretar um texto ou efetuar operações matemáticas simples
  • 16% repetem a 1a. série do ensino fundamental

Qual é o verdadeiro papel do professor?
Qual a principal missão da escola?
Qual é a sua maneira de pensar a educação?

"O que é ensinado em escolas e universidades não representa educação, mas são meios para obtê-la." Ralph Emerson

Um comentário:

  1. Flávio
    Seu texto está muito bem escrito, contém informações e indagações muito interessantes, como faço parte da mesma turma e ouvi as citações que você menciona, me senti totalmente envolvida.
    Um texto fantástico.
    parabéns!

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Forte abraço,
Flávio