27 de abril de 2012

Precisamos falar sobre Kevin



Temos uma forte tendência arraigada em nosso comportamento que é a de procurar os motivos para as atrocidades que cometemos ou que são cometidas contra a gente. Precisamos visceralmente de encontrar um bode expiatório para nossos erros, medos, desejos, pulsões, covardia etc... mas quando não encontramos um 'culpado', tudo se transforma em ruínas, estilhaços e peças de um quebra-cabeça que jamais será montado. A sensação massacrante que vem deste profundo desconforto foi PERFEITAMENTE trabalhada no filme Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, England 2011) que parece ter sido feito sob medida para a talentosíssima e sui generis atriz Tilda Swinton. Nenhuma atriz da atualidade conseguiria expressar tamanha dor, sofrimento e estupor diante dos fatos que acontecem.

Quando uma mulher dirige um filme deste porte, temos inevitavelmente uma obra-prima. A sensibilidade que a diretora Lynne Ramsay imprime ao nos narrar a história - mesmo que cheia de flashback que ao telespectador desatento seria um prejuízo - nos tira do conforto da poltrona e questiona profundamente os nossos valores éticos e morais. Seria quase impossível ficar inerte ao assistir as cenas da película sem emitir um juízo de valor.

O filme nos relata a história de um adolescente (Kevin) que comete um assassinato em massa, gerando assim um turbilhão de reações psicológicas avassaladoras em sua família e, principalmente, em sua mãe. A cada feedback no enredo, temos conhecimento de uma parcela da infância de Kevin que, desde muito pequeno, desenvolveu um prazer doentio em provocar e desconcertar sua própria mãe. Ao crescer, o pequeno sádico requinta e estiliza a forma com que desafia sua mãe. O tempo todo, Eva, tenta falar do filho com o marido, mas não obtém retorno. Na cabeça do pai o filho é querido e meigo com um comportamento típico de um garoto de sua idade. Um grande exemplo no que a falta de diálogo pode levar um casal ou do que a falta de percepção de uma pessoa pode provocar.

Imperdível e altamente recomendado para quem interessa em discutir a essência humana e suas mazelas.


22 de março de 2012

O ego e suas artimanhas

Sempre que estamos ao lado de um estranho, temos a tendência de puxar assunto usando o clima como mote principal. Geralmente falamos “Que calor” ou “Que chuva” e, por ai vai. De certa forma, quase sempre iniciamos uma conversa reclamando de algo. Quem está realmente falando nesta hora é o nosso ego. Ele é como uma criança mimada que requer atenção o tempo todo. Se não o atendermos, ele fará birra. E se você for mais perspicaz em seu dia-a-dia vai perceber uma enorme quantidade de pessoas que andam fazendo bico e resmungando da vida e de tudo. Resmungam até quando não têm motivo para tal. Reclamar vicia!

Diria que o mesmo acontece com as pessoas que convivemos. Muitas são mentirosas, falsas, mesquinhas, traiçoeiras... o que no fundo não temos muito o que mudar. Cada um é o que é. Mas COM CERTEZA poderemos mudar a forma como sentimos e interpretamos o comportamento destas pessoas.

Eu costumo meditar que “ninguém consegue ofender ninguém se a pessoa não permitir”. Não quero criar apologia à violência, muito pelo contrário, quero dizer que as tentativas de ofensas são conceitos totalmente subjetivos. Quase sempre não sabemos distinguir entre uma situação e sua interpretação de uma reação a esta mesma situação.  E o ego adora bagunçar nossos interesses.

Muitas coisas não podem ser mudadas apenas porque as percebemos, mas podemos coordenar a nossa reação diante de um incômodo pessoal. Isso é ser emocionalmente inteligente. O ego é esperto.

A esperteza divide, enquanto a inteligência inclui. Pense nisso!

25 de janeiro de 2012

Luiza, Estupro, refrões musicais vulgares e outras brasilidades


Gastam-se páginas e páginas de revistas, horas e horas em redes televisivas e dias e dias do tempo do povo brasileiro comentando exaustivamente  alguns assuntos fúteis e recorrentes. 

Um deles é sobre uma desconhecida que se torna 'famosa' da noite para o dia depois que o pai, durante um comercial de televisão, menciona que a família toda está reunida, menos a tal filha que está no Canadá - denotando um extremo mau gosto que beira à arrogância típica da classe média brasileira.

O outro é um suposto estupro acontecido no exaustivo reality show que trata os participantes como ratinhos de laboratório, onde se dá comida, determina provas e bebidas, de acordo com a necessidade da pesquisa - no caso aqui, troca-se pesquisa por ibope. O casal bêbado dança em ritmos totalmente eróticos, vão para cama juntos, inciam carícias altamente sexuais e a suposta vítima adormece. O afoito 'vilão' continua matando sua sede carnal em rede nacional e acaba indo para delegacia prestar esclarecimentos. A moça, branca e loira fazendo-se de ingênua, continua no programa.

E o último caso resume-se numa vulgar melodia que não sai da boca do povo. A 'essência' da chamada música se resume em 'pegar' uma pessoa. E olha que o gesto coreográfico que acompanha o pegar não é nada sutil. É o típico jeitinho brasileiro condensado numa gesticulação que insistem em chamar de música.

Impossível não pensar nos valores culturais que nosso país está cultivando, ou melhor, está descultivando. Difícil não ficar chocado ao ver criancinhas dançando e repetindo gestos que soam vulgares e ridículos. Triste saber que ocupamos horas do nosso dia discutindo algo totalmente banal e inútil que molda a cabeça de nossas crianças.

Enquanto isso... ai ai ai se perguntarem sobre a nossa colocação mundial no ranking da educação!!!!!



4 de dezembro de 2011

E a necessária dança das máscaras



É como numa preparação para um espetáculo. Diariamente olhamos no espelho e escolhemos qual máscara usaremos. Sempre usamos algumas que são padrão: pai dedicado, filho exemplar, aluno excelente, chefe mandão, líder amigo, amigo honesto, namorado fiel, funciónário do mês etc...  algumas são usadas com tanta frequência que grudam em nosso rosto/ser a ponto de nos confundir profundamente, gerando uma crise de identidade. Facilmente pensamos que SOMOS o que na verdade ESTAMOS usando! O perigo é que a máscara pode grudar de tal forma que os dois rostos se fundem e não sabemos mais qual é o verdadeiro (se é que existe algum). Perdemos a nossa identidade no emaranhado de 'personalidades' que vamos usando ao longo da vida. Vamos seduzindo a tudo e a todos, como em um baile de máscaras, e no final, ao olharmos no espelho, descobrimos que enganamos a nós mesmos.


Muitas vezes ouvimos a expressão "dar a cara à tapa" - simbolizando a necessidade de sermos corajosos para enfrentar uma situação onde podemos ser julgados e expostos, mas em raríssimos momentos estamos realmente dando a cara para bater. Frequentemente estamos exibindo uma máscara para nos proteger, não para bater. Não necessariamente é ruim ou significa que não somos verdadeiros. Muito pelo contrário! Muitas vezes levamos anos construindo uma máscara que pode nos proteger de momentos de grande dor ou sofrimento. Não existe uma pessoa sequer neste planeta que não tenha desenvolvido suas próprias máscaras. Dezenas, centenas, milhares... quanto menos delas, mais corajosos nos tornamos, pois lidar com nossos fantasmas internos é uma atitude para bravos. E bravura é, sem dúvida alguma, algo raro hoje em dia. Não confunda bravura com violência!

Não é à toa que apreciamos tanto o teatro, os filmes e as novelas. Ali, apesar de temos a certeza que os personagens estão 'fingindo', sentimos prazer e nos projetamos no baile de máscaras apresentado em cada uma destas artes. É saudável, é necessário, é imprescindível... até certo ponto.

O maior perigo não é o USAR máscaras, mas sim o CAIR delas. Afinal de contas todo baile tem hora para começar e hora para terminar... o ideal é aproveitarmos enquanto a valsa ainda embala nossos devaneios, pois a carruagem sempre se transforma em abóbora quando o tempo expira.



31 de outubro de 2011

O palhaço em cada um de nós

Meus gêneros preferidos de filme sempre foram o drama e o suspense. Neste quesito sempre apreciei os trabalhos de Las Von Trier, Woody Allen, Alfred Hitchcok e por ai vai... são diretores que entendem da arte de questionar e expressar as dificuldades humanas e suas relações afetivas. Geralmente não assisto comédias porque elas mais me irritam do que me divertem. Tenho algumas exceções, claro, tais como: A sogra (Monster-in-Law, 2005), Alguém Tem que Ceder (Something's gotta give, 2003) e Simplesmente Complicado (It's complicated, 2009), pois são filmes cômicos recheados de inteligência. É muito mais difícil para um filme de comédia ser engraçado do que um drama ser pesado, isto é um fato inquestionável.

Voltando ao mundo da comédia... confesso que fui assistir ao filme "O PALHAÇO" (2011) de Selton Mello com muito receio, já imaginando que eu poderia arrepender-me até o último fio de cabelo, mas resolvi dar uma chance ao cinema nacional. Era o filme seguinte ao horário do meu almoço, resolvi apostar!

Aposta ganha! Um filme intenso e profundo que naturalmente tem a artimanha de nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo - Senton Mello consegue proezas na direção e na atuação usando a simplicidade dos diálogos e a composição natural das cores da paisagem do centro-oeste.  Tudo isso regado às excelentes atuações de atores não conhecidos do público, mas com talento e veia cômica apuradíssimos. Excelentes participações especiais de alguns atores esquecidos da telinha.

Esta obra é um exemplo claro e típico de que o sucesso pode ser atingido com a simplicidade sem a pirotecnia que os filmes modernos usam para nos chamar a atenção. Parabéns ao Selton e ao Brasil que está tateando a merecida projeção cinematográfica sem a maçante apelação sexual dos clichês!

26 de outubro de 2011

Malhação interna

Outro dia, durante minha aula de Yôga percebi uma pequena cicatriz no meu corpo que eu nunca tinha notado nem sequer me lembrava de como ela tinha sido feita... aquela observação me levou a tantos outros pensamentos que passei o restante da aula viajando no tempo e no espaço. Sempre fui muito preocupado em evoluir de dentro para fora. Talvez por isso que ao conhecer o Yôga eu tenha me identificado tanto.

Costumamos não conhecer nosso próprio corpo físico - lido com este desafio diariamente em cada ásana no Yôga que tenho que avançar, avançar e avançar quando o corpo, na verdade, já está no limite físico - e por vício e comodismo sempre colocamos nossa atenção apenas no mundo externo. É sempre mais fácil perceber os erros/defeitos nos outros do que em nós mesmos! A velha mania de apontar os dedos.

Geralmente é notório quando uma pessoa não se aceita fisica ou psicologicamente. Ela é azeda, amarga, pessimista e agressiva. Estas pessoas, negativas, estão sempre cercadas de problemas, dramas e incidentes. São reações geradas pela incapacidade de se "conhecer". Temos que ser fortes para encarar nossos próprios defeitos, pois só assim poderemos dizimá-los e/ou reduzí-los de tal forma que sejam imperceptíveis! Cultivar o bem e reduzir o mal. Iluminar de dentro para fora para que nossos 'quartinhos' escuros percam a força! Fácil não é, mas os resultados são extasiantes.

Autoconhecimento é necessário de forma infinita em nossas vidas. Acho uma discrepância a sociedade moderna que incentiva e valoriza o silicone, os corpos esculturais, os dentes artificiais, as pílulas sexuais etc mas mascaram a realidade interna. Acho necessário e altamente recomendado que as pessoas se cuidem e sejam vaidosas. Mas a vaidade isolada do autoconhecimento é algo totalmente pernicioso!

A cada quilo levantado nas academias deveríamos criar novas sinapses cerebrais lendo um bom livro, aprendendo um novo idioma, praticando uma meditação etc.

O que futuramente pode acontecer é que teremos corpos perfeitos carregando mentes desequilibradas!

2 de outubro de 2011

A árvore da Vida

É interessante como o diretor Terence Malick consegue nos extasiar já nos primeiros instantes que sua obra "A árvore da vida" (The tree of life, EUA, 2011) abre a tela. Tudo parece desconexo - para quem está acostumado a assistir filmes com narrativas lineares. Tira-nos o conforto do óbvio.

O enredo gira em torno de uma família texana na década de 50. Brad Pitt faz um pai durão e exigente, casado com uma linda e carinhosa dona de casa interpretada pela atriz Jessica Chastain. O nascimento dos 3 filhos homens dá o desfecho dramático ao exibir as etapas de sua educação e desenvolvimento.

A filme vai e volta no tempo, constantemente, fazendo com que o telespectador desatento se perca facilmente e sinta-se frustrado no entendimento da história. As imagens da natureza exemplificadas na figura de dinossauros, estranhos seres marítimos, universo e suas luzes, explosões vulcânicas e solares, é de tirar o fôlego e deixar qualquer um relaxado e pensativo na poltrona do cinema.

É um filme para "meninos" sobre meninos... é impossível assistir às cenas e não se identificar com o universo no qual elas foram retratadas. Algo mágico, reminiscente e altamente nostálgico vem à tona. Uma drama bem escrito, equilibrado e bem dirigido onde excelentes cenas geradas ao acaso - principalmente com os bebês - tão um tom de realidade absurda.

É uma obra para ser sentida, admirada e não para ser explicada ou racionalizada!

16 de agosto de 2011

As bruxas de Eastwick - A Pornochanchada Brasileira

Resolvi ir na estreia do musical "As bruxas de Eastwick" - baseado no filme americano da década de 80 estrelado por Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer e Cher. O filme dispensa apresentações. Quem não o viu, deve ir correndo à locadora. Divertido e muito interessante... é uma obra repleta de efeitos especiais. O roteiro do filme é baseado no livro John Updike.

Sempre que vou assistir alguma montagem brasileira, confesso que vou com receio. Pode ser preconceito meu, admito, mas é inevitável este sentimento. Mesmo assim eu fui... gosto de conferir.

O papel de Daryl Von Horne - vivido nas telas por Jack Nicholson - foi interpretado pelo ator global Eduardo Galvão, que mesmo tentando imitar alguns trejeitos do ator americano, deixou muito a desejar. Não conseguiu dar o timbre adequado ao personagem nem tampouco atingiu as notas musicais exigidas. O diabo, Daryl Von Horne, deveria ser sedutor, erotizador, provocador... sim, o ator global tentou, mas ficou mais caricato do que convincente. Não esotu mencionando as 3 vezes que o sistema de som falhou e o ator teve que tentar segurar as falas na voz impostada! Os efeitos especiais e o cenário estavam ótimos... quem sabe daqui uma década poderemos equiparar aos da Broadway... o papel de Fafy Siqueira ajudou o elenco a elevar a veia cômica. Ela tem talento para comédia. Inquestionável!

Uma coisa me deixou totalmente insatisfeito: a mania que o brasileiro tem de achar que só se faz comédia falando palavrão. A tão temida pornochanchada! Em menos de uma hora de musical eu contei 15 palavrões. Não estou dizendo palavrinhas de desabafo... estou dizendo PALAVRÕES. E mesmo eu tendo conferido que a faixa etária permitida era 12 anos, achei completamente inadequada. As risadas que dei foram eliminadas pelos palavrões que ouvi! Divertido, confesso que sim, mas misturar palavrões com corpos nus não é uma receita para sermos respeitados enquanto arte... o Brasil ainda insiste em ficar no rótulo erótico e seguir a linha da apelação erótica para 'tentar' vender. Depois reclamam quando os gringos vem aqui e nos tratam como 'animais' da floresta.

20 de julho de 2011

Dê-me sua mão...

Uma questão comportamental permeia as mentes humanas por séculos... o que faz um relacionamento durar e/ou definhar? Algumas pessoas acreditam que é a cumplicidade, o carinho, a fidelidade, enquanto outras pensam que é a vontade de estar juntos é que faz a duração acontecer. Para muitos, ter um relacionamento é equivalente a abdicar de suas próprias vontades. É quase sinônimo de anular-se.

Um querido amigo diz que para um relacionamento durar temos que querer, temos que abrir mão de nossas vontades individuais e nos embrenhar nas descobertas árduas da vida a dois. Ele tem uma frase engraçada que eu também compartilho: “amor por si só não é garantia de felicidade”. Mas então o que nos garante a felicidade? Podemos nos anular e ainda assim sermos felizes?

Penso que, antes de qualquer questionamento neste sentido, temos que mapear o conceito de felicidade. Para mim, ele não passa de algo individual e personalizado. Não podemos ser felizes se dependemos do outro. Temos que ser feliz COM ou SEM estar ao lado de alguém. Felicidade é um estado imaginário. É um estado intrínseco, não uma condição – penso eu.

Outro conhecido meu usou uma analogia intrigante. Ele trabalha com a sensibilidade, é fotógrafo, e está vivendo um dilema interessante. Ele acredita que para um relacionamento acontecer, deve existir um ‘querer’ de ambos os lados. Como uma mão aberta à espera da outra... o enlace não pode ser feito apenas por uma mão sozinha, ela sempre precisa do complemento da outra para que a união seja completa e complementada. Chega a ser romântica esta visão, mas é bem coerente! Soa como parceria, um auxiliar o outro. Quando eu o ouvi dizer isso, lembrei-me da primeira vez que fui à Roma e pude ver com meus próprios olhos a magnífica pintura de Michelangelo “A criação de Adão” no teto da Capela Sistina. Esta imagem me impressionou tanto que hoje mantenho uma reprodução dela na parede da minha sala. Impossível não vê-la diariamente.

O mundo atual nos faz cada vez mais distantes das pessoas e mais próximos das máquinas e dos computadores. Já presenciei inúmeras vezes, pessoas que são exímias na comunicação virtual, mas quando as encontramos pessoalmente são falhas e produzem mais ruídos do que realmente transmitem uma mensagem eficiente. Estamos desenvolvendo mecanismos elaborados no mundo virtual, mas proporcionalmente estamos atrofiando nossa capacidade de entender, sentir e compreender o outro em carne, osso e alma.

Acho interessante ouvir várias pessoas reclamarem, direta ou indiretamente, que ninguém quer nada sério, que o mundo está maluco, que as pessoas não querem namorar etc... mas no fundo estas afirmações não passam de desculpas para não terem que assumir a sua própria covardia diante de um relacionamento REAL. Relacionamento é algo para corajosos. Todo o resto, não passa de desculpas pseudo-elaboradas. Felicidade a dois é uma escolha para os bravos.

10 de julho de 2011

Meia noite em Paris

Gosto de assistir a um filme e sair do cinema com a sensação de que fui tirado do 'conforto' mental. Acredito que um dos principais papeis de um bom diretor é o de TRANSCENDER o pensamento medíocre e o senso comum. E isso, o meu preferido diretor Woody Allen conseguiu muito bem com o longa "Meia noite em Paris" (Midnight in Paris, 2011).

Já na primeira cena percebemos a admiração do cineasta pela exuberante Paris.  Somado às ótimas atuações de Owen Wilson e Marion Cotillard, temos então um estupendo momento de beleza cênica e diálogos que parecem ter saído de uma conversa entre Freud e Nietzsche no boteco da esquina - sem aquele caráter profissional. Um filme repleto de referências interessantes e piadas dignas de quem aprecia grandes artistas como Bruñel, Hemingway, Picasso, Dalí etc.

Interessantes o questionamento levantado pelo roteiro de que sempre queremos, e glorificamos, a época anterior do que a presente. Quase sempre estamos nostalgicamente idolatrando o nosso passado e, com isso, mal vivemos o presente e o que ele pode nos oferecer.

Para muitos, deve ter sido um filme comum que elogia exageradamente a cidade de Paris... mas para mim, foi um obra que me fez pensar na importância de viver os momentos diários. A cena final, perfeita, foi capaz de amarrar todos os questionamentos levantados no filme e nos dar a sensação de que sempre há uma luz no final do túnel.

Para o amor não existe meio termo!!!

5 de junho de 2011

Império dos Sentidos


Gosto de me surpreender com a visão de alguns diretores, com a mágica interpretação de certos atores e com a sensibilidade de alguns fotógrafos. Um filme bem produzido usa estes artifícios para atingir nossa alma, despertando algum sentimento e/ou nos tirando do ostracismo mental. Alguns atores nos surpreendem pela verdade com que compõem seus personagens e dão vida, movimentos, pensamentos e intenções.

Quando peguei o DVD do filme japonês "Império dos sentidos" (L'empire des sens, 1976) escrito e dirigido por Nagisa Oshima, não pensei que fosse me incomodar tanto com uma obra de ficção. Aí que mora o perigo! O drama erótico é baseado em história real, ótimo... não vejo nada demais... mas as cenas de sexo, e são a maioria, também são reais. O enredo fala de uma ex-prostituta que envolve-se apaixonadamente com o senhorio da propriedade onde ela é criada. Tudo começa como diversão e vai assumindo ares de intensidade e beirando à inconsequência avassaladora. Uma busca sem limites ao prazer total e absoluto! Prepare-se para cenas de nudez a todo instante e dispa-se de todos seus pudores sexuais.

A mistura de ficção e realidade torna-se uma só, levando-nos a confundir as dimensões e ao mesmo tempo pausar o filme - sim, eu fiz isso por 2 vezes para poder tomar água e espairecer a cabeça - na esperança de que o que eu mais temia não acontecesse, mas aconteceu! Não é o que fato em si que nos choca, mas a forma como ele é narrado e quais artifícios o diretor usa!

Eu sou, assumidamente, medroso quanto se trata de filmes de terror... não é um medo primal, pelo contrário, não consigo me divertir vendo a um filme de terror. E, para mim, cinema tem qeu ser divertido e/ou no mínimo prazeroso. Não gosto de cenas com faca, agulhas, espadas e quaisquer instrumentos usados para tortura. Império dos sentidos não tem NADA de terror, mas mexe profundamente com nossos sentidos, gerando um certo desconforto. 

Se você tiver coragem, e nervos fortes, sugiro assistir a este filme sem nenhuma criança por perto... nem mesmo aquele seu amigo descontrolado deve assisti-lo... vai saber! Bom divertimento... e depois não diga que eu não avisei! Mas que é um filme intenso, isso é!

3 de maio de 2011

Cópia Fiel


Nos tempos atuais é quase impossível definirmos o conceito de cópia x original. A dualidade autoral é quase sempre permeada por questionamentos de valores morais. A qualidade de uma peça artística depende muito do contexto e dos olhos de quem a analisa/vê. Este argumento permeia o discurso principal do personagem escritor inglês James Miller (William Shimell) nos minutos iniciais de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Por outro lado, uma falsificação pode ter a mesma validade de um original. A cópia, quase sempre, atualiza o original. É assim com uma reprodução de um quadro famoso, por exemplo. Uma cópia de mulher - um crossdresser ou um travesti - quase sempre é mais "real" do que uma mulher de verdade, feita de carne e osso - sem retoques estéticos.

O escritor James Miller está com passagem marcada para voltar para a Inglaterra após terminar sua palestra de lançamento de seu livro, mas aceita de Elle (Juliette Binoche), no papel de uma francesa dona de galeria que há anos vive na Itália com seu filho, um convite para passear pelas poéticas ruas da comuna de Lucignano.

Muito tempo que eu não assistia a um filme tão envolvente, magnético e ao mesmo tempo estranhamente sedutor. Ambos protagonistas falam fluentemente três idiomas: inglês, francês e italiano, de forma assustadoramente natural. Como se a maior barreira entre eles fosse aquela vinda da distância psicológica, e não do limite físico e/ou linguístico.

O diretor Abbas Kiarostami diz que cada um deve interpretar a obra como quiser, mas é inegável o seu sadismo em colocar o telespectador em dúvida quase todo o tempo. O perfeito jogo de cena com espelhos e reflexos, faz da película uma obra-prima sem igual, onde objetos isolados em uma paisagem de tirar o fôlego são capazes de nos tirar os pés do chão. O não-dito fala mais do que as palavras pronunciadas. O olhar da estonteante Juliette quando somado ao seu sorriso monalítico faz-nos sofrer por ela, com ela e para ela. Seduza-nos, doce Monaliza! O diretor arranca dos atores o seu melhor, como se a câmera fizesse parte da paisagem.

Uma atriz madura e segura de si, capaz de despir-se de conceitos estéticos e, ainda assim, estar linda e estonteante. Pura, simples e bela. Um show de interpretação e palmas para James Miller e Juliette Binoche, que mesmo tão distantes um do outro, parecem realmente próximos e apaixonados. Atores-cópias do mundo real, mas vindos de um mundo mágico e apaixonante, que é o cinema!

17 de abril de 2011

A educação de um povo


Eu, estupefato, diante da beleza de um Van Gogh - no MoMA de New York

Todo mundo tem um hobby - presumo, claro - e eu não fujo à regra. Na verdade, tenho vários... mas o que nos interessa agora é o VIAJAR! Estou falando de viagens geográficas e intercontinentais, porque das etéreas e mentais seja com ou sem vontade, todos nós fazemos diariamente. Certo?!

Gosto do antes, do durante e do depois... preparar a mala, ler sobre o lugar, entender os costumes etc... o choque cultural é algo que me fascina. Cito choque como algo total e completamente positivo. Têm pessoas que abominam o novo, eu sou o oposto - em se falando de viagens, principalmente! Acho que só crescemos quando nos abrimos ao novo. Se vamos aceitá-lo ou não é outra história!

Tenho experiências engraçadíssimas (e ao mesmo tempo trágicas) de muitas viagens, e a maioria delas envolve "brasileiros". Sério, não se trata de preconceito ou qualquer tipo de depreciação, não mesmo! São histórias reais...

Uma delas foi em New York, alfândega do aeroporto JFK, um casal de brasileiros e seus 3 filhos estavam na fila enquanto o marido tirou a camiseta TOTALMENTE do corpo e começou a passar um desodorante roll on nas axilas, enquanto comentava com a esposa: "Não vai dar tempo de tomar banho, amor...". Nem preciso dizer que o agente alfandegário aproximou-se dele em questão de segundos e pediu, educadamente em inglês, para acompanhá-lo. Ele retruca para a esposa: "Amor, o que ele quer?". Bom, nem vou continuar...

O legal de viajar é experimentar comidas e sabores distintos dos quais estamos acostumados a provar no nosso dia a dia. É um mimo necessário que temos que nos proporcionar sempre que estamos fora. Um restaurante francês INESQUECÍVEL que conhecí em NY é o Le Train Bleu na 3rd Avenue. Inesquecível não só pela localização - é um vagão do trem do Expresso Oriente suspenso - dentro da Bloomingdales.
Novamente, na fila de espera, chegam duas senhoras brasileiras e bem distintas conversando em alto e bom tom sobre compras 'baratas'. Ficam logo atrás de mim. Uma diz, sussurando, para a outra: "Eu não falo inglês nem francês, nem você fala. Como vamos nos virar aqui?" A outra dando um gargalhada altíssima, responde: "Ah, meu amor, a língua do dinheiro todo mundo fala!". Confesso que na hora achei engraçado, mas no fundo pensei comigo... dinheiro compra muita coisa, menos educação, princípios, valores e sentimentos verdadeiros. Valores como estes, até um analfabeto do interior do país pode ter de sobra. Não depende de dinheiro algum, nem de status!

Algumas pessoas, mesmo tendo muito dinheiro disponível para gastar, deveriam antes REpensar, REnovar e REvalorizar suas vidas antes de embarcar numa viagem fora de seus países.

É divertido, mas é mais trágico do que cômico!

20 de fevereiro de 2011

Gran Torino e Ivan Illich

Terminei de reler um dos melhores livros que eu considero: A Morte de Ivan Illich (1886). Em suas páginas o autor, Leon Tolstoi, descreve a história curta e dilacerante da vida de Ivan Illich - um prepotente e arrogante juiz que adoece aos 45 anos de uma grave enfermidade e começa um calvário de sofrimento. Descobre que não tem amigos, nem o apoio da família, muito menos do médico. Uma das cenas mais simbólicas é aquela em que ele consulta um famoso doutor que o trata da mesma forma grosseira e impaciente que ele tratava as pessoas no tribunal.

Hoje assistindo a GRAN TORINO (EUA, 2008) dirigido e protagonizado por Clint Eastwood, não pude deixar de fazer esta comparação.

Ambas as obras são dignas de admiração, não só pelo seu talento artístico e dramático, mas por nos tirar da zona de conforto tentadora que nos faz acreditar que somos melhores, diferentes e que nada disso acontecerá com a gente. Trata da velhice como ela é, sem máscaras - que por si só já é dura! Mostra que a diferença não está na idade que temos e sim na forma como tratamos as pessoas!

10 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Foi com muita ansiedade que sentei na poltrona confortável do cinema para mergulhar no mundo de Cisne Negro (Black Swan, 2010 EUA). O talento do elenco (Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder e Vincent Cassel) é inquestionável! Impactante a direção de Darren Aronofsky que mostra mas uma vez toda a sua genialidade ao dirigir este thriller psicológico!

Natalie dá vida a uma moça bela, pura e ingênua, que vive para o balé e para ser perfeita em seus gestos, atos e em seus movimentos milimetricamente ensaiados... vive à sombra da mãe - uma bailarina frustrada que transfere para filha toda a vontade de atingir o ponto máximo da carreira na dança clássica: interpretar o clássico Cisne Negro.

A dualidade (bem x mal) é um tema já exaurido em muitas obras cinematográficas, assim como na literatura e na dramaturgia, mas da forma como nos é apresentada na película, soa como nova. Podemos comparar o dilema da personagem ao mesmo vivido por Smigol em O Senhor dos Aneis: as vozes contraditórias. O tema é recorrente, mas a narrativa é envolvente e assustadoramente magnética. Digna de admiração!

Não se pode viver uma vida de extremismos quando se quer atingir o topo. Nina, vivida por Natalie, tem que aprender a despertar o seu lado negro para assim trasnferi-lo para o palco. Ela já vive uma vida regrada e direcionada ao mundo equilibrado. O desafio maior é encontrar em si mesma o lado obscuro, negro e pulsante em sua alma. Para despertar o cisne negro dentro de si, já que tanto no filme quanto na coreografia original a bailarina faz os dois papeis, ela mergulha com muita dor em deus devaneios esquizofrênicos. Não só imagina como começa a sentir e a alimentar a mesma raiva que o personagem necessita para exercer a sua máxima força - no caso, o cisne negro.

Pulsante, arrepiante, mágico, intenso, forte, questionador, arrebatador... olhando com a brancura ou com a escuridão, esta é uma obra digna da briga pelo prêmio mais comercial de todos os tempos: Oscar!


8 de janeiro de 2011

2010: o ano que paramos de conversar

Quando me pego colocando a chave na porta de casa e ao mesmo tempo checando as mensagens no celular, fico muito maluco. Onde chegamos?!

Recentemente passei quase 2 semanas nos Estados Unidos e pude comprovar na prática um dado apontado pelas pesquisas atuais: os americanos estão conectados em 93% do tempo através de celulares e redes sem fio. Os bene(male)fícios são inúmeros e inquestionáveis - depende da corrente que argumenta. Este não será o meu intuito. O que mais me assustou no comportamento americano - e que está próximo de atingirmos o mesmo nível - foi ver uma família (pai, mãe, filha e filho) na fila para um brinquedo da Disney, e todos usando o celular para digitar ou conectar-se a outro mundo que não fosse o ali presente. O sonho de tantas pessoas, estar na Disney com a família, para este pequeno grupo de pessoas não significa muita coisa. O imprescindível, para eles, é estar preso a um aparelho o tempo todo. Estar conectado a um mundo diferente do qual ele está fisicamente inserido. Seria como viver uma realidade paralela, numa dimensão cibernética. Uma válvula de escape, talvez, pela incapacidade de construir uma relação prazerosa, sadia e produtiva com o próximo.

Estamos perdendo a capacidade de sorrir, olhar nos olhos, tocar fisicamente nossos amigos, parentes, familiares e pessoas queridas. Não escrevemos mais cartão de Natal, não mandamos mais cartas, nem sequer deixamos bilhetinhos românticos de "bom dia". Agora tudo se resume em torpedo sms, scrap, depoimentos... até e-mail está ficando fora de uso.

Estamos cada dia mais esperando e buscando MAIS da tecnologia e MENOS um do outro. Amargo e cruel dilema.

21 de novembro de 2010

Zorba, o grego


Quantas pessoas você conhece que vivem a alegria da vida sem perder tempo em reclamar ou praguejar?! Quantas pessoas você tem por perto que são capazes de te mostrar o lado magnífico da vida nas coisas simples?!

O inesquecível filme ZORBA, O GREGO (ZORBA, THE GREEK)  de Michael Cacoyannis estrelado por Anthonny Quinn, gravado em 1964 no Reino Unido, Grécia e Estados Unidos, leva-nos a um banho de paisagens exuberantes, sentimentos escondidos que evitamos e inúmeros questionamentos sobre o verdadeiro valor da vida e das relações pessoais.

Zorba (Quinn) é um camponês extrovertido e exuberante com  incrível amor pela vida, enquanto Basil (Alan Bates) é um tímido e reservado escritor inglês. A amizade incomum destes dois é capaz de trasnformar a vida de Basil, tirando-o do conforto de observador do mundo para participante da vida e seus acontecimentos. A cena onde Zorba ensina Basil dançar é um exemplo claro do poder transformador do carinho e da amizade criada entre ambos: http://www.youtube.com/watch?v=2AzpHvLWFUM

Um filme cruel por mostrar o lado vil do ser humano. Um filme doce e amável por mostrar que o amor está nas coisas simples, nos olhares, nos gestos, nas palavras e nas intenções. Um filme intenso por mostrar que os valores e as crenças de um povo quase sempre são cegos a ponto de anular a vitalidade de seus habitantes.

Um filme para se ver, pensar, questionar, sentir, vivenciar e assimilar o sentido da vida, mesmo quando ela nos coloca diante de situações e momentos difíceis. Aplausos para uma obra feita no ano de 1964, mas questionadora de nossos dilemas recorrentes modernos.

1 de novembro de 2010

Comer, Rezar e Amar


Quem nunca pensou em pegar uma mochila, somente com o necessário, e sumir do mapa deixando tudo para trás? Quem nunca pensou em recomeçar num mundo distante do seu? Quem nunca quis dar fim ao sofrimento pessoal viajando para um terra desconhecida? Quem nunca se arrependeu de ter adquirido um relacionamento 'fast food'?!
Neste quesito, COMER, REZAR E AMAR (Eat Pray Love, EUA 2010) atinge em cheio as expectativas humanas, tanto as femininas quanto as masculinas - mesmo o filme ter sido baseado num best seller homônimo escrito por uma mulher com uma visão espiritualizada da vida. O longa não trata da visão macho ou da visão fêmea, pelo contrário, descreve as diretrizes metafísicas do ser humano diante de uma vida insossa, desprazerosa e vazia. Uma vida onde a encruzilhada exige uma tomada de atitude ou tudo irá ruir intensamente.

Acredito que muitas vezes, durante nossa vida, perdemos nossos valores em prol do medo de sofrer. Escolhemos ser infelizes porque estamos em busca da felicidade a dois a qualquer preço. Descobrimos depois de anos que a felicidade, além de ser um estado de espírito, pode estar conosco o tempo todo, nem sempre precisamos ir a outro continente para atingi-la. A viagem necessária é de fora para dentro - aquela viagem corajosa, cara e desbravadora. O mundo fast food não contribue em nada nesta jornada. Estamos na era high speed... não há tempo nem espaço para pessoas dial connection.

Posso afirmar que o longa não deixa nada a desejar comparado ao livro. Por serem mídias distintas, não podem ser equiparadas, seria injustiça da minha parte querer fazê-la, mas indubitavelmente são complementáveis! A ordem de acesso, certamente, deve ser livro x filme.

Tenho amigos, queridos por sinal, que estão na fase COMER... pagam o preço desta atitude. Alguns estão buscando a fase REZAR... mas a maioria quer AMAR, mas não abandonam os vínculos, vícios e os comportamentos obssessivos que não combinam com amor. Para eles, acredito que só o tempo dará a resposta - se estiverem preparados para obtê-la, claro.

Uma lição é única: qualquer pessoa que passa em nossa vida, é um MESTRE. Com ela aprendemos a ser, não ser, sentir, não sentir, amar, odiar, querer, desejar, desprender... o tão falado "aprender com a dor".

A viagem mais difícil da minha vida, foi quando decidi encarar minhas sombras, meus medos, minhas falhas, meus demônios... confesso que até hoje eles me assustam, mas agora sei que eles existem. Prefiro ter medo de algo que tenho absoluta certeza que existe do que viver no sofrimento eminente de algo que talvez exista somente em minha imaginação.

Bom... se viajei demais - com o perdão do trocadilho - vá assistir ao filme e tudo que mencionei aqui terá um sentido. Eu te garanto!

27 de setembro de 2010

Carroça Humana



Na nossa correria cotidiana acabamos nos irritando por qualquer coisa, até por quem está catando lixo para sobreviver. Em Sampa é extremamente comum vermos o "homem-formiga" - também conhecido como carroceiro - cortando caminho, vagarosamente, entre carros, motos e pedestres. Entre gás carbônico, detritos e esgoto, ele está sempre carregando suas tralhas - geralmente pilhas de papéis, plásticos, pneus, vidro, grades, móveis e todo tipo de quinquilharia que NÓS usamos e descartamos. Com a ajuda deste zé-ninguém, mais de 9 bilhões de latinha são levadas para reciclagem.

Uma amarga ironia, pois o lixo que descartamos acaba se voltando contra nós e/ou contra nosso egoísmo cotidiano. Não é ele que vai devagar, somos nós que estamos apressados demais. Concordo, ele realmente atrapalha a correria dos paulistanos estressados por natureza, mas custa termos um pouco mais de paciência e respeito por quem está sobrevivendo com os restos que nós abandonamos?!

Ele, além de tudo, não está poluindo nossos ares nem tampouco está emitindo gases tóxicos que nos adoece cada dia mais.

Ele não existe em lugar nenhum, não tem PIS, nem endereço fixo, nem sequer registro bancário... ele vive SEM cd, dvd, celular, TV de led, cinema, roupa, iPod, computador etc... e você ainda se irrita quando ele, por necessidade, atravessa seu caminho?

Que mundo você, realmente, vive?!

22 de setembro de 2010

O Brasil dos espíritos


A oferta de filmes esotéricos está grande, logo a procura está maior ainda. Este silogismo me fez pensar nas verdadeiras razões - pelo menos pesquisar sobre elas - que faz um ser humano buscar "crer" no lado oculto da vida. Em todas as expressões religiosas, ou em suas maiorias, a crença na vida após a morte é praticamente inquestionável.

O cristianismo defende a tese que as almas vão para o Céu, o reino de Deus, ou para o Inferno, o reino de Satanás. O Islamismo diz que Maomé recebeu o livro sagrado, o Corão, diretamente de Alá (Deus) e seus seguidores transcreveram as visões para o árabe. O Budismo adota o conceito que o ciclo de morte e reencarnação só acaba quando o indivíduo aprende a livrar-se dos desejos. Já o Espiritismo prega que as pessoas ascendem para um plano superior onde a existência é apenas espiritual, dependendo das qualidades cultivadas em vida.

Não posso deixar de mencionar que acreditar em espíritos e/ou vida após a morte era um costume dos índios que pensavam que os mortos permaneciam convivendo com os habitantes da tribo por um tempo determinado. Somado a isso temos os escravos trazidos da África que acreditavam ter contato direto com o mundo dos mortos, e suas crenças foram espalhadas por todos as classes sociais.

Acho isso tudo um tanto curioso... e nada me tira a vontade incontrolável de cruzar religião com ciência, antropologia, biologia etc. O que todos abominam, discutir assuntos tão pessoais, é o que mais me instiga.

O bate-papo com quem já partiu deste mundo é uma das bases principais do espiritismo desde o seu surgimento na França no século XIX, mas só frutificou no Brasil. O espiritismo foi codificado em 1857 pelo pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, vulgo Allan Kardec. Em seu país natal ele é considerado um pensador de pouca importância por não ter contribuído em nada com a história da filosofia. Os franceses confundem o espiritismo com bruxaria. Por não ser concorrente do catolicismo, o espiritismo atrai muios praticantes católicos no Brasil, aumentando assim a sua divulgação, pois têm poucos dogmas e quase nenhuma hierarquia.

Esta crença de vida posterior, em grande parte, é baseada em visões e experiências de pessoas que, após serem declaradas mortas, se recuperaram - espontaneamente ou por cuidados médicos. Relatam visões e sensações que a medicina define como sendo experiência de quase morte. Alguns afirmam até ver uma luz no final de um túnel. O mais interessante ainda é perceber - comprovadamente - que a tecnologia moderna é capaz de captar imagens cerebrais destes momentos e concluir que, durante o coma, pouco antes da morte, ocorre uma descarga elétrica cerebral muito forte, favorecendo estas sensações/visões. Estes impulsos, segundo alguns cientistas da Universidade George Washington nos EUA, são capazes de gerar um nível parcial de consciência que induz as pessoas a ter visões e alucinações.

E você, prefere acreditar/duvidar do que?