25 de janeiro de 2017

La La Land - Cantando Estações

Quando conseguimos nos transportar para a tela e esquecer alguns minutos da nossa vida real, a meu ver, podemos dizer que o filme é de sucesso. Mesmo que este sucesso seja individual para o telespectador único sentado na poltrona. Qual é o valor de uma obra (filme)?

Começar um filme/musical (La La Land - Cantando Estações, 2016) com um ousado plano sequência em uma rodovia em direção a Los Angeles em um engarrafamento de carros, por si só ja é ousado! Não pelo fato em si, mas pela técnica apurada, coreografia exímia e por bailarinos rodopiando admiravelmente! Como se não bastasse, temos ainda a direção de um jovem e talentoso Damien Chazelle (com um sucesso já aclamado pela crítica "Whiplash") que ousa sem medo e acerta em cada mistura de fantasia e realidade, sonhos e frustrações, alegrias e choros... um mix que nos faz percorrer todas as emoções que normalmente treinamos esconder e domesticá-las. Aquelas emoções que nos colocam em fragilidade emocional e aprendemos a duras penas não demonstrá-las.

Falar de Jazz de forma apaixonante é a vida do pianista vivido por Ryan Gosling que se esforça para cantar, dançar e tocar piano... convence, embora fique claro o seu esforço para tal!
Já Emma Stone, aspirante à atriz e trabalha como barista na Warner Bros, o dançar e o cantar soa como viscerais, tais como se ela estivesse realmente vivendo o papel de sua vida! Convence, emociona e nos tira os pés do chão diante de tamanha entrega pela personagem!

O musical nos faz pensar nos sonhos que abandonamos ao longo da vida, nos desejos retraídos, nas frustrações mal resolvidas, nas escolhas mal feitas, nos acasos da vida e o quanto somos responsáveis - ou não - por tudo isso! Reflexão digna de Descartes: "É necessário que ao menos uma vez na vida você duvide, tanto quanto possível, de todas as coisas".

Uma homenagem explícita ao grandes musicais. É o renascimento deste gênero. É um filme obrigatório. É sem dúvida, um forte concorrente à famosa estatueta Americana.

13 de julho de 2015

Divertida Mente - as pequenas vozes dentro de sua cabeça

Depois de um longo tempo sumido, os estúdios Pixar/Disney voltaram a todo vapor! Conseguiram criar uma atração que agrada adultos e crianças. Adultos de todas as idades e crianças de todas as idades. Ou até mesmo adultos-criança ou crianças-adulto. Não fica ninguém de fora, embora comercialmente seja indicado para os 6 anos em diante.

Divertida Mente (Inside Out, EUA 2015) é uma animação com conteúdo e diversão na medida certa. O pano de fundo é o que acontece na mente da pequena Riley quando seus pais decidem mudar de cidade, saindo do Estado de Minnesota para morar na cidade de São Francisco. Riley convive com emoções distintas: a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza - representadas por personagens bem definidos por cores e traços únicos. 

Os roteiristas identificaram por volta de 27 emoções diferentes, mas decidiram usar apenas 4 no filme, pois assim seria mais fácil o entendimento. Supresa, Orgulho e Confiança foram algumas das emoções cortadas. O diretor Pete Docter afirma que cada emoção é baseada em uma feição. Por exemplo, a Alegria em uma estrela, o Medo é um nervo exposto, a Raiva é um tijolo, a Tristeza é uma lágrima e o Nojinho é um brócolis.

As memórias-base são explicações para o que mantemos em nossa memória e a forma como armazenamos as informações combinadas às emoções que as geram. Uma inteligente sacada para explicar aos pequenos a forma como a nossa mente funciona! Uma analogia digna de aplausos!

Vamos crescendo e vamos perdendo algumas emoções e adquirindo outras... eis a vida adulta!

Enquanto o mundo nos diz que "tristeza" é algo ruim e que temos que combatê-la o tempo todo, o filme a coloca como algo às vezes necessário para mantermos o equilíbrio na vida. A "alegria" é querida e desejada por todos, mas por si só não nos faz melhores. Ser alegre o tempo todo é garantia de sermos felizes por dentro?! O que nos define enquanto pessoa?!

É uma bela metáfora da vida... imperdível!


Para sempre Alice


Quando me proponho a sentar e assistir a algum filme com Julianne Moore, vou sem medo... certamente será um momento único e sui generis! Moore preencha a tela com seu talento gigante. A cada descoberta feita pela personagem, sentimos que Moore entrega-se de corpo e alma às emoções vividas por Alice - a protagonista.

"Para sempre Alice" (Still Alice, EUA 2014) é um daqueles filmes que mexe com sua alma e seus valores mais íntimos. Um deles, o medo de perder a memória, tão corriqueiro quando se fica idoso.

O filme foi baseado no romance da autora Lisa Genova que conta a história de Alice Howland, uma linguista de sucesso, que é diagnosticada aos 50 anos com Alzheimer. Uma doença rara para esta idade.

A todo instante o filme nos faz pensar no que é realmente importante em nossa vida, quais os sentimentos e valores que realmente são importantes... 

Se você é uma daquelas pessoas que gosta de pensar, repensar e reavaliar seus valores e sentimentos, sem dúvida alguma este filme vai mexer com você! Vá sem medo!


25 de julho de 2014

"Feicibuque e zapi zapi"... um novo estilo de vida?!

É inegável que a tecnologia nos aproximou e trouxe inúmeras facilidades à nossa atribulada vida contemporânea. Isso, sem falar na saúde e nas possiblidades de cura e tratamento para diversas doenças até então incuráveis.

Podemos efetuar compras, ler notícias, estudar, adquirir conhecimento dos mais variados assuntos, assistir a filmes e documentários, entender a cultura de outro país, aplicar dinheiro, jogar etc. Podemos matar saudades daquela pessoa querida que está do outro lado do planeta, e com apenas com um clique… voilà… podemos ver e ouvir o ente querido com uma assustadora rapidez e perfeição, tal como se estivesse ao nosso lado. Infinitas possibilidades estão diante de nossas mãos. Um mundo sedutor. E como toda sedução, esconde o perigo em suas entranhas. A serpente que nos seduz a morder a maça. Depois da mordida, inevitavelmente, nos vemos viciados e dependentes tecnológicos. E como tudo na vida, se exercitamos uma característica excessivamente, outra ficará atrofiada. Obter quase tudo rápido e pronto, dentre outras tantas coisas, nos deixa preguiçosos e acomodados.

Uma ferramenta popular e muito utilizada atualmente é o facebook – aquele aplicativo desenvolvido, a princípio, para conectar pessoas. Ninguém quer saber o endereço postal de ninguém (carta ou cartão postal já são objetos de museu), muito menos utilizar o telephone fixo (será que vai durar até quando?!). As pessoas querem o seu whatsApp (popular aplicativo para smartphones criado para troca de mensagens de texto, video e imagens, que utiliza seu número de celular para se conectar) e seu e-mail para encontrá-lo nas redes sociais.

Esta grande maioria, quando embrenhada nas redes sociais, quer parecer feliz, bem-sucedida, descolada, rica, querida e ocupada. Nesta linha, temos as famigeradas “selfies” com seu inseparável ‘bico de pato’ e os dedinhos em forma de ‘V’. E temos autofotografias em situações e cenários cada vez mais inacreditáveis. Ontem mesmo pude ver uma fotografia em uma matéria do NY Post sobre redes sociais na qual uma jovem sorridente estava com o complexo dos campos de concentração de Auschwitz ao fundo e sorria para a camera, com dedinhos em ‘V’ e com a legenda: Estou em Auschwitz!!!
Será que ela realmente tem ideia do que aquele lugar representa para toda a humanidade?!

Todos querem postar lugares lindos, look com roupas estilosas, festas interessantes, viagens divertidas, jantares com amigos queridos… um conto de fadas moderno. Podemos dizer que querem compartilhar os momentos felizes com as pessoas que conhecem. Sim, pode ser esta a verdade para uma pequena parcela. Raramente alguém quer destacar o dia que acordou atrasado e está com cara amassada ou mesmo o rosto sem maquiagem nem tampouco o cabelo sem a indefectível chapinha. Não queremos falar do dia-a-dia como ele é, queremos falar apenas do que parece ser agradável e daquilo que pode nos elevar diante da percepção alheia.

Somos felizes, alegres e sorridentes no mundo virtual. No mundo real, temos inúmeros zumbis com fones de ouvido que perambulam sem saber ao menos como se comportar ao lado de outras pessoas. Olhar nos olhos, jogar conversa fora numa fila de banco, dizer ‘por favor’ ou ‘obrigado, oferecer ajuda para segurar a porta do elevador, dar passagem de carro a um pedestre etc, virou raridade, pois todos estão ocupados com os dedinhos nervosos à procura de algo – que nem sabem exatamente o quê - em seus celulares. Muitos, sem saber o que querem, fingem mexer em seus aparelhos na intenção de parecer ocupado diante de um lugar publico – evitando assim ter que se conectar com o mundo real. Válvula de escape. Fecha-se para o mundo real e vive-se na virtualidade. Alguns estudiosos já afirmam que vivemos mais tempo no mundo virtual do que no real.

Mundo real não permite filtro na imagem para faze-la mais interessante nem tampouco edição no que se fala ou ouve. Sem photoshop a vida parece cruel e sem piedade. Perdemos a capacidade de nos comunicar com quem está ao nosso lado. Estamos ocupados em valorizar quem está distante ou simplesmente do outro lado do aparelho celular.

O interessantíssimo filme “Ela” (HER, EUA 2014) protagonizado por Joaquin Phoenix levanta questões cruciais para a sociedade atual. Uma delas é a banalização das relações interpessoais e a possibilidade de se relacionar com uma máquina – no caso um sistema operacional – que poderá suprir algumas necessidades humanas de forma mais rápida e objetiva do que um humano seria capaz. E mostra como estamos caminhando para um mundo onde a solidão é inevitável. Onde as buscas por prazer tornam-se mecânicas e insossas.

Seria clichê questionar a nova forma de relação humana através da tecnologia ou seria, por um outro lado, apenas um desconforto que a realidade nos oferece?



11 de julho de 2013

Gatsby X Meia-noite

Sim, eu sei que a luta é totalmente descabível. Não se pode comparar obras tão distintas no propósito e na origem... mas os opostos também são interessantes! A dualidade é muito pertinente neste caso. Enquanto um explora o plástico, o outro aprofunda o inefável e o emocional.

Quando sentei-me no escurinho mágico do cinema para assistir a "O Grande Gatsby" (The Great Gatsby, EUA, Austrália 2013), fui a contragosto. Não gosto e nunca gostei da atuação do DiCaprio - eu o acho um péssimo ator que sempre encarna o mesmo tipo em todos os personagens. Ele, por ser uma estrela de grande porte comercial, sempre pega excelentes roteiros. Nada contra o ator em si, mas mesmo tentando me despir de todo pré-julgamento artístico, lá fui eu... o que posso dizer do filme? Estonteante, luzes, luxo, riqueza, beleza plástica, lindos corpos e rostos, bom gosto, paladar, alegria, cores... é tudo isso. Aliás é só isso! Para mim, não passou de uma versão primo-pobre de Shakespeare no estilo dois mocinhos brigando pelo amor (e posse!) da mocinha com final trágico. A trilha sonora é bem interessante, para quem gosta de música dançante! O enredo é maçante, cansativo e previsível! Comercialmente é perfeito. Artisticamente é dispensável!

Feriado no meio da semana nos pede uma sessão de cinema, claro! E por sorte extasiante do destino, consegui comprar ingresso para "Antes da meia-noite" (Before midnight, EUA, Grécia 2013). Lembro profundamente do furor que os 2 filmes anteriores da trilogia (Antes do Amanhecer - 1994 e Antes do Pôr-do-Sol - 2004) causaram em mim e na forma como eu interpretava e sentia as coisas do coração e do ser. O roteiro retoma a história onde foi interrompida anos atrás pelo casal. O filme trata de momentos da vida real, sem pirotecnias e artifícios digitais tão comuns hoje em dia. Aprofunda nas discussões e dilemas de uma casal depois que passa tanto tempo juntos. Traz uma série de conversas e discussões altamente embasadas por pilares de cultura e filosofia. Consegue nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo. Conseguimos rir de nossos medos espelhados nos protagonistas. Conseguimos nos irritar com nossos próprios erros interpretados na mágica tela do cinema. Filme para meditar, pensar, digerir... uma obra de arte única. Um dos raros casos em que o terceiro longa consegue superar os anteriores. Um mergulho intenso no mundo escondido de nossas particularidades mundanas e humanas. Palmas para o diretor Richard Linklater que filmou o longa em apenas 18 dias na Grécia. Louros para os protagonistas que ajudaram no roteiro e na direção. Voilà!

18 de maio de 2013

A caça

Engraçado como ao longo da vida vamos acumulando coisas, pensamentos, paradigmas e comportamentos que se tornam viciantes. É corriqueiro ouvirmos nas conversas do dia-a-dia afirmações como: "Criança não mente", "Ele é sem educação", "Todo homem trai" etc e por ai vai uma série infinita de frases que vamos repetindo automaticamente... muitas das vezes nem temos opinião formada sobre elas.

O filme "A Caça" (The Hunt, 2012 Dinamarca) mexe com os valores ético-morais agregados às crianças. Faz-nos pensar, repensar e rever inúmeros conceitos arraigados que temos a respeito das situações que a vida nos traz e que, por mais ingênuo que a pessoa seja, não fica imune a algumas artimanhas do destino. O diretor Thomas Vinterberg consegue nos chacoalhar e nos tirar do chão ao exibir os conflitos que vão sendo formados a cada nova cena.

No enredo, o excepcional ator Mads Mikkelsen vive Lucas, um pacato e honesto 'professor' que trabalha em uma creche. Ele é amado por todos e tem um temperamento easy going. Tudo vai bem até que, certo dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp - excelente atuação da atriz mirim! Se bem que, eu a escalaria para um filme de terror devido às expressões aterrorizantes que vêm de seu olhar...) de cinco anos, diz para a diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Na realidade, a pequena Klara apenas quer, com esta afirmação, vingar-se de Lucas por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por ele e por ter tentado beijá-lo na boca de forma ousada, confundindo carinho com uma doentia paixão platônica. Sendo filha do melhor amigo de Lucas, a pequena Klara desencadeia uma série de desentendimentos entre todos os moradores da pequena cidade. Lucas é rejeitado, perseguido e maltratado por todos. Até seu filho, afastado devido a um divórcio complicado, sofre com esta situação e reage de forma agressiva na tentativa de estar ao lado do pai.

Geralmente reagimos ao que vemos e ao que ouvimos sem realmente analisarmos as situações de forma mais profunda e consistente. A figura da criança pode ser equiparada aos nossos sentimentos mais selvagens e instintivos - por consequência difíceis de domar. O confronto moral é inevitável. Prepare-se para assistir a uma obra inquietante, questionadora e, ao mesmo tempo, visceral. Desfaça de seus critérios de julgamento e permita-se assistir sem julgar - ainda que não seja uma tarefa fácil.

10 de maio de 2013

Você tem nomofobia?

Tornou-se corriqueiro ouvir lamúrias e assuntos íntimos da pessoa ao lado falando ao celular no metrô, ônibus, rua, shopping, consultório etc. Posso dizer que a tecnologia celular mudou muito a nossa vida. Quando menciono 'mudou', quero deixar claro com isso que foram mudanças favoráveis e outras tantas desfavoráveis. Proporcionalmente, acredito que estamos em desvantagem...

Estamos vivendo uma realidade substancialmente alterada de forma intensa. Hoje temos mais aparelhos celulares do que habitantes. Segundo a Anatel, a quantidade de linhas de celulares habilitadas no Brasil está próximo de 263 milhões. Isto quer dizer que há mais linhas do que habitantes!

É inquestionável que a tecnologia faz parte de nossas vidas quase que integralmente. Com um aparelho celular moderno podemos pagar contas, localizar endereços, tirar fotos, falar com amigos, enviar mensagens, mandar e-mails, despertador, calendário, fazer compras, check in de viagens etc. Sim nossa vida ficou mais fácil. Seria exemplar se usássemos o tempo que teoricamente economizamos para socializar com amigos, família, namorado(a), mas infelizmente isso não acontece. Já presenciei inúmeras vezes, principalmente em aeroportos, várias famílias ou casais conectados à internet ao mesmo tempo, apenas sentados próximos. A distância sentimental é animalesca! Estão conectados com outro mundo e ao mesmo tempo ignorando a pessoa que está a seu lado. Nem estou falando na falta de educação e deselegância!

Aquelas pessoas que sentem necessidade de estarem conectadas o tempo todo e não desgrudam do celular nem para ir ao banheiro ou dormir, têm algum problema e/ou desconforto psicológico interpessoal de adaptação ao mundo real. A maioria pensa, inconscientemente, que se não estiver on line poderá perder muitas coisas. Sim, este é o raciocínio de quem é viciado: sempre encontra desculpas para justificar seus comportamentos. A quantidade de pessoas nesta situação é tanta que até criaram um nome para esta 'fobia'. Veio do inglês: 'no mobile' ou algo como "no-mo" (+ phobia), que se transformou em nomofobia, isto é, medo de ficar sem acesso móvel!

E os chamados 'dependentes da tecnologia' perdem facilmente o autocontrole e, inevitavelmente, trocam a companhia de amigos por um dedilhar constante e sorrisos solitários diante da tela do smartfone. É a chamada válvula de escape, onde o viciado afasta-se temporariamente de seus problemas e de suas aflições pessoais. Mergulha em uma realidade paralela, uma vez que a sua vida 'real' é sem sentido e desprovida de valores.

Um mundo de solitários e viciados... rumo à solidão existencial!


Até a eternidade

Um grupo de amigos decide manter as férias anuais na praia mesmo após um evento traumático com um de seus companheiros. A relação entre eles, suas convicções, senso de culpa e amizade são levados às últimas consequências após este episódio. Finalmente, eles são forçados a confessar as mentiras que têm contato uns aos outros e encará-las da maneira mais real possível.

Até a eternidade (Les petit mouchoirs, FRA 2012) inicia-se com um extraordinário plano-sequência de tirar o fôlego pelas ruas de Paris. Iluminação, cores e enquadramento estão perfeita sintonia... após o episódio inicial, o telespectador é guinchado às próximas cenas, tentando ao mesmo tempo compreender os motivos das reações de cada personagem diante do problema.

É inquestionável o talento dos protagonistas... cada um consegue passar seus temores, suas dúvidas, seus anseios e suas culpas apenas utilizando olhares, sorrisos, pequenos gestos e sutis movimentos. Aplausos extras para Marion Cotillard e François Cluzet (que a meu modo é a cara do ator americano Dustin Hoffman e até poderiam ser irmãos gêmeos em outro filme!). Ambos atores colecionam películas de sucesso. Ela com o emocionante "Edith Piaf" e ele com o arrebatador "Intocáveis". Também é notável a participação de Jean Durjadin, conhecido pelo filme vencedor do Oscar "O artista".

É raro hoje em dia um filme que nos comove, nos diverte, nos questiona, nos irrita, nos amedronta, nos surpreende e nos faz suspirar ao mesmo tempo que nos mantém com os pés na realidade. Isto é, baseia-se em fatos cotidianos sem nenhuma pirotecnia moderna. Sem nenhum excesso de tecnologia para construir o seu enredo. Prende a atenção porque fala das mazelas do ser humano. Suas esquisitices, seus medos mais escondidos, suas fragilidades e suas fortalezas.

É impressionante a quantidade de emoções que o filme nos faz sentir e reviver, trazendo à tona lembranças  de momentos passados e que até hoje tinham sido hermeticamente alojados em algum cantinho de nossa mente.

Palmas prolongadas para o diretor Guillaume Canet que conseguiu extrair o melhor de cada ator, dando vida e muita sinceridade em cada emoção representada. É uma obra para os apreciadores de filmes europeus. Permita-se... 



4 de março de 2013

As Aventuras de Pi

Um certo domingo você escolhe ir ao cinema para assistir a um filme que parece ser divertido, meio infantil e leve... mal sabe que este filme irá mudar seu dia profundamente!!!!! Assim foi minha tarde domenical ao assistir AS AVENTURAS DE PI (LIFE OF PI, EUA 2012) magistrosamente dirigido por Ang Lee.

Quando lemos o roteiro... nos deparamos com algo do tipo "Pi (Suraj Sharma) é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia, que após anos de cuidados precisa ser repassado à prefeitura. Com ideia de se mudarem para o Canadá, a família coloca os animais em um cargueiro e embarcam. Durante um terrível tempestade, o cargueiro naufraga... somente Pi sobrevive e após sair ileso em um bote salva-vidas, precisa dividir o espaço com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker". Algo totalmente leve... não é? Pois é, mas para mim não foi!!!!

Um filme questionador recheado de fábulas no estilo Esopo e permeado com falas extremamente inteligentes e cômicas... este tipo de filme geralmente são os mais densos, metafisicamente falando! Tudo começa leve, música indiana de fundo, animais exóticos... uma espécie de video para meditação em um destes Ashram da Índia... uma perfeita preparação para o mergulho profundo na mente da natureza humana!!!!

A nossa natureza é confrontada com a animal de uma forma inteligente, filosófica e profundamente coerente! Emoções são trazidas à tona em meio a muitas dúvidas, incertezas, descobertas e intensas reações... enquanto o final traz em si um teor cármico e questionador!!!!!

No meio a tantas emoções, seria impossível não chorar... trazer aquele choro regado à descobertas de que suas dúvidas e incertezas internas também são compartilhadas por um estranho que é tão diferente de você! Dúvidas estas que suplantam qualquer desejo de achar-se certo em alguma coisa nesta vida! 

Uma desconstrução para viver o novo... salve Ganesha!!!!

25 de fevereiro de 2013

Tem coragem de amar até o fim?

Penso que é inevitável não termos medo da velhice... este momento sombrio da vida onde não saberemos como estaremos, muito menos onde nem tampouco com quem! Também não podemos negar que os tempos atuais é cruel com a terceira idade, ou melhor, com a melhor idade - termo politicamente correto utilizado atualmente. Se estamos ao lado de quem amamos, certamente fica mais fácil cruzar esta ponte. Será mesmo?

A atuação do casal de velhinhos no filme faz qualquer um pensar, repensar, tripensar, polipensar... na vida, nos valores, nos medos, nas carências, nas amizades, na família... pensar! Que talento, que sutileza, que profundidade..! A sincronicidade na atuação de ambos nos leva crer que se trata de um documentário, não de uma encenação. Os magníficos atores vivem Georde (Jean-Louis Tingnan) e Anne (Emmanuelle Riva) que vivem aposentados num apartamento. Têm uma filha musicista que vive em outro país. Após um derrame sofrido em casa e ter por consequência um lado do corpo paralisado, Anne fica dependente dos cuidados do marido. Passam por delicados momentos que colocam à prova a força do amor de um pelo outro.

AMOUR (2012 FRA) é um filme corajoso em todos os sentidos... é sensível ao extremo, é intenso, é questionador, é frio sem ser cruel... a encenação da vida como ela é, sem cortinas!

As cenas brincam com nossa imaginação a todo instante. Provocam nossos medos, nossos desejos e acordam nossos transtornos mentais... sim, quem não os tem?!

Se for corajoso, assista!!!! Se sobreviver, me conte o que achou!!!!!


27 de janeiro de 2013

Você já leu um livro hoje?

Penso que somos uma somatória do que formos acumulando ao longo dos anos. Um amontoado de amarguras, dúvidas, vontades, dívidas, desejos reprimidos, sonhos frustrados, alegrias, conquistas, prazeres, amizades, decepções, amores, dissabores... tudo  vai se decantando no baú mental que vamos empilhando muitas vezes inconscientemente!

Acredito ainda que é praticamente Impossível estar alheio a todas estes acúmulos... mas podemos, de certa forma, minimizar os impactos negativos que este acúmulo pode nos empurrar. Por exemplo, quando lemos um bom livro, assistimos a um bom filme, estamos certamente equilibrando este descompasso mental.

Considero os livros abaixo obras dignas de admiração... e necessitam de releituras frequentes... a cada página folheada, um novo mundo se abre... e outros, sem dúvida alguma, são fechados!

01. O Efeito Sombra (Deepak Chopra)
02. Decifrar Pessoas (Jo-Ellan Dimitrius)
03. Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)
04. Inteligência Emocional (Daniel Goleman)
05. Quando Netzsche Chorou (Irvin D. Yalom)
06. Sugar Blues (Willian Dufty)
07. O Sutil Desequilíbrio do Stresse (Bel Cesar)
08. Othelo (Willian Shakespeare0
09. O Corpo Fala (Pierre Weil)
10. Colunas do Caráter (S. Julio Schwantes)
11. Além do Bem e do Mal (Nietzsche)
12. O Mundo Assombrado por Demônios (Carl Sagan)
13. Fora de Série Outliers (Malcolm Gladwell)
14. Um Novo Mundo (Eckhart Tolle)
15. Lavoura Arcaica (Raduan Nassar)

Você já leu algum deles? Teve o mesmo efeito em sua vida?


5 de janeiro de 2013

Vegas & Eu


MGM Grand - David Copperfield Jan 03rd, 2013
Não existe uma cidade que represente o capitalismo da forma mais exorbitante do que Las Vegas. Quando se chega à cidade pela primeira vez, é praticamente inevitável não ficar de boquiaberto diante de tanta grandiosidade.  Prédios gigantescos com infinitas luzes de neon que emitem raios hipnóticos o tempo todo, tentando te seduzir para o mundo do consumismo. Sim, tudo em LV nos leva a gastar e/ou nos lembra dinheiro. 

A cidade do entretenimento oferece excelentes opções para diversão a todo público. Andar pelos hotéis com suas estonteantes decorações temáticas e visitar seus casinos, que são abertos ao publico em geral, é em si uma diversão garantida. Como jogar e beber não é o meu forte, não emitirei opinião a respeito, mas diria que 90% das pessoas que visitam LV está pensando na vertente jogo x bebida x cigarro x erotização. Existem as exceções... e elas que dão o equilíbrio à cidade com fama de esbórnia. 

Pude experimentar algumas situações únicas e inesquecíveis .. o estonteante e onírico Cirque du Soleil com seu aquatico O; o divertido e animado Frank Marino a frente de um grupo de Drag Queens no Divas; o intenso e exageradamente heavy metal Criss Angel com o seu Believe; a única e sem igual Celine Dion com seu emocionante e arrepiante show no Coliseum do Caesar's Palace e, claro, o tradicional, divertido e alto astral David Copperfield com seu espetáculo de mágica e ilusão onde usa a plateia para quase todos seus números,  fugindo um pouco do estigma de ser uma estrela intocável  Prova disso que no final do espetáculo ele cumprimenta, tira foto e conversa com os fãs da fileira VIP. E, claro, lá estava eu esfuziante para conhecer a estrela que eu via na TV desde a infância fazendo seus truques de desaparecimento memoráveis. Apertei a mão, cumprimentei, tirei foto (esta acima) e ainda troquei algumas palavras com o mágico mor... pensa comigo: que estrela faz isso hoje em dia?! Gostei!

Mesmo no inverno com temperaturas beirando a 09 graus Celsius e com seu clima seco, que castiga os narizes sensíveis, Las Vegas nos arrebata os olhos, a alma e os sentimentos, diante de tantas opções para seduzir nossos sentidos e nos fisgar o bolso. O culto ao belo, ao grandioso, ao inesperado e aos prazeres está por toda a cidade!

Beber, dançar  pular, gritar, rir, chorar, emocionar, perder, ganhar, apostar, gargalhar, torcer, excitar, cantar, gastar, andar, cansar, comprar, sonhar, admirar, desejar, planejar... eis LV!

E como disse Frank Marino... what happens in Vegas, stays on facebook! Hilário!

Inesquecível... e garantia de retorno!

21 de setembro de 2012

A delicadeza do amor

A vida nos ensina quase que diariamente a lidar com imprevistos e situações que testam a nossa força interior  e o nosso senso de sobrevivência. Esta talvez seja uma das mágicas de viver: a imprevisibilidade dos acontecimentos e do que nos espera no futuro - futuro este que pode ser daqui 5 minutos ou daqui 5 anos!

Nossos valores ético-morais podem virar-nos de cabeça para baixo quando nos deparamos com uma situação com a qual não fazíamos a menor ideia que poderia nos acontecer. A morte de um ente querido, por exemplo, é uma delas. Quem já perdeu alguém próximo e/ou alguém que amava intensamente vai entender completamente o que estou mencionando. Com este cenário encontramos a personagem de Audrey Tautou, Nathalie, que é doce, jovem, linda, inteligente e tem um casamento digno de conto de fadas, com tudo no lugar certo! Um acidente muda completamente o rumo das coisas em sua vida e a faz repensar, reformular e reavaliar praticamente a sua vida integralmente.

As cenas, os gestos, as tomadas, as cores, a música, o silêncio, a tonalidade, o oculto... são fatores altamente motivantes no filme A DELICADEZA DO AMOR (LA DÉLICATESSE, PARIS 2011). O filme em si é capaz de se sustentar com a suavidade, a leveza e a profundidade com que trata as emoções tão fortes e avassaladoras. O conceito de felicidade é questionado a cada instante, paralelamente ao questionamento levantado do conceito estético da beleza. É possível apaixonar-se por quem é considerado feio?! O filme é recheado de lutas, medos, anseios, sorrisos, gargalhadas. É muito poético ao narrar os mergulhos existenciais feitos pela personagem principal ao tentar recuperar-se de tamanha dor sofrida. 

A vida é feita de ciclos... e por mais que você não admita, uma coisa não temos como mudar: um novo ciclo se abre apenas quando você encerra, literal e integralmente, o ciclo anterior. Fácil não é... e é justamente por isso que muitos se perdem no meio do caminho quando na verdade estão perto de iniciar um novo momento em suas vidas!

Este filme é único... e imperdível para aqueles que gostam de pensar e repensar seus próprios valores!

23 de agosto de 2012

Vale praticar a DR?

Quando eu vejo uma estreia com a Meryl Streep, vou cegamente sem medo de me frustrar. Mesmo se ela  protagonizasse um filme de funk carioca eu iria - nada contra os cariocas, vale ressaltar. Eu penso que não existe uma atriz moderna tão eficiente, tão talentosa e tão profunda no que faz.

E, mais uma vez, me encantei, me emocionei, chorei e gargalhei ao mesmo tempo que fiquei estupefato diante do talento de Meryl dramatizando e dando vida a algumas situações que parecem vulgares ou grosseiras, mas não nas mãos de Mistress Streep.

O roteiro parece comum - e na verdade é - UM DIVÃ PARA DOIS (HOPE SPRINGS, EUA 2012) fala de uma dona de casa exemplar que tenta arrastar o seu teimoso marido, vivido por Tommy Lee Jones (que parece dar a alma ao papel como se fosse parte de sua vida!) para o divá do famoso Dr. Bernie (Steve Carell) após sentir que a vida de casado estava se tornando sem sentido. A ambiguidade em dividir o divã e a cama está amplamente trabalhada no roteiro e no desenrolar das ações no filme. Questionamentos fácies de serem espelhados por todos os telespectadores, dando-nos uma sensação de "eu sei o que ela está passando".

O trailer não é um terço do que o filme tem para oferecer, mas vale a pena assistir:

Abra-se para um mundo no qual a maioria prefere não adentrar... e descubra que pode ser divertido SIM falar de sexo!

19 de julho de 2012

Seja simples e ponto final

Hoje lembrei-me de uma máxima dita por Pascal que nos aconselhava a não sairmos do nosso quarto se quiséssemos ser felizes. Não é demais esta constatação? Ela nos faz pensar no conceito ser feliz.

Quando saímos de nosso universo particular, seja ele a nossa casa ou o nosso quarto, temos a oportunidade de assimilar aprendizados e prazeres que quase sempre vêm mesclados com desconfortos e incompreensões. Este é o mundo real! Não é fácil lidar com a dimensão e o pluralismo das pessoas, ainda mais no mundo atual onde todos querem estar conectados com aplicativos e tecnologias e estão desaprendendo a olhar nos olhos e a sorrir desinteressadamente. É fácil deixar alguém descontrolado hoje em dia: só tirar o seu celular de suas mãos por alguns minutos. Soa como se estivéssemos tirando o tubo de oxigênio que o alimenta.

Temos uma tendência, quase doentia, de criar obstáculos que nos complica quase tudo na vida. Penso que a solução única é trabalharmos em direção a descomplicar tudo e todos. As soluções mais simples são sempre as mais eficientes. Temos que aprender e exercitar o ato de não permitir que nossa mente dificulte o que é fácil - acredito que este pode ser um dos grandes segredos da felicidade duradoura. 

Um barulho de chuva no telhado ao adormecer tem o efeito bem diferente do que a compra de um iPad, por exemplo. Já parou para pensar nisso?

16 de julho de 2012

Para Roma com amor

Sábado a tarde, depois de uma semana exaustiva no mestrado e no trabalho, resolvi escolher um filme para relaxar. Como eu não queria correr risco de 'perder' meu tempo, fui de Woody Allen que amo e admiro profundamente seu trabalho. Excelente escolha: Para Roma com amor (To Rome with love, 2012) tem excelentes atuações de Alec Baldwin, Penelope Cruz e do próprio Woody Allen num papel hilário e com as melhores falas/piadas, obviamente. O longa é segmentado em 4 partes principais. Em uma delas, um casal americano (Woody Allen e Judy Davis) viaja para conhecer os pais do noivo de sua filha. Outra história fala de Leopoldo (Roberto Benigni), um simples cidadão que se torna famoso da noite para o dia ao ser confundido com uma celebridade. A terceira história fala de um arquiteto (Alec Baldwin) que está visitando a Itália com um grupo de amigos. E na última história temos dois jovens recém-casados que se perdem  um do outro por uma casualidade geográfica, levando-os a viver situações hilárias e altamente inesperadas.

Pude matar saudades do tempo que passei uma semana na cidade de Roma - que amo incondicionalmente - e ao mesmo tempo dar boas gargalhadas diante de um roteiro inteligente, bem escrito, bem dirigido e com atuações exemplares numa trilha sonora tipicamente italiana.

O diretor ainda usa de algumas fórmulas que funcionaram em seus filmes anteriores e que, a meu modo, se tornam quase obrigatória nesta sua sequência de filmes sobre metrópoles turísticas: imagens de pontos turísticos de tirar o fôlego e atores consagrados em papeis próximos do mundo real.

Woody Allen segue em frente em sua "turnê" cinematográfica, depois de "esquecer" sua amada Nova York. Antes desta película, ele rodou filmes em Londres (Ponto Final - Match Point (2005), Scoop - O Grande Furo (2006), O Sonho de Cassandra (2007) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010) ), Barcelona (Vicky Cristina Barcelona (2008) e Paris (Meia Noite em Paris (2011). Todos são dignos e muito interessantes!

Não tenha dúvida ao escolher Woody Allen na sua versão italiana... é diversão garantida para aqueles que curtem filmes com diálogos filosoficamente engraçados!


13 de julho de 2012

A força de aceitar-se falho



Lendo um conto de Graham Greene tive alguns questionamentos interessantes. No conto, um vilão sai livre e saltitante de seu julgamento, depois de conseguir que as provas que o incriminavam fossem consideradas insuficientes. No entanto, ao atravessar a rua, ele morre atropelado. Agonizando, em suas últimas palavras antes de fechar os olhos para sempre, ele agradece por ter sido a providência divina a condená-lo, não os votos do júri: "Odeio ser julgado pelos outros, prefiro que sejam as circunstâncias a me julgar".

Pensei comigo ao ler o mencionado conto... quantas pessoas, provavelmente por excesso de zelo vindo dos seus próprios pais, são acostumadas a sempre serem desculpadas de qualquer erro ou falta e mesmo assim recebem mais amor do que realmente merecem naquele momento. Estas pessoas crescem e têm uma tremenda dificuldade em aceitar que um estranho as coloque em seus devidos lugares. Sofrem profundamente quando os outros mostram seus erros e não sabem lidar com isso.

Aceitar um julgamento alheio a nosso respeito é algo grandioso e denota uma apurada sabedoria. Exige força! Não é para muitos, pois exige demasiada carga de maturidade. As pessoas de um modo geral gastam muito tempo apontando erros nos outros e nenhum segundo analisando seus próprios desajustes internos.


Meus pensamentos vão de encontro ao que Oscar Wilde certa vez escreveu: "As desventuras são insuportáveis porque vêm de fora, são meros acidentes. É no sofrimento causado pelas nossas próprias faltas que sentimos a ferroada da vida". 

27 de abril de 2012

Precisamos falar sobre Kevin



Temos uma forte tendência arraigada em nosso comportamento que é a de procurar os motivos para as atrocidades que cometemos ou que são cometidas contra a gente. Precisamos visceralmente de encontrar um bode expiatório para nossos erros, medos, desejos, pulsões, covardia etc... mas quando não encontramos um 'culpado', tudo se transforma em ruínas, estilhaços e peças de um quebra-cabeça que jamais será montado. A sensação massacrante que vem deste profundo desconforto foi PERFEITAMENTE trabalhada no filme Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, England 2011) que parece ter sido feito sob medida para a talentosíssima e sui generis atriz Tilda Swinton. Nenhuma atriz da atualidade conseguiria expressar tamanha dor, sofrimento e estupor diante dos fatos que acontecem.

Quando uma mulher dirige um filme deste porte, temos inevitavelmente uma obra-prima. A sensibilidade que a diretora Lynne Ramsay imprime ao nos narrar a história - mesmo que cheia de flashback que ao telespectador desatento seria um prejuízo - nos tira do conforto da poltrona e questiona profundamente os nossos valores éticos e morais. Seria quase impossível ficar inerte ao assistir as cenas da película sem emitir um juízo de valor.

O filme nos relata a história de um adolescente (Kevin) que comete um assassinato em massa, gerando assim um turbilhão de reações psicológicas avassaladoras em sua família e, principalmente, em sua mãe. A cada feedback no enredo, temos conhecimento de uma parcela da infância de Kevin que, desde muito pequeno, desenvolveu um prazer doentio em provocar e desconcertar sua própria mãe. Ao crescer, o pequeno sádico requinta e estiliza a forma com que desafia sua mãe. O tempo todo, Eva, tenta falar do filho com o marido, mas não obtém retorno. Na cabeça do pai o filho é querido e meigo com um comportamento típico de um garoto de sua idade. Um grande exemplo no que a falta de diálogo pode levar um casal ou do que a falta de percepção de uma pessoa pode provocar.

Imperdível e altamente recomendado para quem interessa em discutir a essência humana e suas mazelas.


22 de março de 2012

O ego e suas artimanhas

Sempre que estamos ao lado de um estranho, temos a tendência de puxar assunto usando o clima como mote principal. Geralmente falamos “Que calor” ou “Que chuva” e, por ai vai. De certa forma, quase sempre iniciamos uma conversa reclamando de algo. Quem está realmente falando nesta hora é o nosso ego. Ele é como uma criança mimada que requer atenção o tempo todo. Se não o atendermos, ele fará birra. E se você for mais perspicaz em seu dia-a-dia vai perceber uma enorme quantidade de pessoas que andam fazendo bico e resmungando da vida e de tudo. Resmungam até quando não têm motivo para tal. Reclamar vicia!

Diria que o mesmo acontece com as pessoas que convivemos. Muitas são mentirosas, falsas, mesquinhas, traiçoeiras... o que no fundo não temos muito o que mudar. Cada um é o que é. Mas COM CERTEZA poderemos mudar a forma como sentimos e interpretamos o comportamento destas pessoas.

Eu costumo meditar que “ninguém consegue ofender ninguém se a pessoa não permitir”. Não quero criar apologia à violência, muito pelo contrário, quero dizer que as tentativas de ofensas são conceitos totalmente subjetivos. Quase sempre não sabemos distinguir entre uma situação e sua interpretação de uma reação a esta mesma situação.  E o ego adora bagunçar nossos interesses.

Muitas coisas não podem ser mudadas apenas porque as percebemos, mas podemos coordenar a nossa reação diante de um incômodo pessoal. Isso é ser emocionalmente inteligente. O ego é esperto.

A esperteza divide, enquanto a inteligência inclui. Pense nisso!

25 de janeiro de 2012

Luiza, Estupro, refrões musicais vulgares e outras brasilidades


Gastam-se páginas e páginas de revistas, horas e horas em redes televisivas e dias e dias do tempo do povo brasileiro comentando exaustivamente  alguns assuntos fúteis e recorrentes. 

Um deles é sobre uma desconhecida que se torna 'famosa' da noite para o dia depois que o pai, durante um comercial de televisão, menciona que a família toda está reunida, menos a tal filha que está no Canadá - denotando um extremo mau gosto que beira à arrogância típica da classe média brasileira.

O outro é um suposto estupro acontecido no exaustivo reality show que trata os participantes como ratinhos de laboratório, onde se dá comida, determina provas e bebidas, de acordo com a necessidade da pesquisa - no caso aqui, troca-se pesquisa por ibope. O casal bêbado dança em ritmos totalmente eróticos, vão para cama juntos, inciam carícias altamente sexuais e a suposta vítima adormece. O afoito 'vilão' continua matando sua sede carnal em rede nacional e acaba indo para delegacia prestar esclarecimentos. A moça, branca e loira fazendo-se de ingênua, continua no programa.

E o último caso resume-se numa vulgar melodia que não sai da boca do povo. A 'essência' da chamada música se resume em 'pegar' uma pessoa. E olha que o gesto coreográfico que acompanha o pegar não é nada sutil. É o típico jeitinho brasileiro condensado numa gesticulação que insistem em chamar de música.

Impossível não pensar nos valores culturais que nosso país está cultivando, ou melhor, está descultivando. Difícil não ficar chocado ao ver criancinhas dançando e repetindo gestos que soam vulgares e ridículos. Triste saber que ocupamos horas do nosso dia discutindo algo totalmente banal e inútil que molda a cabeça de nossas crianças.

Enquanto isso... ai ai ai se perguntarem sobre a nossa colocação mundial no ranking da educação!!!!!



4 de dezembro de 2011

E a necessária dança das máscaras



É como numa preparação para um espetáculo. Diariamente olhamos no espelho e escolhemos qual máscara usaremos. Sempre usamos algumas que são padrão: pai dedicado, filho exemplar, aluno excelente, chefe mandão, líder amigo, amigo honesto, namorado fiel, funciónário do mês etc...  algumas são usadas com tanta frequência que grudam em nosso rosto/ser a ponto de nos confundir profundamente, gerando uma crise de identidade. Facilmente pensamos que SOMOS o que na verdade ESTAMOS usando! O perigo é que a máscara pode grudar de tal forma que os dois rostos se fundem e não sabemos mais qual é o verdadeiro (se é que existe algum). Perdemos a nossa identidade no emaranhado de 'personalidades' que vamos usando ao longo da vida. Vamos seduzindo a tudo e a todos, como em um baile de máscaras, e no final, ao olharmos no espelho, descobrimos que enganamos a nós mesmos.


Muitas vezes ouvimos a expressão "dar a cara à tapa" - simbolizando a necessidade de sermos corajosos para enfrentar uma situação onde podemos ser julgados e expostos, mas em raríssimos momentos estamos realmente dando a cara para bater. Frequentemente estamos exibindo uma máscara para nos proteger, não para bater. Não necessariamente é ruim ou significa que não somos verdadeiros. Muito pelo contrário! Muitas vezes levamos anos construindo uma máscara que pode nos proteger de momentos de grande dor ou sofrimento. Não existe uma pessoa sequer neste planeta que não tenha desenvolvido suas próprias máscaras. Dezenas, centenas, milhares... quanto menos delas, mais corajosos nos tornamos, pois lidar com nossos fantasmas internos é uma atitude para bravos. E bravura é, sem dúvida alguma, algo raro hoje em dia. Não confunda bravura com violência!

Não é à toa que apreciamos tanto o teatro, os filmes e as novelas. Ali, apesar de temos a certeza que os personagens estão 'fingindo', sentimos prazer e nos projetamos no baile de máscaras apresentado em cada uma destas artes. É saudável, é necessário, é imprescindível... até certo ponto.

O maior perigo não é o USAR máscaras, mas sim o CAIR delas. Afinal de contas todo baile tem hora para começar e hora para terminar... o ideal é aproveitarmos enquanto a valsa ainda embala nossos devaneios, pois a carruagem sempre se transforma em abóbora quando o tempo expira.



31 de outubro de 2011

O palhaço em cada um de nós

Meus gêneros preferidos de filme sempre foram o drama e o suspense. Neste quesito sempre apreciei os trabalhos de Las Von Trier, Woody Allen, Alfred Hitchcok e por ai vai... são diretores que entendem da arte de questionar e expressar as dificuldades humanas e suas relações afetivas. Geralmente não assisto comédias porque elas mais me irritam do que me divertem. Tenho algumas exceções, claro, tais como: A sogra (Monster-in-Law, 2005), Alguém Tem que Ceder (Something's gotta give, 2003) e Simplesmente Complicado (It's complicated, 2009), pois são filmes cômicos recheados de inteligência. É muito mais difícil para um filme de comédia ser engraçado do que um drama ser pesado, isto é um fato inquestionável.

Voltando ao mundo da comédia... confesso que fui assistir ao filme "O PALHAÇO" (2011) de Selton Mello com muito receio, já imaginando que eu poderia arrepender-me até o último fio de cabelo, mas resolvi dar uma chance ao cinema nacional. Era o filme seguinte ao horário do meu almoço, resolvi apostar!

Aposta ganha! Um filme intenso e profundo que naturalmente tem a artimanha de nos fazer rir e chorar ao mesmo tempo - Senton Mello consegue proezas na direção e na atuação usando a simplicidade dos diálogos e a composição natural das cores da paisagem do centro-oeste.  Tudo isso regado às excelentes atuações de atores não conhecidos do público, mas com talento e veia cômica apuradíssimos. Excelentes participações especiais de alguns atores esquecidos da telinha.

Esta obra é um exemplo claro e típico de que o sucesso pode ser atingido com a simplicidade sem a pirotecnia que os filmes modernos usam para nos chamar a atenção. Parabéns ao Selton e ao Brasil que está tateando a merecida projeção cinematográfica sem a maçante apelação sexual dos clichês!

26 de outubro de 2011

Malhação interna

Outro dia, durante minha aula de Yôga percebi uma pequena cicatriz no meu corpo que eu nunca tinha notado nem sequer me lembrava de como ela tinha sido feita... aquela observação me levou a tantos outros pensamentos que passei o restante da aula viajando no tempo e no espaço. Sempre fui muito preocupado em evoluir de dentro para fora. Talvez por isso que ao conhecer o Yôga eu tenha me identificado tanto.

Costumamos não conhecer nosso próprio corpo físico - lido com este desafio diariamente em cada ásana no Yôga que tenho que avançar, avançar e avançar quando o corpo, na verdade, já está no limite físico - e por vício e comodismo sempre colocamos nossa atenção apenas no mundo externo. É sempre mais fácil perceber os erros/defeitos nos outros do que em nós mesmos! A velha mania de apontar os dedos.

Geralmente é notório quando uma pessoa não se aceita fisica ou psicologicamente. Ela é azeda, amarga, pessimista e agressiva. Estas pessoas, negativas, estão sempre cercadas de problemas, dramas e incidentes. São reações geradas pela incapacidade de se "conhecer". Temos que ser fortes para encarar nossos próprios defeitos, pois só assim poderemos dizimá-los e/ou reduzí-los de tal forma que sejam imperceptíveis! Cultivar o bem e reduzir o mal. Iluminar de dentro para fora para que nossos 'quartinhos' escuros percam a força! Fácil não é, mas os resultados são extasiantes.

Autoconhecimento é necessário de forma infinita em nossas vidas. Acho uma discrepância a sociedade moderna que incentiva e valoriza o silicone, os corpos esculturais, os dentes artificiais, as pílulas sexuais etc mas mascaram a realidade interna. Acho necessário e altamente recomendado que as pessoas se cuidem e sejam vaidosas. Mas a vaidade isolada do autoconhecimento é algo totalmente pernicioso!

A cada quilo levantado nas academias deveríamos criar novas sinapses cerebrais lendo um bom livro, aprendendo um novo idioma, praticando uma meditação etc.

O que futuramente pode acontecer é que teremos corpos perfeitos carregando mentes desequilibradas!

2 de outubro de 2011

A árvore da Vida

É interessante como o diretor Terence Malick consegue nos extasiar já nos primeiros instantes que sua obra "A árvore da vida" (The tree of life, EUA, 2011) abre a tela. Tudo parece desconexo - para quem está acostumado a assistir filmes com narrativas lineares. Tira-nos o conforto do óbvio.

O enredo gira em torno de uma família texana na década de 50. Brad Pitt faz um pai durão e exigente, casado com uma linda e carinhosa dona de casa interpretada pela atriz Jessica Chastain. O nascimento dos 3 filhos homens dá o desfecho dramático ao exibir as etapas de sua educação e desenvolvimento.

A filme vai e volta no tempo, constantemente, fazendo com que o telespectador desatento se perca facilmente e sinta-se frustrado no entendimento da história. As imagens da natureza exemplificadas na figura de dinossauros, estranhos seres marítimos, universo e suas luzes, explosões vulcânicas e solares, é de tirar o fôlego e deixar qualquer um relaxado e pensativo na poltrona do cinema.

É um filme para "meninos" sobre meninos... é impossível assistir às cenas e não se identificar com o universo no qual elas foram retratadas. Algo mágico, reminiscente e altamente nostálgico vem à tona. Uma drama bem escrito, equilibrado e bem dirigido onde excelentes cenas geradas ao acaso - principalmente com os bebês - tão um tom de realidade absurda.

É uma obra para ser sentida, admirada e não para ser explicada ou racionalizada!